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Jornal
argentino denuncia silêncio do presidente
Thaïs de Mendonça Jorge
Quando o presidente Lula passa semanas evitando a imprensa
e só fala nos eventos públicos, principalmente no exterior,
aparece uma ou outra nota nas colunas, os setoristas do Palácio do
Planalto cobram da Secretaria de Imprensa, e muitos comentam nas rodas de
jornalistas dos comitês. Fica nisso.
Na Argentina é diferente. Desde que assumiu o governo, Nestor Kirchner
não convocou uma só entrevista coletiva. O prestigioso jornal
La Nación resolveu colocar a boca no trombone e publicou há
alguns dias um violento editorial, em que defende a liberdade de imprensa
no país, denuncia o menosprezo do governo argentino à imprensa
e ataca o sistema de distribuição da publicidade oficial que,
segundo o periódico, é visto como “um subsídio”.
O editorial não faz por menos: mostra que, “detrás desse
conceito jaz uma concepção autoritária” que vê
o Estado “como um repartidor de favores e benefícios, geralmente
dirigidos àqueles que se mostram complacentes com a autoridade da vez”,
e aponta que muitos veículos sucumbem, vítimas do sistema de
prêmios e castigos diante do governo. Quem é simpático,
ganha benesses; quem critica, não recebe verba de propaganda.
Ainda pior para os jornalistas é ter que ouvir que “os melhores
jornalistas são os fotógrafos, porque não perguntam",
outorgando-se (Kirchner) um papel superior, quando alega que fala diretamente
com o povo. Igualmente doloroso para os que exercem o ofício nas redações
de qualquer órgão de imprensa é ter que admitir que,
como diz Alberto Dines, num outro sentido, existe liberdade de empresa, não
liberdade de imprensa.
Porque a liberdade de imprensa depende dos anúncios. A empresa tem,
sim, maior liberdade do que os profissionais que emprega, no sistema capitalista,
como lembrou Dines, certa vez. Mas cada um é livre para deixar um veículo
se não concorda com os princípios do dono da casa. Esfregar
na cara dos proprietários que eles são escravos dos anunciantes
– e por conseqüência, das verbas oficiais – constitui
uma ofensa maior até do que xingar a mãe.
Embora todos saibam que a imprensa não vive dos assinantes, o patrimônio
das empresas, como ressalta o editorial de La Nación, vai além
de seus ativos físicos: junta credibilidade e prestígio com
qualidade da informação, quesitos que um representante da mídia
vai burilando ao longo de sua existência e agregando a outros, como
a conquista do público e um pacto de respeito e atenção
mútuos.
Faz parte da tarefa do jornalista não se calar. E aqui cabe muito bem
a frase de Manuel Belgrano, patrono de uma importante universidade portenha,
a Universidad Belgrano: “Publicar o que há de bom para que todos
se deleitem, e o mal para que se empenhem em remediá-lo". Os brasileiros
têm muito que aprender com os argentinos. Aliás, com muitos dos
povos da América Latina.
Veja a íntegra do Editorial de La Nación.
Editorial
Com a imprensa não se fala
As liberdades
de expressão e de imprensa constituem pilares insubstituíveis
do sistema republicano. Por conseguinte, nenhuma autoridade pode desconhecer
que todo gesto que tenda a vulnerar esse princípio termina atentando
contra as bases da democracia.
Se bem que é um exagero afirmar que na Argentina não há
liberdade de imprensa, certas atitudes de intolerância e de desprezo
para com o jornalismo, por parte do presidente da República e de algumas
figuras da equipe governante, são mais que preocupantes.
Uma dessas atitudes é particularmente grave para nós, que exercemos
o ofício de jornalistas. É uma enorme desconsideração
o fato de que, desde que chegou à Casa Rosada, o titular do Poder Executivo
Nacional não tenha dado uma única coletiva de imprensa.
Trata-se de uma questão que não apenas provoca mal-estar na
imprensa local. Os correspondentes estrangeiros sofrem também com esse
menosprezo presidencial e, como não pode ser de outra maneira, transmitem
para o mundo a péssima impressão que lhes merece essa falta
de atenção.
