Brasil em Questão - A Universidade e a Eleição Presidencial Lauro Morhy* Abre-se,
neste momento, o debate nacional sobre as eleições gerais
de 2002, de iniciativa da UnB. Os desafios propostos ao Brasil, neste
início de século, são muitos. Por um lado, a integração
do País aos setores mais dinâmicos da economia internacional
impôs, ao longo da década de 90, um menor grau de autonomia
interna para a determinação dos interesses nacionais.
Por outro, o resgate de nossas expressivas dívidas sociais não
se completou, e amplos segmentos da população permanecem
à margem dos benefícios do desenvolvimento socioeconômico. | Voltar ao Início | Vamireh Chacon* A identidade nacional é uma história, não é uma essência, mostrou-a muito bem Octávio Paz no seu livro O Labirinto da Solidão: a identidade vale mais pelo que não revela, que pelo que revela. Precisa ter sua consciência dinamicamente renovada, atualizada, embora com os olhos tanto no futuro quanto no passado. A nação é o povo de hoje, ontem e amanhã. Quem não sabe de onde vem, não sabe para onde vai. Não há caráter nacional fixo como destino inexorável e sim identidade cambiante nas formas, porém com a mesma seiva originária que vem das raízes profundas. Quem faz a cultura é o povo, demonstra-o com tanta intensidade e firmeza Ariano Suassuna em nossos dias. Povo de hoje com o de ontem, nossos ancestrais, com o de amanhã, nossos descendentes, todos juntos na construção da nação brasileira. Do passado, herdamos o fruto do seu trabalho e a consciência nacional do seu brio; ao futuro, nós, povo de hoje, temos de retransmitir fortalecido esse duplo legado. Machado de Assis, que sempre teve extraordinária sensibilidade para o social e o político, ao contrário do que dizem alguns dos seus críticos em 24 de março de 1873 publicava seu artigo Instinto de Nacionalidade, no qual, em síntese, afirmava: "Esta outra independência não tem Sete de Setembro nem campo de Ipiranga; não se fará num dia, mas pausadamente, para sair mais duradoura; não será obra de uma geração nem duas; muitas trabalharão para ela até perfazê-la de todo". A nacionalidade compõe-se de regiões, não se subdivide. Permanece íntegra também no Brasil, como Sílvio Romero muito bem entendeu e explicou já em 1888: "não sonhemos um Brasil uniforme, monótono, pesado, indistinto, nulificado, entregue à ditadura de um centro regulador das idéias". "A grandeza futura do Brasil virá do desenvolvimento autonômico de suas províncias, hoje estados. Os bons impulsos originais que nele aparecerem, devem ser secundados". Não se trata, portanto, de separatismo, "é apenas afirmar a unidade na multiplicidade": Missão do federalismo brasileiro, sem esquecer o município, raiz espacial e especial da árvore da nacionalidade. A nacionalidade está, mais uma vez, ameaçada em meio à suposta novidade do que vem se chamando de globalização, com tanto estardalhaço, mas que não é propriamente nova. Os historiadores das civilizações, como um todo, há muito demonstram a existência de expansões de centros econômicos e de decisão política, desde os primeiros impérios da Antiguidade até a construção do que Immanuel Wallerstein denominou de economias-mundo, porque o cobrindo por completo, a partir da Revolução Comercial pelos portugueses e espanhóis no século XVI, prosseguidos por franceses, holandeses, ingleses, em sucessões competitivas inclusive à mão armada, até os Estados Unidos em nossos dias, após as derrotas parciais do Japão, Alemanha e Itália na Primeira Guerra Mundial, totais na Segunda. Hoje, a brasilidade está mais que nunca ameaçada por fora e por dentro em nosso projeto de nação. Como sempre - as anteriores globalizações o comprovam - haverá muitos globalizados e poucos globalizadores. Em meio a toda nossa solidariedade internacional, cada vez mais e mais que nunca necessária e urgente, sempre lembremos a posição da nossa contribuição, a começar pela situação interna, base e fundamento do nosso desempenho externo. Uma casa dividida não sobreviverá. Tem-se de cuidar, com prioridade, da qualidade de vida para o brasileiro construtor da brasilidade. Todas as grandes economias mundiais fundamentam-se em amplo e sólido mercado interno, fonte também de paz social