A Universidade e a Eleição Presidencial
Centro Comunitário Athos Bulcão - Campus da UnB - 10 h

Notícias do Fórum:
A UNIVERSIDADE BRASILEIRA
17 DE JULHO

Triste realidade

Fotos: André Augusto Castro

Última rodada do Fórum Brasil em Questão discute o futuro da universidade brasileira. Para especialistas, ou a universidade conquista independência ou morrerá definitivamente

Os dados são alarmantes. Hoje, 70% das matrículas dos estudantes do ensino superior são realizadas em instituições privadas. Nos anos 60, essa relação era de 60% nas universidades públicas (federais, estaduais e municipais) e 40% em escolas particulares. As estatísticas não mentem: o ensino superior brasileiro está em franca crise e pede mudanças. Na quarta-feira, dia 17 de julho, a Universidade de Brasília (UnB) fechou o ciclo de debates Brasil em Questão - a Universidade e as Eleições Presidenciais com discussão sobre A Universidade Brasileira.

Além do reitor da Universidade de Brasília (UnB), professor Lauro Morhy, estavam no encontro o reitor da Universidade da Amazônia (Unama), Édson Pinheiro de Souza; o especialista em Ciência Política e ex-reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Hélgio Trindade e o professor da Faculdade de Educação da UnB, Jaques Velloso. Apesar das diferentes origens do país, a linha entre eles foi consensual: "É preciso nascer uma nova universidade brasileira. Temos de romper com o modelo atual, que está esgotado, e partir para um modelo mais compatível com os nossos dias", sintetiza Morhy.

Segundo ele, o papel da universidade não é bem entendido no Brasil. Quando os portugueses chegaram ao país, no ano de 1500, já existiam 62 universidades no mundo. Cem anos depois, em 1600, só na América Latina, elas já eram 143. Em 1592, os jesuítas tentaram implementar no Brasil a primeira universidade brasileira, mas ela não se consolidou pelo temor da corte portuguesa de o país se emancipar. "Hoje, muita gente continua com medo de uma nova emancipação do Brasil", afirma.

Esse temor pode ser confirmado pela diminuição dos recursos destinados ao ensino superior. Segundo Hélgio Trindade, entre 1989 e 2000, houve uma queda de 33% nos investimentos, passando de 0,97% do Produto Interno Bruto (PIB) para os atuais 0,61%. "As universidades federais estão a caminho de uma morte lenta causada por asfixia financeira, principalmente nos últimos oito anos", reflete.

Apesar disso, ressalta, essa crise não pode mascarar a necessidade de mudanças. O desafio se apresentaria para toda a comunidade universitária. "É preciso existir um debate amplo para sua reforma", afirma. O baixo nível de acesso ao ensino superior não pode ser sanado com a precarização do setor. Apenas 12% dos jovens entre 18 e 24 anos estão matriculados em cursos de graduação. Em países como México, Argentina e Chile esse índice varia de 15% a 30%.

"É preciso expandir quantitativamente o acesso. Mas temos de assegurar a missão pública do ensino superior e evitar a mercantilização do setor privado e a privatização do público", ressalta. O Brasil é responsável pelo 7º maior índice de privatização do nível universitário. Em países como os Estados Unidos, que têm o maior índice de desenvolvimento das universidades privadas, mais de 70% dos estudantes estão em universidades públicas.

Ousadia foi a receita recomendada por Édson Pinheiro. "A universidade é uma casa de idéias onde a imaginação é mais importante que o conhecimento. Isso porque o conhecimento é e a imaginação faz vir a ser", divaga o reitor, que defende a autonomia nas instituições. É preciso, segundo ele, força dentro das próprias universidades. "Não há autonomia sem identidade. É isso que dará a ela coragem de ousar contra tudo e todos que estão aí", completa.

Pinheiro acredita que o empenho do sistema de avaliação criado nos anos de governo Fernando Henrique Cardoso - o Provão - deve ser melhor aproveitado. "Avaliação serve para crescimento e não para punição de cursos, instituições ou alunos", afirma.

