A Universidade e a Eleição Presidencial
Centro Comunitário Athos Bulcão - Campus da UnB - 10 h

Notícias do Fórum:
O BRASIL NO MUNDO
06 DE MARÇO

Internacionalização, sim; colonialismo, não

Debatedores apontam a eliminação das disparidades sócio-econômicas como forma de construir uma nova política externa. Para eles, o Brasil não pode ficar fora das decisões internacionais

Autonomia e rumo próprio. Dois caminhos apontados como questões primordiais para uma nova política externa brasileira. Essa foi a tônica defendida com unanimidade pelos participantes do segundo debate do fórum Brasil em Questão - A Universidade e a Eleição Presidencial, que discute os principais problemas nacionais e as possíveis soluções. Mais de1,2 mil pessoas - entre alunos, professores, servidores, políticos e embaixadores - acompanharam o painel O Brasil no Mundo apresentado nessa quarta-feira (06 de março) no Centro Comunitário da Universidade de Brasília (UnB). O fórum faz parte das comemorações dos 40 anos da universidade.

Sob a coordenação do editor da Revista Brasileira de Política Internacional e professor da UnB, Amado Cervo, o painel contou com a participação do jornalista Oliveiros Ferreira, ex-diretor de redação do jornal O Estado de S.Paulo e professor da PUC-SP; do secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Marco Aurélio Garcia, também integrante da executiva nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) e do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, ex-diretor do Instituto de Pesquisas e Relações Internacionais (IPRI). A sessão foi presidida pelo reitor da UnB, professor Lauro Morhy, que destacou a importância da universidade promover este tipo de debate que permite a UnB e o país viver "um momento de brasilidade".

Os quatro conferencistas fizeram uma análise da política externa brasileira e mostraram os aspectos que devem ser levados em conta na sua formulação pelos candidatos à Presidência da República, que virão à UnB a partir do dia 07 de agosto para expor suas propostas de governo.

O professor Amado Cervo ressalta que a estratégia latino-americana de política internacional sofreu uma grande transformação a partir dos anos 90 e apresentou as modificações que também ocorreram no Brasil. Segundo ele, a política externa é de Estado e não de governo. "O futuro presidente deve entender que é importante para o país recuperar a construção de um destino próprio", disse Cervo.

E, para construir esse caminho, o analista internacional Oliveiros Ferreira sugere ao futuro presidente a escolha de uma política externa mais agressiva, inserindo o Brasil no mundo contemporâneo com mais autonomia. Ele defende o combate a premissa de que um país fraco e desarmado na guerra, é forte na paz. "Uma nação que não sabe defender seus interesses entre as demais tende a desaparecer", garante Ferreira, também professor da PUC-SP.

Para o Secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo, Marco Aurélio Garcia, a política externa é um instrumento de projeção do país, mas está condicionada à existência de um projeto nacional interno. O eventual ministro das Relações Exteriores em um possível governo do Partido dos Trabalhadores (PT) disse que o Brasil vive hoje grandes impasses com a degradação do Mercosul, com a questão da Alca - "empurrada com a barriga pelo governo brasileiro e comandada pelos EUA" , além das turbulências econômicas e políticas.

Por isso, afirma que a necessidade de repensar a política internacional passa antes pela construção de um novo modelo econômico com características sociais e desenvolvimentistas, pela busca de uma maior democratização do Estado e da sociedade. "Só assim será possível inserir o Brasil de forma soberana no mundo", analisa Garcia.

Já o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães ressaltou como está a política externa brasileira a partir das tendências atuais do mundo. Destacou a aceleração do conhecimento científico e tecnológico; a reorganização produtiva civil e militar, a reestruturação territorial com desintegração territorial e criação de novos estados e o excessivo processo de concentração do poder econômico, político, militar e tecnológico em poucas nações.

"O Brasil precisa resolver as disparidades econômicas, sociais, políticas, regionais; combater a sua vulnerabilidade tecnológica e militar, assim como construir uma democracia de fato", diz Guimarães, conhecido por suas opiniões críticas em relação à política externa do governo FHC.