e principal realimentador da ciência e tecnologia nacionais. Educação básica e saúde para todos: eis o ponto de partida. Não se pode ficar vendendo empresas estatais para inúteis esforços de cobertura de deficits e juros da dívida interna. O que acontecerá quando da venda da última estatal, sem cabal reforma do Estado nas causas do deficit crônico? A resposta está na atual situação da Argentina na pior crise da sua história, em pleno começo de outro século, recebendo a pesada herança negativa do passado tanto antigo quanto recente. Atentemos para o potencial maior impacto da assimetria: a crise no Brasil seria muito pior que a Argentina, pelas muito maiores população e economia brasileiras. Atentamos, também, ao panorama do mundo em busca de integrações nem sempre verdadeiras. Veja-se o lado da dívida externa. O Brasil precisa valer politicamente seu peso econômico internacional, apesar de tudo, entre os dez ou quinze maiores do mundo, inclusive pela exportação de produtos tecnológicos com cada vez mais valor agregado, sem se descurar outro tanto da agricultura e dos serviços. Só com economia e sociedade fortes internamente e fazendo-se valer internacionalmente, é que poderá haver autêntico combate a violência local e mundial: a paz é fruto da justiça. A Universidade de Brasília ora inicia um ciclo de debates preparatórios dos que sucederão com os candidatos à Presidência da República.
| Voltar ao Início | Amado Cervo* As
relações internacionais do país correspondem ao
debate da série O Brasil em questão, que a Universidade
de Brasília programou tendo em vista as eleições
presidenciais. Embora pouco presente nas campanhas dos candidatos, a
política exterior é tão importante para o país
quanto a interna. Iniciamos esse artigo com um breve balanço
do que sucedeu recentemente na América Latina e no Brasil. *Amado Cervo é professor titular de História das Relações Internacionais da Universidade de Brasília | Voltar ao Início | Investimentos
na Infra-estrutura: órfãos do Plano Real Dercio Munhoz* O
Brasil aprendeu cedo a importância dos investimentos na infraestrutura
para o global da economia, e as vantagens de uma ação planejada visando
remover estrangulamentos que inibem o crescimento. Assim, na primeira
metade dos anos 50, o país procurava estabelecer um plano de ação nas
áreas de saúde, alimentação, transporte e energia - o Plano SALTE -,
desaguando na criação de empresas estatais (como a Eletrobrás e a Petrobrás),
com a missão de comandar os estudos e os investimentos em áreas estratégicas.
Criava-se, paralelamente, o BNDES, como uma instituição de fomento que
desse suporte aos investimentos. *Dercio Munhoz é economista e foi professor Titular do Departamento de Economia da UnB até 1996 | Voltar ao Início | Educação,
Ciência e Tecnologia Lauro Morhy* Hoje
o mundo reconhece que o preparo educacional e cultural de um país é
mais importante do que sua riqueza física. Nos Estados Unidos, por exemplo,
estima-se que o capital humano é pelo menos três vezes mais importante
do que o seu capital físico.
Pode-se
considerar que a educação brasileira apresentou melhores resultados
nas ultimas décadas. Mas é preciso avançar muito mais.
Fonte: INEP. Aval. Sist. Educ. Brás. Tendências e Perspectivas, 1998; (*)Estatísticas Educacionais, IBGE-PNAD Consideramos, porém, que apesar da melhoria ao longo do século passado, o atual índice de analfabetismo no país ainda é muito elevado. O Brasil ainda inclui-se entre os dez países do mundo com maior número de analfabetos. 2. Educação para todos De acordo com compromisso assumido juntamente com outros países no início da década de 1990, o Brasil deveria universalizar o acesso ao ensino fundamental até o fim da década. Apesar dos esforços, chegamos a atender 96% das crianças em idade escolar. Não há justificativa técnica, financeira ou de recursos humanos que justifique a existência ainda de cerca de dois milhões de crianças fora da sala de aula. Essas crianças provavelmente compõem grande parte dos meninos de rua nas grandes cidades brasileiras e os menores que estão sendo explorados com pesados trabalhos no campo. 3. Ensino Médio O
Ensino Médio regular incorporou 3,5 milhões de alunos entre 1994 e 2001.