Segundo Jaques Velloso, o modelo atual é meritocrático e classificatório. "O Provão não reconhece o valor que a universidade pode agregar ao desenvolvimento do aluno", diz. Ele indica o nível sócio-econômico como um critério a ser contemplado. "Em geral, as universidades federais são mais elitizadas e têm melhores avaliações devido a essa associação", afirma.

Velloso diz ainda que o Brasil precisa recuperar os instrumentos de avaliação institucional das universidades. "Temos de contemplar a globalidade do que é feito nessas instituições para reconhecermos sua importância", critica.

Depois de assistir aos dez primeiros debates, Jeansley Lima, aluno do curso de História no UniCeub, estava novamente na platéia do Brasil em Questão. Ele considera a iniciativa importante para que a sociedade possa escolher um candidato e conhecer o que está sendo proposto a ele. "A UnB deveria fazer um debate como este discutindo as propostas para o Distrito Federal ainda antes das eleições", sugere.

No próximo dia 2 de agosto, será lançado o livro Brasil em Questão, que compila todos os 11 debates. 'É um curso de brasilidade e um subsídio para reflexões para melhorar o futuro do país", afirma Morhy. A publicação será entregue aos candidatos que virão à UnB a partir do dia 7 de agosto.

As agendas ainda não estão confirmadas, mas a previsão é que o primeiro presidenciável a discutir seu plano de governo com a comunidade acadêmica seja Ciro Gomes, candidato da Frente Trabalhista que reúne o PPS, PTB e PDT

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da UnB. Participaram dessa cobertura os jornalistas Ismália Afonso e Ariane Abrunhosa. Fotos de André Augusto Castro

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Um bumba meu boi na UnB



Entre bailarinos, cantores e instrumentistas eram 30 pessoas. Muitas cores e a democracia entre gerações diferentes que só a arte permite. O último debate do Brasil em Questão não poderia ser aberto com uma apresentação cultural mais característica da universidade. "O boi-bumbá é da UnB", homenageia o coordenador do grupo, Teodoro Freire.

Na UnB desde 1963, quando começou a trabalhar como contínuo no Departamento de Letras, seu Teodoro - como é conhecido na cidade - preparou seis músicas para serem apresentadas antes do início das sérias discussões. "Brincando com alegria como se faz o ano todo", diz uma delas.

"Assim como a UnB, o boi está fazendo 40 anos. Temos muitas histórias juntos", afirma o reitor da universidade, professor Lauro Morhy. Depois de mais de meia hora de dança embalada por vozes, palmas da platéia e som dos instrumentos, a arte deu espaço à discussão sobre o futuro da universidade.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social. Foto: André Augusto Castro

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O que pensam os debatedores

 

O DEBATE
"A iniciativa é magnífica. Fiquei muito feliz por ter a oportunidade de participar. O que eu apresentei aqui não é novidade. É uma síntese do que pretendemos apresentar às equipes de educação dos presidenciáveis"

INVESTIMENTOS JÁ!
"A mídia só tem interesse pela universidade quando se trata de mensalidades, de fraude no vestibular, crime ou uma pesquisa muito importante como a de genoma. Eu não acredito numa instituição que não tenha marca e, para ter marca, não precisa nem ter campus. Se não existir um grande conluio entre a academia, as instituições de governo e as instituições privadas, não conseguiremos dizer: aqui é a universidade. Se perguntarmos sobre universidade você lembra da USP, Unicamp e UnB. E as outras? Marca se faz com projetos de extensão grandiosos na comunidade e repercussão da construção do conhecimento"


Édson Pinheiro Franco

     
  O DEBATE
"Acho esse debate fundamental. É um momento de autocrítica e de criação de alternativas. Mas estou convencido de que essa discussão precisa ser mais abrangente, para que as pessoas se sintam envolvidas''