Em recentes declarações à revista Noticias, alguns desses
correspondentes não ocultaram sua preocupação pelos maus
tratos que recebem da Casa de Governo. É que nenhum profissional de
imprensa sério, nem daqui, nem do estrangeiro, pode entender que o
primeiro mandatário afirme que "os melhores jornalistas são
os fotógrafos, porque não perguntam", ou que diga que seu
título não exige falar com a imprensa porque "se comunica
diretamente com o povo"; obviamente, em atos públicos nos quais
os assistentes não possam formular perguntas.
Muitos são os países democráticos que habilitam canais
institucionais de diálogo entre seus presidentes e os jornalistas.
A existência de entrevista coletivas com freqüência semanal
ou mensal é comum em numerosos países. O atual governo argentino
parece muito longe de contemplar semelhante possibilidade: impera o critério
de que, quanto menos se fale com a imprensa, melhor. E este critério
é estendido a todos os funcionários, submetidos em determinadas
ocasiões a rígidos controles, a partir da Casa Rosada, sobre
suas reuniões com jornalistas, o que gera um elevado grau de auto-censura
nesses funcionários.
Não estranha que, como correlato dessas atitudes, nos últimos
días, tanto o primeiro mandatário e a senadora Cristina Fernández
de Kirchner, como o chefe de Gabinete, Alberto Fernández, habitualmente
se referem em termos pejorativos à imprensa. Um de seus argumentos
preferidos é realizar uma distinção entre "liberdade
de imprensa" e "liberdade de empresa", e destacar que o jornalismo
não é independente de seus anunciantes.
Sem negar que se trata de um velho debate, deveriam entender as citadas figuras
políticas que o negócio central de qualquer empresa jornalística
descansa em sua credibilidade, em sua qualidade e em seu prestígio.
E que em uma sociedade pluralista e tecnologizada, sem monopólios informativos
como em épocas nas quais quase a totalidade dos canais de televisão
e as rádios estavam nas mãos do Estado, qualquer meio de comunicação
que oculte informação pelos simples fato de favorecer a um anunciante
ficaria em evidência facilmente e sofreria uma séria ameaça
de ver decair sua credibilidade, com o conseqüente risco de perder público
e publicidade.
Lamentavelmente, atrás das idéias negativas que o Governo difunde
sobre o jornalismo parece existir um certo desgosto ante a impossibilidade
de controlar os meios independentes pelo uso da publicidade oficial.
Tratar as empresas com critérios discriminatórios, mediante
a distribuição arbitrária dos fundos públicos,
viola a regra de igualdade diante da lei. Utilizar esse sistema para conseguir
uniformidade informativa, sem críticas nem dissensões, e empregar
os recursos estatais com esse absurdo fim é um agravo evidente à
liberdade de imprensa.
Já no ano passado dissemos neste espaço que alguns governos
incorrem no erro de supor que a publicidade oficial é um subsídio.
Detrás desse conceito jaz uma concepção autoritária,
pois se percebe o Estado como um repartidor de favores e benefícios,
geralmente dirigidos àqueles que se mostram complacentes com a autoridade
da vez. Disso se queixam vários veículos, que vêem violentada
sua liberdade de imprensa, pois quando formulam críticas a quem está
no governo recebem como sanção a retirada da publicidade oficial,
o que, em muitos casos, os afoga financeiramente frente aos competidores que
se mostram mais submissos à política oficial.
Os funcionários da Casa Rosada deveriam recordar que o jornalismo não
só tem direito de emitir opinião, como tem o dever de fazê-lo.
Manuel Belgrano, que cultivou um profundo amor pela verdade e humildade, sustentava
que "não há máxima mais certa que publicar o que
há de bom para que todos se deleitem, e o mal para que se empenhem
em remediá-lo".
As mais altas autoridades do país deveriam abandonar sua pretensão
de aplicar sistemas de "prêmios e castigos" ao jornalismo
em função de seu grau de apoio ou oposição ao
Governo e atuar com a maturidade que impõe uma democracia. Sem deixar
de lado a necessidade de que a imprensa se auto-examine permanentemente com
olhos críticos, é de esperar que se revisem todas aquelas condutas
lesivas para a profissão jornalística e a livre circulação
das idéias, para que se possa enriquecer o debate público.
http://www.lanacion.com.ar/opinion/nota.asp?nota_id=741742