Foram três horas de exposição e muito debate. O próximo painel, cujo tema é Políticas de Distribuição de Renda, acontece no dia 20 de março. Não perca.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da UnB. Participaram dessa cobertura os jornalistas Ariane Abrunhosa, Rodrigo Caetano e Welington Fonseca. Apoio técnico de Branca Reis e fotos de Ornil Júnior.

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Chorinho de primeira



Grupo Sorrindo à Toa abre o segundo debate do fórum Brasil em Questão com
músicas de Jacó do Bandolim e Waldir Azevedo

Dois cavaquinhos, um pandeiro e chorinho. Os instrumentos orquestrados pelos integrantes do Grupo Sorrindo à Toa, composto por alunos da Escola de Choro Rafael Rabelo, deram o tom e o clima para a abertura do painel O Brasil no Mundo. Leonardo Benon (18 anos), Marcos Marinho (17 anos) e Augusto Contreira (16 anos) tocam juntos há mais de um ano.

O trio comandou o show antes do segundo debate do fórum Brasil em Questão - A Universidade e as eleições Presidenciais, realizado no dia 6 de março (quarta-feira) no Centro Comunitário da Universidade de Brasília (UnB). No repertório, Noites Cariocas, de Jacó do Bandolim, Pedacinho de Céu e Carioquinha, de Waldir Azevedo. Liderado por Benon, aluno de Música da UnB, o grupo tocou um chorinho de primeira que agradou bastante o público de mais de 1,2 mil pessoas.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social. Foto: Ornil Júnior

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O que pensam os debatedores

  AUTONOMIA MUNDIAL
"Para que o Estado possa enfrentar os desafios da sociedade brasileira, a nossa política externa, deve manter o maior grau de autonomia possível. Para isso, é importante evitar compromissos excessivos que dificultem a elaboração de políticas públicas internas. Devemos contribuir também para construção dessa multipolaridade internacional, construindo um pólo sulamericano para que o Brasil possa participar melhor do cenário mundial".

MERCOSUL E ALCA
"Com a Alca, o Mercosul simplesmente desaparece. Se não houver também, uma revisão da estratégia brasileira em relação ao Mercosul, ele fracassará. É preciso mudar a estratégia brasileira. A Alca é um processo de negociação que cria uma área de livre comércio. Num dos lados está um dos maiores países, possuidor de 20% do PIB mundial e de 79% do PIB das Américas, e do outro lado, o Brasil. Se você chega a eliminação total das barreiras de comércio, na prática, haverá uma absorção da economia brasileira pela norte-americana. Como está acontecendo com o México. Assim, o Estado brasileiro não poderá ter políticas e a situação brasileira exige políticas de Estado."


Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães
     
  SOBRE O DEBATE
"Esse debate foi muito importante para que os alunos possam ter consciência dos reais problemas que afetam o País. Foi perfeito. Estamos pensando no futuro. É isso que precisamos fazer, pensar no passado, já não adianta mais.

Oliveiros Ferreira

     
  MUDANÇAS DE RUMO
"É necessário uma reconstrução do modelo econômico do país, a partir de uma ênfase nas questões sociais. Nosso país tem dezena de milhares de pessoas que estão excluídas da produção, do consumo e, conseqüentemente, da cidadania. Um modelo de desenvolvimento a partir do social terá uma função indutora sobre o modelo econômico muito importante. Ele vai reconstruir uma nova economia."

INTERESSES NACIONAIS
"Outra questão é da soberania nacional. E aí, entra a questão da política externa. Precisamos ter uma presença soberana no mundo. E, para isso, é necessário privilegiar os interesses nacionais, buscar mudanças nas relações internacionais e encontrar aqueles parceiros privilegiados que são os nossos vizinhos da América do Sul, em particular a Argentina, como os quais temos que desenvolver uma política. Isso porque os nossos interesses não são concorrentes e sim, convergentes. As nossas alianças estão aqui e não fora daqui".