Nesse nível de ensino, o Brasil alcançou os seus melhores resultados:
aumentou em 71% o número de matrículas e mais do que duplicou o número
de concluintes no mesmo período. Ciência e Tecnologia
Educação, Ciência e Tecnologia são vertentes interligadas que alimentam,
impulsionam e aceleram a Sociedade do Conhecimento e da Informação.
A qualidade e a excelência permeiam esses três pilares do mundo contemporâneo. Um dos problemas crônicos da área de C&T é assegurar recursos para o financiamento continuado das atividades. Pode-se considerar que nos últimos 2 anos o panorama começou a mudar para melhor, com a criação dos fundos setoriais. Esses fundos permitem alavancar recursos para a atividade científica e tecnológica, porém, há preocupações quanto à predominância na sua aplicação. No passado, investiu-se de modo concentrado na atividade científica fundamental, tendo ficado de lado a atividade tecnológica; teme-se que agora os recursos dos fundos negligenciem a pesquisa básica. É importante que haja um equilíbrio estratégico nos investimentos. Há um princípio constitucional em favor da regionalização do orçamento. A C&T no Brasil exacerbou na concentração de investimentos na região Sudeste do país, acarretando desequilíbrios superiores aos verificados quando analisados os indicadores sócio-regionais do país. Espera-se dos presidenciáveis um compromisso simples e factível: cumprir a Constituição também quanto a esse assunto. *Lauro Morhy é Reitor da Universidade de Brasília | Voltar ao Início | Cidadania,
exclusão social e violência? Dóris Santos de Faria* Existe
de fato relação entre cidadania, exclusão social e violência? Ou trata-se
de mais uma generalidade explícita que termina por subliminarmente condicionar
uma relação entre pobreza e violência insuficiente para resolver os
nossos problemas? Se existe relação entre pobreza e violência, a violência
deveria ser - em acordo com as estatísticas oficiais sobre a pobreza
no Brasil - infantil (50 %), parda ou negra (43 %) e sem educação fundamental
(61 %). Não há qualquer dúvida de que isso não é realidade. | Voltar ao Início | Os
presidenciáveis e a educação João Batista Araújo e Oliveira* A
Universidade de Brasília vem promovendo, ao longo deste primeiro semestre,
um fórum semanal sobre os vários assuntos que afetam a vida da res publica.
Os documentos do fórum serão publicados e enviados aos candidatos como
subsídio para seus planos de governo e como provocação para um debate
na UNB. Hoje, o autor está participando do fórum sobre educação, versão
completa de sua apresentação pode ser obtida no site www.andi.org.br
Segue um brevíssimo resumo. Diversidade
Regional Brasileira Marcos Formiga* Na quarta-feira, 5 de junho, a UnB retoma o Fórum Brasil em Questão - A Universidade e a Eleição Presidencial, com o tema "Diversidade Regional Brasileira." Estudos recentes mostram o recrudescimento das disparidades entre as regiões do País. Dessa forma, à decantada e variada riqueza de recursos naturais, cultura e oportunidades, contrapõem-se desigualdades de padrões de vida e de renda de sua população. Essas desigualdades podem ser observadas pela respectiva contribuição das diversas regiões para a formação do Produto Interno Bruto (PIB). De fato, mais da metade do PIB - cerca de 58% - concentra-se no Sudeste, seguido pelo Sul e, à grande distância, o Nordeste, o Norte e o Centro-Oeste. Diante, especialmente, dos desafios de desenvolvimento colocados por estas três últimas regiões, estimulou-se a criação de fundos constitucionais para a correção dessas desigualdades e a promoção de maior dinamismo econômico dessas regiões. Assim, se, por um lado, as desigualdades regionais definem um conjunto de diferenças, por outro, consubstanciam oportunidades e potencialidades, cujo aproveitamento é condição para o desenvolvimento do País. O Centro-Oeste, por exemplo, precisa ser melhor conhecido. A região possui uma área de 1.600 quilômetros quadrados, mais ou menos equivalente à do Nordeste; e, apesar de ter registrado, nos últimos anos, taxas de crescimento econômico superiores ao crescimento do Brasil, produz apenas 6,8% da renda nacional, sendo caracterizada, ainda, por fortes desigualdades socioeconômicas intra-regionais e interregionais. Para estimular a publicação de estudos sobre a realidade da região, contribuindo para a superação de seus desafios e consolidação de uma identidade regional, o Ministério da Integração Nacional, por meio de sua Secretaria Extraordinário do Desenvolvimento do Centro-Oeste (SCO), lançou a Coleção Socioeconômica