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PAPEL DA IMPRENSA
A partidarização oculta os problemas reais
Luciano Martins Costa (*)
A imprensa ainda é um instrumento confiável para a interpretação
da realidade nacional? Há quem considere que não, ou pelo menos
quem situe a imprensa, neste momento, numa transição da qual
ela poderá surgir num papel secundário entre os meios de observação
dos fatos. Não apenas pela evolução acelerada das tecnologias
que anunciam a transferência crescente do poder de escolha para o conjunto
da cidadania a que chamamos público, mas principalmente por sua atitude
conservadora, a imprensa corre o risco de ser colocada em segundo plano entre
as instituições que validam no seio da consciência coletiva
o significado dos acontecimentos.
Muito se tem demonstrado, neste Observatório, sobre exemplos pontuais,
na imprensa brasileira, de menosprezo à verdade, ou, mais regularmente,
de parcialismo diante da complexidade dos fatos noticiados, especialmente
dos fatos políticos e econômicos. O viés, as premissas
e certos condicionamentos anteriores ao trabalho de reportagem e edição
parecem viciar como cartas marcadas o resultado que a imprensa oferece à
apreciação pública.
Mas é concretamente numa atitude típica de correligionarismo
que se caracteriza mais claramente essa opção preferencial da
imprensa por um papel menor do que suas vocações históricas.
Correligionarismo é o nome do comportamento delimitado pelo conjunto
de interesses no interior de grupos de poder, que se consolidou no período
do Terror, durante a fase popular da Revolução Francesa, e se
transformou em praga da política pelos séculos afora. Foi o
correligionarismo, expressão inspirada na disciplina das legiões
romanas, que melhor definiu os movimentos coletivos que marcaram o século
passado, dos protestos estudantis na França em 1968 à "revolução
cultural" do maoísmo na China.
Fora ou acima
O correligionário é sempre um tarefeiro, um quadro que se coloca
abaixo dos escalões estratégicos, sempre no nível operacional
das ações. Sua participação é importante
na efetivação das táticas, dando volume e pragmatismo
às idéias e estratégias, mas raramente influencia as
decisões importantes da organização. Nos sistemas centralizados,
é o que se chama regularmente de massa de manobra.
A imprensa brasileira parece ter feito a opção de se posicionar
como executora de tarefas muito pontuais nesta quadra da nossa História,
na qual um escândalo de grandes proporções revela as imperfeições
do nosso sistema de representação política e ao mesmo
tempo esconde as deficiências estruturais da nossa República.
Ao se negar a aprofundar o debate sobre essa questão, que nos permitiria
entender e criar condições para o aperfeiçoamento das
instituições, a imprensa mantém a opinião pública
distante do verdadeiro objeto a que nos remete a crise política.
Esse comportamento parece indicar que a estratégia executada nas ações
táticas da imprensa – ao personalizar excessivamente o noticiário
sobre o escândalo, ao mesmo tempo em que se abstém de relativizar
os papéis dos variados protagonistas – está sendo elaborada
fora ou acima da imprensa, em uma esfera de poder cuja identidade escapa ao
cidadão comum. É possível, como se tem demonstrado neste
Observatório, afirmar que existe um viés claro em todo o noticiário
sobre o escândalo e suas variáveis, mas não é fácil
identificar suas origens.
Sem juízo claro
A personalização excessiva e a falta de ponderação
entre as manifestações e atos dos protagonistas exibidos pela
imprensa ficaram mais uma vez evidentes no episódio da cassação
do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que "morreu atirando" e
mereceu em todos os principais jornais do país um destaque proporcionalmente
exagerado, considerando-se que se tratava, já àquela altura,
de um personagem que tinha pouco ou nada a perder, cujas palavras significavam,
a rigor, pouco ou nada no entendimento do contexto do escândalo.
Como iniciou, Jefferson concluiu sua participação no evento
histórico, em seu papel de parlador histriônico, mais afeito
à manipulação de emocionalismos diante de câmeras
e microfones do que à elucidação da verdade. Como no
início, a imprensa lhe deu absoluto crédito e a honra das manchetes,
mesmo quando seus pares já haviam decidido que não havia em
seu comportamento honorabilidade suficiente para que seguisse pertencendo
ao Congresso Nacional. Seus pares deram a ele a etiqueta que buscou em toda
sua carreira política, mas a imprensa lhe concedeu um enterro político
com honras, porque, evidentemente, recitou do começo ao fim dessa tragicomédia
as falas que interessavam à mídia publicar e "repercutir".
Claramente partidarizada, mesmo que não se possa aplicar a ela o rótulo
de uma agremiação específica, a imprensa chega ao ponto
em que os acusados vão a julgamento sem que se tenha oferecido à
opinião pública elementos para fazer um juízo claro sobre
as culpabilidades. Exceto no caso do quase ex-presidente da Câmara dos
Deputados, Severino Cavalcanti, que parece ter sido apanhado no exercício
da mais reles chantagem, ficamos, às vésperas do grande júri
do Congresso, sem uma noção clara das responsabilidades relativas
no caso do uso de dinheiro não declarado, se para conquista de votos
nas eleições de 2002 ou para influenciar decisões do
Parlamento.
Jogo deliberado
Não bastou a afirmação repetida de que existiu a prática
do pagamento regular pela opinião de parlamentares para que a opinião
pública ficasse convencida do alcance, da regularidade e da profundidade
da corrupção. Também não nos tem sido permitido,
até aqui, conhecer as práticas semelhantes já noticiadas
em outros períodos, para que pudéssemos entender o alcance dos
vícios da nossa política, e assim tentarmos melhorar as instituições.
Durante todas estas semanas, manteve-se o debate no círculo da moralidade
ou na ambição das reformas definitivas, e a questão ficou
circunscrita ao intangível ou lançada para a esfera exterior
das grandes tarefas institucionais – como se o problema da corrupção
só pudesse ser resolvido por um anjo da moral ou por uma nova Constituinte.
"Se o escândalo tivesse sido tratado como o que é realmente,
ou seja, um problema jurídico, já teríamos entendido
seu alcance, resgatado eventos similares de outras épocas e criado
instrumentos eficientes para evitar sua repetição", observou
Menelick de Carvalho Neto, professor de Direito Constitucional e doutor em
Filosofia do Direito, durante debate no mês passado por ocasião
do 170º aniversário da Assembléia Legislativa de Minas
Gerais. Como ficamos entre o trato moral e as reformas grandiosas, vamos a
lugar nenhum e os delinqüentes de sempre apenas ficam mais espertos para
futuras rapinagens.
Difícil aceitar que a imprensa jogue deliberadamente um jogo de esconde-esconde
com a opinião pública, mas não é complicado entender
que, depois de haver enfrentado uma crise de quase uma década, durante
a qual perdeu muitos colaboradores e foi obrigada a firmar compromissos com
credores, ela possa ter se tornado mais vulnerável à tentação
de se manter alinhada a grupos de poder cujas premissas, afinal, não
teria dificuldade para assimilar. Problema mesmo é constatar que a
imprensa abdicou de participar da formulação de grandes estratégias
sociais e políticas para se resignar ao papel secundário de
correligionária na tarefa de fazer muito barulho para não revelar
o essencial.
(*) Jornalista
Fonte: Observatório da Imprensa