Universidade de Brasília

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A imprensa é mal educada?
Luiz Gonzaga Motta*

É sim, porque precisa ser. Se interpretarmos que perguntar, duvidar, investigar os fatos, garimpar informações são atitudes impertinentes, então o jornalista será sempre qualificado como sujeito mal educado. Pela própria natureza da profissão, o jornalista é um ser ansioso e audacioso. Precisa da informação e a persegue.
Repórter tem fome de notícia. Tem uma curiosidade aguçada, obsessão pela informação. Como afirma Ricardo Kotscho, ex-assessor de Lula, sua função é “contar o que aconteceu, não parando nunca de garimpar a informação”.
O Governo Lula contribui para um relacionamento ácido com os jornalistas. O isolamento do presidente, um porta-voz acuado e uma parcimônia exagerada tensionam as relações governo-imprensa. Os jornalistas se irritam porque faltam mecanismos institucionais para facilitar seu trabalho.
Há uma decepção com a dificuldade de acesso dos jornalistas ao presidente. Muitos repórteres tinham antes intimidade com ele, conversavam sempre. Lula era fonte. Depois de empossado, criou-se um clima de desconfiança e um isolamento irritante. O governo prefere a cultura do vazamento, infelizmente.
Em três anos de governo, Lula deu apenas uma coletiva. O próprio governo reconhece seu isolamento. José Dirceu fez recentemente o mea culpa, lamentou seu distanciamento dos jornalistas enquanto era ministro todo-poderoso.
A pressa com que trabalha, a concorrência e as adversidades inerentes à profissão levam às vezes o jornalista ao voluntarismo, exagero e inconveniências. Mas, enquanto não inventarem uma forma melhor de apurar e relatar os fatos, o jornalismo deve continuar mal educado. Precisa continuar a questionar, duvidar e garimpar a informação.

* Jornalista, professor da Universidade de Brasília e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da UnB.

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