EXPANSÃO
"O grande desafio é expandir a universidade pública sem perder qualidade. Não há outra saída. Não podemos entrar no modelo de massificação, como ocorreu no México e na Argentina. Nesses países, algumas universidades chegam a ter mais de 200 mil estudantes. No Brasil, as universidades públicas têm entre 20 e 30 mil estudantes e os professores muitas vezes se limitam a dar aula de pós-graduação a pequenos grupos de 10 a 15 pessoas. Claro que na pós-graduação não podemos fazer ensino de massa, mas a graduação, obviamente, pode ter capacidade maior"

Hélgio Trindade
     
  O DEBATE
"Essa iniciativa da Universidade de Brasília é da maior importância. Mais uma vez, saímos à frente e criamos um debate de âmbito nacional que certamente apresentará propostas da maior qualidade. Apesar de não ter participado de outros painéis, sei que o que foi discutido aqui será de grande valia para o Brasil"

DESAFIOS
"Temos grandes desafios pela frente. Um deles é o de fazer uma avaliação pertinente ao conjunto do que é realizado pela instituição. O Provão tem sua importância, mas tem de ser ampliado. Sobre autonomia, é a hora de discutir e encontrar o caminho. Sem isso, a universidade fica impedida de cumprir sua missão"

Jaques Velloso
     
  O DEBATE
"Considero que foi bem sucedida essa primeira etapa dos debates. Houve boa participação dos estudantes, dos professores e de pessoas de outras instituições. O nosso objetivo de provocar um momento de reflexão sobre os grandes problemas nacionais foi alcançado. Ninguém pode dizer que não tivemos oportunidade de discutir. Isso foi aberto a todos. Os palestrantes fizeram o melhor e todos foram de muito bom nível e posições diversas. A idéia é trazer essa diversidade para o debate com os presidenciáveis e assumirmos uma posição cívica"

AUTONOMIA
"Autonomia não é uma palavra mágica que vai resolver todos os nossos problemas, mas é uma condição que precisa ser conquistada pelas universidades. Há consenso quanto a isso e essa é a hora para discutirmos. Agora, para conquistarmos a autonomia que foi proposta e aprovada pela Constituição Federal, há necessidade de convencer a classe política, os dirigentes públicos e conseguir a ajuda da sociedade. Uma coisa é certa: não é possível ir muito longe com a autonomia de que dispõem hoje as universidades"

Lauro Morhy

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Curriculum dos debatedores de "A Universidade Brasileira"

Lauro Morhy
Reitor da Universidade de Brasília (UnB) - no segundo mandato consecutivo (1997/2001) -, é doutor em Biologia Molecular pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp). Realizou a determinação da primeira estrutura seqüencial de uma proteína no Brasil (feijão Vigna unguiculata), usado na alimentação popular. Fundou o Centro Brasileiro de Serviços e Pesquisas em Proteínas e criou o Programa da Avaliação Seriada (PAS), uma nova forma de entrar na universidade.
Contato: lmorhy@unb.br

Édson Raymundo Pinheiro de Souza Franco
Reitor da Universidade da Amazônia (UNAMA), Franco integra a Comissão Assessora de apoio à Secretaria de Ensino Superior para a elaboração de proposta de alteração das normas que regulamentam a oferta de educação a distância. É integrante do Conselho Consultivo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais e também do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras.
Contato: reitor@unama.br

Hélgio Trindade
Doutor em Ciência Política pela Universidade de Paris, Trindade é professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde coordena o Centro Interdisciplinar de Pesquisas para o Desenvolvimento da Educação Superior. Atualmente, tem 51 livros e capítulos de livros publicados nas áreas de Ciência Política, Educação, Ciência e Tecnologia, como políticas de educação superior, gestão universitária e autonomia institucional.
Contato: helgio@poa.zumnet.com.br

Jaques Velloso
Professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), é Ph.D. em Educação pela Escola de Educação da Universidade de Stanford (EUA). Foi integrante, entre 1996 e 1998, da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação. Depois disso, até 2000, foi vice-presidente do mesmo órgão. É organizador dos livros A pós-graduação no Brasil: formação e trabalho de mestres e doutores no país e Formação de doutores no país ou no exterior? Doutores na pós-graduação de excelência. O último ainda não foi publicado.
Contato: jvelloso@globo.com

