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Crise política: a mídia pode mais que os partidos

Luiz Gonzaga Motta*

Passados quatro meses desde o início da crise política identificada como Mensalão, é possível fazer um balanço crítico do comportamento da mídia desde uma perspectiva distanciada. A mídia continuou incorrendo nos erros de sempre, agravados por alguns problemas específicos desta crise política. Observo primeiro os equívocos que se repetem e comento em seguida aqueles relacionados a esta crise em particular.

Continua havendo um excesso de cobertura jornalística do político-partidário. Há um número excessivo de espaço e tempo dedicado aos políticos e seus partidos numa proporção que não tem correspondência com a importância deles na vida do país. A mídia mergulha em aspectos e personagens fúteis em detrimento do principal. Em conseqüência, personagens insignificantes adquirem uma visibilidade e uma atenção pública que não merecem.

Observou-se mais uma vez o efeito manada, termo utilizado por A. Dines para identificar a convergência da mídia para um tema único que arrebata toda a atenção jornalística. Concentrando-se no episódio, a mídia o potencializa, gerando excessiva visibilidade dos atores mais envolvidos. Especialmente daqueles que souberam utilizar-se dos holofotes para se promover. As fontes da cobertura, como sempre, concentram-se nos mesmos atores, especialmente no poder legislativo, em detrimento de outras lideranças políticas do país.

Como de costume, a mídia dedica-se mais aos acontecimentos do que aos processos. Sempre que um escândalo político aflora, ele se transforma em um acontecimento midiático de proporções maiores que outros processos econômicos e sociais em andamento. Ainda que o Mensalão seja um fato político relevante, o episódio revela como a mídia agenda a pauta pública em função do desmesurado destaque que atribui aos fatos político-partidários em detrimento de confrontos políticos fora do âmbito do parlamento.

Houve uma excessiva cobertura de aspectos factuais dos acontecimentos. Para defender-se dessa acusação os jornalistas alegam falta de tempo e pressão das rotinas profissionais. Não me convenço de que essas razões justifiquem a cobertura excessivamente factual. Observe-se, por exemplo, a CBN. A emissora dedica-se exclusivamente à notícia, tem tempo de sobra para cobrir a política. Mesmo assim, salvo exceções, as notícias veiculadas pela emissora são rápidas, brevíssimas, puramente factuais. Raramente contextualizam algum episódio.

A mídia não teve preocupação de revelar a relação da crise política com contextos mais amplos em que os episódios estão inseridos. A preocupação, quase sempre, foi em “identificar o ladrão”. Raras matérias relacionaram a crise ao deteriorado processo eleitoral brasileiro, à corrupção sistêmica e aos corruptores permanentes. Muito eventualmente mencionou-se a reforma eleitoral e as correções que essa reforma pode gerar no sistema eleitoral do país.

Consolidou-se nesta crise o papel da mídia como um ator político ativo, muito além de sua função de mediação dos conflitos. O exemplo mais evidente foram as revistas semanais (Veja, Isto É, Época). Cada final de semana esperava-se com ansiedade a chegada das revistas às bancas, pois as denúncias que elas traziam pautavam a agenda política (a emoção da semana). Mais do que agentes do jornalismo investigativo, as revistas se transformaram em atores que interferem diretamente no jogo político. Como observou Marilena Chauí, a mídia trazia opinião muito mais que estimulava a formação da opinião pública.

Ficou claro também a indução da mídia a certas suposições por ela consideradas politicamente corretas. A mídia antecipou julgamentos, induziu e precipitou decisões. O caso mais evidente foi a incriminação e condenação prévia do ex-presidente da Câmara, Severino Cavalcanti. Ninguém defende a manutenção deste inexpressivo deputado como líder da nossa câmara alta. Mas a mídia não cobriu o episódio, ela sugeriu e induziu a renúncia e a cassação. Comandou a defenestração pública do deputado, assumindo um papel que não cabe a ela.

Nessa linha, a mídia claramente escolheu e decidiu por si mesma os eixos do bem e do mal. Criou seus heróis e vilões, repassou para a opinião pública quem eram os bandidos e os mocinhos da história de acordo com as suas preferências, induzindo, muito mais que permitindo a livre criação da opinião. A mídia pôs e retirou de cena quem quis através critérios pouco jornalísticos. Incriminou antecipadamente, independente de culpa. Elegeu Buani (réu confesso) em herói (com direito a princesa) e isentou sem razão aparente o senador Eduardo Azeredo, tão culpado quanto outros.

Alguns políticos, como ACM Neto e Rodrigo Maia, utilizaram abusivamente os holofotes da mídia. Ela consentiu e amplificou essa aberração. As condenações levianas que o Jornal Nacional da Rede Globo fez aos políticos ou auxiliares seus que foram “flagrados” pela câmara de segurança do Brasília Shopping (onde está a sucursal do Banco Rural no DF) são o exemplo mais grotesco de confusão entre indícios e evidências. Publica, depois checa. O Jornal da Noite, da mesma emissora, desmentiu mais tarde as acusações que o deputado do PFL Rodrigo Maia havia feito sem apurar.

Uma análise criteriosa da cobertura da crise vai mostrar como a mídia assumiu em muitos momentos o papel de condenar e execrar publicamente certos atores. Culpas presumidas foram nitidamente noticiadas como confirmadas. A mídia exerceu o papel de um tribunal preparatório deduzindo, induzindo e concluindo antecipadamente. O PT errou, atolou-se na lama, precisa pagar pelos seus erros. Mas, quem lê o noticiário é levado a concluir que os políticos e partidos da oposição estão isentos da corrupção eleitoral. Houve um linchamento moral do PT como se esse partido fosse o único a corromper-se eleitoralmente.

Em entrevista recente, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos cunhou a expressão “lógica do blefe”, questionando a ausência de provas de pagamentos regulares e de “corrupção generalizada” no Estado, como a imprensa faz crer, fazendo eco com políticos interessados na consolidação dessas expressões, a partir de interesses particulares. Em muitos aspectos, o comportamento da mídia foi leviano e imprudente. Indícios ou suspeitas se transformaram em evidências, como a leviana capa de Veja afirmando que o presidente sabia de tudo (manchete repetida depois pelo Correio Braziliense).

Continua havendo excessiva ficcionalização da cobertura política, transformando tudo num grande teatro. Confundiu-se o público com o privado. O exemplo mais extravagante foi a criação das “musas do Mensalão”. Nem o sisudo Estadão resistiu à banalização da cobertura. No meio das páginas da editoria Nacional publicou no dia 18 de setembro página inteira com fotos de seis mulheres supostamente relacionadas à crise, embora algumas não tenham nenhuma relação política com o episódio, como a filha de Roberto Jefferson, e a secretária da senadora Ideli Salvatti.

Quando o noticiário esmorecer, uma análise cuidadosa e distanciada do papel da mídia na crise do Mensalão precisa ser feita. Mas, desde já, fica evidente que, mais do que nunca, a mídia brasileira transformou-se em um agente político com ações independentes, distantes do espaço público autônomo. Um ator cujas ações produzem efeitos políticos mais rapidamente e mais devastadores que os partidos. Um ator que goza de prerrogativas que não lhe foram atribuídas para exercer esse papel. Um ator que tem o poder de defenestrar personagens, criar certezas, condenar e absolver como se fosse um tribunal independente. Aí residem os problemas para a frágil democracia brasileira.

* Luiz Gonzaga Motta é jornalista, professor e coordenador do Núcleo de Estudos de Mídia e Política da Universidade de Brasília.

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