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Carta
a nós do ‘sim’
Rubem Cesar Fernandes*
É difícil assimilar esta derrota. Contávamos com um processo
gradual e informativo de debate, a partir de julho, mas os tempos não
o permitiram. A crise política abafou o assunto. De repente, em outubro,
entrou a campanha nos meios de comunicação, no ritmo frenético
dos sinais eletrônicos. Não estávamos preparados para
esta circunstância. Apesar das mobilizações, país
afora, lideradas por vocês, a coisa foi decidida em 20 dias, pela televisão
e rádio. A internet também contou com a insensatez dos “spams”,
assim como a Justiça Eleitoral, que restringiu a participação
da sociedade civil. Nossa campanha se perdeu nos primeiros dias e não
foi capaz de reagir, apesar de uma tentativa radical a meio caminho. A deles,
ao contrário, acertou e foi eficaz do início ao fim.
Creio, contudo, em toda honestidade, que o Referendo abriu um imenso campo
de trabalho para nós que dissemos SIM. Os brasileiros discutiram o
tema da segurança com uma intensidade nunca vista. Demonstraram que
são capazes de decidir quando consultados. Não gostamos da decisão.
Mas é forçoso reconhecer que as pessoas se envolveram profundamente
e que reunidas, no voto, mandaram um forte recado para si mesmas, para os
nossos governantes e para o mundo.
A onda do NÃO cresceu sobre nós, arrastando consigo uma variedade
de valores. Disse NÃO a extrema direita, mas também a extrema
esquerda e uma forte corrente liberal. Disseram NÃO os muito ricos
e os muito pobres, homens e mulheres, idosos e jovens, da capital e do interior.
Protestos diversos e contraditórios juntaram-se no NÃO, por
conta de um sentimento generalizado de insegurança e desamparo. Que
ninguém o ignore. Tanta negatividade reunida não passará
sem conseqüências.
Já o SIM foi reduzido a uma corrente de opinião diferenciada
pelas suas crenças e atitudes. Lá pela terceira semana, a agressividade
do NÃO era tanta, que dizer SIM passou a exigir um gesto individual
de coragem. Havia racionalidade na campanha do NÃO, como há
sempre nos dois lados de qualquer bom debate. Mas a carga emocional que vinha
do NÃO ultrapassava os limites. O fascismo à brasileira mostrou
a sua cara, nas ruas e até mesmo nas universidades.
A palavra do SIM terminou minoritária, porém com uma identidade
mais clara. Reuniu pessoas que, em face da violência, preferiram apostar
no desarmamento. Pessoas que, apesar de tanta frustração, mantêm
ainda uma visão positiva de futuro, que se identificam com o argumento
de que é possível e necessário “...dar um primeiro
passo”. Qual o tamanho desta corrente? São mais de 33 milhões
de brasileiros. Não é pouco. É muito!
Passado o Referendo, duvido que o NÃO se sustente na forma e nas proporções
do 23 de Outubro. É por demais heterogêneo. Cresceu na reação,
mas sem afirmações positivas. Caem-lhe mal as denúncias
sociais e o apelo à liberdade. Já o SIM tem tudo para marcar
uma corrente de opinião duradoura. As muitas redes formadas e reformadas
na campanha estão ávidas para seguir se encontrando. Vamos fazer
isto e mostrar que a segurança, o desarmamento, a justiça e
a liberdade podem e precisam caminhar lado a lado. Que a corrente dos 33 milhões
se fortaleça e que seja mais feliz nas próximas voltas!
*Rubem Cesar Fernandes é antropólogo e coordenador geral do
Viva Rio (www.vivario.org.br).