Marco Aurélio Garcia
     
  CONFLITO DE INTERESSES
"As relações internacionais no Brasil nos anos 90 aprofundaram caminhos distintos. Avançamos e recuamos. É importante ressaltar os rumos certos, aquele tipo de orientação, pela qual, a política exterior serve a defesa dos interesses nacionais. Por exemplo: empresa, trabalho, emprego, salário. Relações internacionais chama-se conflito de interesses. Um país tem de ter uma leitura correta dos interesses nacionais para tomar decisões adequadas. Não se deixar dominar por ilusões que são colocadas sobre a mesa de negociações. Devemos ficar de olhos bem abertos para esses estereótipos que são lançados como: globalização, abertura de mercado, privatização..."

SUL É PRIORIDADE
"Mercosul, em primeiro lugar sempre. A Alca é um projeto norte-americano ou pelo menos foi dominado pelos Estados Unidos para atender interesses americanos. É mais uma grande armadilha. Se entrármos na Alca, vamos nos estrepar. Então, em primeiro lugar, o Mercosul, em segundo lugar, a América do Sul e em terceiro lugar manter essa soberania decisória para eventualmente, fazer um acordo com a União Européia. A Alca não é prioridade alguma, no momento, para o Brasil."


Amado Cervo

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Curriculum dos debatedores de "O Brasil no Mundo"

Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães
Com quase 40 anos de carreira como embaixador, Guimarães é ex-diretor do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI) do Itamaraty. O sociólogo, autor do livro Quinhentos anos de periferia, faz questão de advertir a sociedade brasileira a cerca dos riscos da criação da Área Livre de Comércio das Américas, a Alca. Suas críticas à conduta da política externa do Brasil no governo FHC vem chamando atenção da opinião pública nacional e internacional.
Contato:

Marco Aurélio Garcia
Professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Capinas (Unicamp), Garcia é um dos ideólogos e teóricos do "novo PT", embora rejeite o rótulo de light que o partido ganhou. Atualmente é Secretário de Cultura da Cidade de São Paulo e integrante da executiva do Partido dos Trabalhadores (PT). É um potencial ministro das Relações Exteriores em um eventual governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Contato:

Oliveiros Ferreira
Jornalista com quase 50 anos de experiência e ex-diretor do Estado de S. Paulo. Analista de política internacional, Ferreira é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP). Intelectual empenhado na elaboração de uma polêmica teoria da política, Oliveiros Ferreira possui vários livros como Os 45 cavaleiros húngaros, dedicado à análise do pensamento de Antonio Gramsci. Na ocasião, estará lançando o seu novo livro sobre a política externa nacional.
Contato:

Amado Cervo
Doutor em História pela Universidade de Strasbourg, Cervo é professor titular de História das Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB). Também edita a Revista Brasileira de Política Internacional. Possui diversos livros publicados como O Parlamento Brasileiro e as Relações Exteriores, A Política Externa Brasileira, História da Política Exterior do Brasil e O Papel da Diplomacia.
Contato:

 

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Opinião de quem participou do debate

- Qual a importância do debate eleitoral que a Universidade de Brasília (UnB) está promovendo?

"Acho importante colocar o Brasil em questão. Nosso país se encaixa no sistema capitalista neoliberal. Precisamos saber como nos encaixamos como produtor de pensamento crítico. Que globalização desejamos? Uma globalização a partir de troca de experiências ou uma globalização em troca de dependências"
Marcelo de Oliveira Arruda, 24 anos, estudante do 8º semestre de Cinema
"O fórum é muito oportuno. Eu percebo a situação do Brasil com muita preocupação, pois não vejo muito firmeza de nossos representantes nos fóruns internacionais no sentido de fazer prevalecer os interesses do país".
Ana Quitéria Nunes Martins, 37 anos, economista do DIEESE
"A situação do Brasil é difícil na parte social. Parece que não há interesse dos governantes que só se preocupam com a estética e economia do país no cenário internacional ".
Raysa Matias, 18 anos, estudante do 1° semestre de Música
   