do Centro-Oeste. Os desafios das regiões Norte e o Nordeste não são menores. Elas possuem o maior número de pobres do País, reflexo da expressão desigual de sua atividade econômica diante das demais regiões. Mas existem mesoregiões diferenciadas por seu dinamismo econômico nas regiões mais pobres: como o Médio São Francisco e o Oeste da Bahia, por exemplo. A persistência de padrões de desenvolvimento desiguais no Norte e Nordeste está relacionada a carências de infra-estrutura, nível de qualificação da mão-de-obra, dificuldades no manejo dos elementos ambientais. Os desníveis educacionais levam a baixos níveis salariais e formam uma barreira para investimentos de maior nível. A saída está na educação e na identificação das diversidades regionais que garantem a riqueza do País, apontando oportunidades para a eliminação das desigualdades e o alcance do desenvolvimento sustentado. Nesse sentido, multiplicam-se êxitos na experiência dos clusters: organização de empresas, concentradas geograficamente, voltadas para determinado setor de atividade de forma verticalizada, incluindo fornecedores de insumos, produtores, serviços de comercialização até clientes e instituições de ensino. Este deve ser o desafio político da diversidade regional brasileira: a construção de um projeto de desenvolvimento nacional que inclua a busca da homogeneidade do padrão de vida das pessoas e a valorização da diversidade dos espaços. Analisar as disparidades regionais é uma exigência para definir formas de equacionar os desequilíbrios. A fórmula "tratar desigualmente os desiguais" deve persistir, mas com o compromisso inadiável do governo e da sociedade com uma política de diminuição das desigualdades, superando o falso dilema da eficiência com eqüidade. * Marcos Formiga Professor do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), membro do Grupo Estratégico de Assessoria do Reitor da universidade e Secretário Extraordinário de Desenvolvimento do Centro-Oeste do Ministério da Integração Nacional | Voltar ao Início | Marcel
Bursztyn* A relação do Brasil com a Amazônia revela que há muitas perguntas para as quais não se tem resposta seguras e muitas respostas (ações) que são dadas sem se conhecer as perguntas. Até hoje não sabemos bem qual é, de fato, a vocação da região. Não conhecemos ao certo quais as potencialidades (sabemos que são muitas...) e quais as limitações (temos certeza de que são preocupantes...). Sabemos que a dinâmica da floresta tem implicações sobre o clima do planeta, mas não sabemos ao certo em que medida e qual é, de fato, a ordem de grandeza das mudanças climáticas globais provocadas pelas alterações físicas do bioma amazônico. Temos plena consciência de que a floresta esconde um imenso potencial de aproveitamento econômico, seja na produção de fármacos, seja na de cosméticos, de alimentos, de minerais e tantos outros produtos. Mas não sabemos como explorá-los de forma racional e sustentável. Como evitar que usos potenciais sejam pesquisados, apropriados e patenteados sem que isso traga benefícios para as comunidades locais, para a região ou para o País? Sabemos das vantagens comparativas que representam possuir um gigantesco manancial de água doce, mas não sabemos como explorá-lo economicamente e de forma sustentável. O máximo que conseguimos, até aqui, tem sido gerar energia elétrica, a partir da construção de grandes barragens que provocam degradação ambiental e geram efeitos sociais negativos. Sabemos que os recursos pesqueiros são uma riqueza real e potencial da região, mas não conseguimos transformar esta possibilidade em uso sustentável. Ao contrário, a região já apresenta sintomas de esgotamento de estoques pesqueiros e mesmo conflitos entre pescadores artesanais e industriais. A geração de energia barata, uma sedutora vantagem da região, viabiliza indústrias de transformação mineral intensivas em energia, mas não atende a populações lindeiras às barragens e linhas de transmissão. A lista de perguntas sem resposta é longa. E a ela há que se somar as respostas sem pergunta, ou seja, ações que são empreendidas sem o prévio conhecimento do contexto em que se inserem ou sem análise prospectiva de seus resultados. É nesse sentido que uma complexa rede de infra-estrutura tem sido implementada na região, ao longo das últimas três décadas. E, da mesma forma, também incentivos econômicos e uma política de colonização carrearam para a Amazônia investimentos e fluxos de migração, provocando efeitos que demandam medidas corretivas: desmatamento, queimadas, conflitos fundiários, falta