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Ping Pong: Hélgio Trindade

A semana anterior foi inteira entre discussões sobre política e universidade durante a 54ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Goiânia. As considerações de Hélgio Trindade sobre o futuro da universidade brasileira são mesmo muito respeitadas. A ele foi direcionada a maioria das perguntas do público que estava presente no Centro Comunitário Athos Bulcão nesta quarta-feira, dia 17 de julho. Confira a entrevista concedida à jornalista Ismália Afonso, Editora de Produção da Assessoria de Comunicação.

UnB - Qual o principal ponto de crise por que passam as universidades brasileiras hoje?
Hélgio Trindade- Essa relação perversa entre os sistemas público e privado que está deteriorando a universidade pública por falta de financiamento. Estamos vendo isso acontecer desde o início da Nova República, mas a forma como se acentuou neste último governo é gritante.

UnB - O que precisa ser mudado no sistema educacional?
Hélgio Trindade - É preciso enfrentar a privatização interna do setor. O Brasil necessita se integrar a padrões aceitáveis de um sistema privado autônomo dominado por empresas educacionais que visam ao lucro.

UnB - O que pode ser feito?
Hélgio Trindade - É necessário debater as mudanças com a própria comunidade acadêmica. É preciso haver participação de todos os envolvidos. A universidade se burocratizou e se precarizou, corroendo sua missão pública. Do ponto de vista do estado, esse é um desafio para o próximo governo. Nos últimos anos, só vimos o quadro piorar.

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Opinião de quem participou do debate

O que precisa ser melhorado na universidade pública brasileira?

"A universidade precisa de mais investimentos do Estado e de maior valorização dos professores que estão aqui.Temos excelentes pesquisadores mas pouco valorizados. Faço História e a maioria das pesquisas nessa área não são patrocinadas pelo governo, mas por entidades privadas"

Ana Carolina Araújo Jorge, 21 anos, 4º semestre de História

 

"A democratização da universidade é um ponto que precisa melhorar. A maioria dos estudantes vem de escolas particulares. É um lado triste da universidade, o acesso tinha de ser mais democratizado, principalmente para os alunos que estão no ensino público"

Cláudio Rogério Oliveira, 23 anos, formando de Engenharia Civil

"O currículo do meu curso é a primeira coisa que precisa ser modificada. Hoje, em dia é um problema em várias universidades. Na USP e outras universidades, os alunos estão se mobilizando em relação a isso. Faltam professores e iniciativas para melhorar a qualidade do ensino"

Cláudio José da Silva, 26 anos, formando em Letras

"É preciso mudar as políticas do governo e os próprios alunos devem mudar de mentalidade. Estamos tendo uma universidade muito individualista, muito capitalista. Ninguém pensa em mudar os rumos da nação. Precisamos de mais envolvimento para provocar transformações"

Daniel Espíndola Cotrin, 19 anos, 3º semestre de Letras

"É preciso mudar a abordagem que os estudantes dão à universidade. Eles devem ser mais questionadores e não buscar apenas uma formação profissional"

Laila Daniela Pedreira de Carvalho, 19 anos, 3º semestre de Ciência Política
"O acesso à universidade precisa melhorar para ser mais democrático. O problema talvez esteja nos ensinos fundamental e médio"

Pablo Rodrigues de Oliveira, 22 anos, 9º semestre de Engenharia Elétrica
"A universidade precisa de mais investimentos e o governo tem de investir mais na formação dos educandos. Sem isso só haverá a perpetuação desse modelo"

Roberto Epiplânio da Silva, 40 anos, professor
   
"Acredito que precisamos mudar a qualidade de ensino nas universidades, esse é, definitivamente, o primeiro ponto que precisa ser melhorado"

Roosevelt Reis, 24 anos, 5º semestre de Química

Fonte: Assessoria de Comunicação Social. Entrevistas à jornalista Ariane Abrunhosa. Fotos: André Augusto Castro

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