"O debate foi proveitoso, tratou de aspectos fundamentais e dos dilemas do Brasil na política internacional. São problemas que Cuba também enfrenta. A inserção do Brasil é equilibrada. Possuem uma boa relação com os Estados Unidos, com a União Européia, a Ásia e na América Latina".
Roberto Yepe, 30 anos, Conselheiro da Embaixada de Cuba

"O pessoal discute bem e têm boas opiniões. A subordinação do Brasil aos Estados Unidos é um fato ruim. Precisamos de uma política exterior que diminui-se essa subordinação. Quanto à Alça, deveríamos esquecê-la. O Brasil é um país grande e não deve se subordinar".
Bruno Oliveira Dias, 19 anos, estudante do 1° semestre do Direito

"A questão da política externa está em alta. Os debates vêm a complementar a nossa visão de política internacional, nos prepara para as eleições, colabora na formação acadêmica e como cidadão brasileiro."
Roni Ivan Rocha, 23 anos, estudante 5º semestre de Biologia
"A colocação dos palestrantes sobre as vulnerabilidade do Brasil é muito importante. Uma vez que o país se adequar as exigências atuais em economia e tecnologia como as telecomunicações e a informática vai dar um passo muito importante"
Humberto Galeano, 37 anos, Conselheiro Político da embaixada do Paraguai
"Vejo que a inserção do Brasil no mundo tem um discurso, mas não está em prática"
Lúcia Nascimento, 20 anos, estudante do 1° semestre de Pedagogia

"O debate foi bem construtivo e esclarecedor quanto à questão de governos, o que está acontecendo do contexto internacional referente ao Brasil. Pelo histórico, não avançamos muito. O Brasil no mundo é importante, principalmente, em se tratando de recursos hídricos, aço, entre outras matérias"
Thomas Souza Pontes, 21 anos, estudante do 2º semestre de Contabilidade

"O debate é muito interessante. Estão presentes muitos embaixadores, oficiais, intelectuais da universidade e do PT. É um debate amplo e rico. Não é à toa, já que o Brasil é um dos poderes importantes do mundo" .
Michael Worbs, 51 anos, Primeiro Conselheiro do Departamento Econômico da Embaixada da Alemanha
"As exposições são pertinentes, principalmente a do embaixador Samuel Guimarães. O Brasil tem um grande potencial, mas fica numa situação de subordinação. Ele é inserido porque alguns países querem explorar ou ter benefícios. Somos um país de liderança na América do Sul"
Mário Carvalho, 18 anos, estudante do 2º semestre de Relações Internacionais
"São pontos de vistas que se somam sobre o mesmo assunto. As coisas não caminham só, se a política interna não for montada pensando na política externa e vice-versa não adianta".
Débora Lopes Soares, 21 anos, estudante do 6º semestre de Psicologia
"A questão da Alca, dos armamentos, da política de segurança e política de fronteira, todos pontos foram muito bem abordados, pelos palestrantes".
Tatiana Lobato de Lima, 27 anos, mestranda de Ciências Políticas
"É uma iniciativa interessante levar esse tipo de questionamento para os alunos. É importante estarmos informados sobre idéias bases para os governos que viram e termos uma maior consciência para votar"
Andréia Rodrigues Braga, 21 anos, estudante do 4º semestre de Física
"Os debates são uma oportunidade boa para tirar a discussão de dentro de sala de aula e trazer para um ambiente diferente. Esse encontro do lado de fora é importante, tanto, antes como depois, dos debates".
Paulo Anderson Nerbark, 25 anos, estudante do 3º semestre de Filosofia
 
"A forma como somos representados lá fora, pelo nosso presidente é muito boa, mas você olha aqui dentro é muito ruim. Então, parece mais uma mentira a imagem que passamos para o exterior."
Gabriel Matos Fontelles, 18 anos, estudante do 2º semestre de História

Fonte: Assessoria de Comunicação Social. Entrevista à jornalista Ariane Abrunhosa. Fotos: Ornil Júnior

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