de saneamento ambiental nas cidades, demanda por serviços públicos em geral. Respostas sem perguntas, ou ações sem um projeto para a região, tem sido a tônica da intervenção pública direta e da iniciativa privada espontânea. A ausência de mecanismos regulatórios efetivos tem permitido que, mesmo diante da retração de certos instrumentos - como os incentivos fiscais - a dinâmica de ocupação da fronteira amazônica não tenha arrefecido. Os esforços de zoneamento não resultaram, até o presente, em ordenamento do uso do solo por parte de agentes privados ou mesmo públicos. Por mais de uma década a atividade de planejamento governamental em escala nacional vem sendo eclipsada pela prevalência de princípios neoliberais nas esferas decisórias. Os programas de desenvolvimento recentemente editados (Brasil em Ação e Avança Brasil) têm se revelado como marcadamente segmentados ("eixos de desenvolvimento") e essencialmente voltados a obras de infra-estrutura que proporcionem condições de viabilidade à expansão de atividades econômicas. Apresentam um descolamento efetivo em relação ao enfoque ambiental. Voltar a planejar não significou corrigir vícios do passado: a inexistência de um Projeto Nacional, com seus desdobramentos regionais, resultou em ausência de resposta às indagações reais da Amazônia. Em síntese - e esse é um apelo aos candidatos a Presidência da República - é tempo de se definir um projeto brasileiro para a Amazônia, centrado nas reais expectativas e necessidades da população da região, coerente com as vocações econômicas e em sintonia com os princípios do desenvolvimento sustentável. * Doutor em Desenvolvimento Econômico e Social, professor da UnB (Centro de Desenvolvimento Sustentável e Departamento de Sociologia) | Voltar ao Início | O social nas reformas estruturais José
Geraldo de Sousa Junior As próximas eleições presidenciais abrem a oportunidade para colocar no debate político o tema das reformas estruturais para o País. Aliás, este é o próximo assunto em debate no "Fórum: Brasil em Questão. A Universidade e a Eleição Presidencial", que será discutido no dia 03 de julho em evento que vem sendo conduzido pela UnB. O tema requer muito cuidado em sua abordagem. De fato, não trata essa discussão tão somente do tema da reforma do Estado que ganhou centralidade nos anos 1990, sob impulso de sua crise estrutural, considerando o desafio representado pela globalização, cujas repercussões, políticas e econômicas, conduziam a uma limitação da autonomia dos Estados nacionais, ensejando impasses entre tendências de redução do Estado ao mínimo, ou, ao contrário, de sua reconstrução para poder fazer frente às novas realidades do mercado mundializado. Basta ver, em ambiente europeu, impulsionado pela agenda dos requisitos de adesão à Unidade Européia, o rigor em estabelecer, exatamente, critérios políticos e econômicos, entretanto convergentes, para monitorar os progressos em reformas, cujo núcleo, no primeiro caso, estabeleceu ênfase na reforma do Judiciário e no segundo caso, para alcançar economia de mercado viável e capacidade de resistir à pressão da concorrência e aumentar competitividade. O fato é que o debate não é só teórico, mas responde a imperativos de uma lógica que inscreve o tema da reforma do Estado numa dimensão muito mais ampla que é o da própria reforma estrutural do capitalismo em seu mais amplo sentido globalizante. E essa lógica imprimiu à onda reformista dirigida de forma também global e hegemonista segundo um cronograma conduzido por organismos internacionais (Banco Mundial, FMI) que definiram, segundo interesses também internacionais, o rumo e as etapas de reformas, cujos elementos econômico e político, suplantaram, em detrimento dos interesses nacionais, sua face social e humana. Assim, vem prevalecendo nesse processo, marcado por uma estratégia de privatizações das agências estatais de desenvolvimento e de ajuste de contas públicas, uma plataforma de enxugamento, em nome de uma pretensa eficiência de governo, das atividades estatais em áreas sociais e de gestão de direitos. As importantes reformas estruturais do País - reforma agrária, reforma tributária, reforma do judiciário, reforma eleitoral, reforma da universidade, reforma da saúde, reforma da previdência - não podem perder de vista a dimensão ética de uma alternativa solidária, como estão a indicar as proposições do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, essa formidável articulação em rede de solidariedade propugnando por uma globalização alternativa. Trata-se aí de rejeitar a lógica de exclusão da globalização impulsionada por critérios exclusivamente políticos e econômicos que levam ao sacrifício da experiência democrática e, conseqüentemente à precarização alienante da própria vida e à flexibilização do trabalho, retirando-lhe o estatuto de produto e produtor dos direitos e da cidadania com a perda do humano inscrito no caráter dos investimentos competitivos de um capital sem fronteiras e sem limites. É para esta nota social que o debate que a UnB vem proporcionando deve estar atento, no sentido de recuperar a dimensão ético-social das reformas estruturais para o País, ou seja, de procurar inserir, enquanto proposições transformadoras das instituições, na sociedade e no estado, valores que organizem os princípios de cooperação, solidariedade e participação, por meio dos quais àquela lógica excludente e alienante, que se sustenta no primado da acumulação, se oponha, como prioridade, a disposição democrática que se sustenta no primado de eqüitativa distribuição. Trata-se, portanto, de fazer coro a melhor direção de expectativas que decorrem das condições de redescoberta democrática das relações de sociabilidade, na perspectiva de um novo horizonte de sentido para a globalização, inserindo-a na luta articulada não apenas por reformas institucionais, senão por reformas que sejam mediadas pelo eixo dos direitos e mais propriamente, pelo eixo dos direitos humanos. | Voltar ao Início | Reformas Estruturais para o País José
Geraldo de Sousa Junior No próximo dia 3 de julho, dando seqüência às discussões do "Fórum: Brasil em Questão. A Universidade e a Eleição Presidencial", o tema que a UnB põe em debate é o das reformas estruturais para o País. O assunto é importante não apenas para quem o toma como referência de inserção do Brasil na modernidade. Sob esse ângulo, aliás, por eles se interessam os candidatos, além dos atuais, todos que disputaram as eleições presidenciais desde a redemocratização do País, sendo este tema um divisor de águas das respectivas plataformas. Mas este é também um tema que requer muito cuidado em sua abordagem. De fato, não trata essa discussão tão somente do tema da reforma do Estado que ganhou centralidade nos anos 1990, sob impulso de sua crise estrutural, considerando o desafio representado pela globalização, cujas repercussões, políticas e econômicas, conduziam a uma limitação da autonomia dos Estados nacionais, ensejando impasses entre tendências de redução do Estado ao mínimo, ou, ao contrário, de sua reconstrução para poder fazer frente às novas realidades do mercado mundializado. O fato é que o debate não é só teórico, mas responde a imperativos de uma lógica que inscreve o tema da reforma do Estado numa dimensão muito mais ampla que é o da própria reforma estrutural do capitalismo em seu mais amplo sentido globalizante. E essa lógica imprimiu à onda reformista dirigida de forma também global e hegemonista segundo um cronograma conduzido por organismos internacionais (Banco Mundial, FMI) que definiram, segundo interesses também internacionais, o rumo e as etapas de reformas, cujos elementos econômico e político, suplantaram, em detrimento dos interesses nacionais, sua face social e humana. Assim, vem prevalecendo nesse processo, marcado por uma estratégia de privatizações das agências estatais de desenvolvimento e de ajuste de contas públicas, uma plataforma de enxugamento, em nome de uma pretensa eficiência de governo, das atividades estatais em áreas sociais e de gestão de direitos. As importantes reformas estruturais do País - reforma agrária, reforma tributária, reforma do judiciário, reforma eleitoral, reforma da universidade, reforma da saúde, reforma da previdência - não podem perder de vista a dimensão ética de uma alternativa solidária, como estão a indicar as proposições do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, com o sacrifício da experiência democrática na precarização alienante e na flexibilização excessiva de um processo que implica na perda do humano inscrito no caráter dos investimentos competitivos de um capital sem fronteiras e sem limites. O debate que a UnB vem proporcionando, reunindo no "Fórum: Brasil em Questão", a melhor inteligência nacional e a energia generosa de seus professores e alunos para um diálogo de proposições, deve constituir-se numa recuperação da dimensão ético-social das reformas estruturais para o País, de molde a integrar a agenda dos candidatos às eleições presidenciais de outubro. | Voltar ao Início |
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