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Sobre meninos, lobos e patetas
Rui Nogueira


Estarrecido e irado. Foi assim que fiquei ao tomar conhecimento, por meio da coluna dominical do ombudsman da Folha de S. Paulo, o jornalista Marcelo Beraba, da decisão dos estudantes de jornalismo da USP de nada publicar no Jornal do Campus sobre o assassinato do estudante Rafael Alves pelo colega Fábio Nanni, no dia 14 de outubro. O cenário do crime foi a própria escola de jornalismo. Tudo aconteceu
diante das barbas dos estudantes de jornalismo, que decidiram nada publicar em nome de um sentimentalismo travestido de altos ideais. Subiram no altar do pieguismo para fazer uma denúncia tão tosca quanto
vazia.

Publicaram apenas uma nota, dizendo que a ECA(Escola de Comunicação e Artes) estava de luto – óbvio - e um patético editorial intitulado Sobre meninos e lobos. Tamanha paralisia, eles confessam no editorial, deveu-se ao choque diante da maneira como teriam sido abordados pelos "jornalistas da grande mídia" atrás de informações sobre a facada no peito desferida por Fábio em Rafael, que morreu em uma das salas da rádio da USP. Esses jornalistas "da grande mídia" teriam se comportado como "lobos ávidos" por fotos e depoimentos. "Grande mídia"? Entendi tudo!

Os estudantes confessaram ainda ter feito fotos e depoimentos exclusivos enquanto Fábio era preso. E acrescentaram que os "jornalistas da grande mídia", os tais "lobos ávidos", "usaram os meios mais baixos possíveis para tentar obtê-los". Avaliando isso tudo, suas senhorias só viram reportagens "sensacionalistas, maniqueístas e mal-apuradas". Para não alimentar uma imprensa "ávida por sangue", os estudantes de jornalismo, diante de um dos mais sérios testes da sua vida, decidiram nada publicar sobre o que haviam
apurado.

Entendo as posições individuais e entendo o imobilismo momentâneo provocado pela surpresa do fato e pela dor imposta pela tragédia, mas não posso nem respeitá-los nem deixar de comentá-los com amargura. São posições de patético denodo.

Tenho a certeza de que a mídia tratou de todas as maneiras possíveis o assassinato na USP, inclusive com sensacionalismo, maniqueísmo e dados mal-apurados. Mas desafio-os, para ficar em apenas dois jornais, a me dizer onde encontraram esses defeitos nas edições da Folha de S.Paulo e do Estado de S. Paulo, as publicações que usei para me informar sobre o assunto. Não estou dizendo que as reportagens de Folha e Estado estão inteiramente livres de problemas. Tenho a certeza de que seus jornalistas reclamaram da falta de tempo e do atropelo do fechamento, mas não vi nenhum feitio na cobertura que se tenha transformado em defeito crônico.

Os estudantes de jornalismo da USP, que também são cidadãos que lêem jornal (lêem?!), não conseguiram separar o que é bom do que não presta e, por conforto covarde, decidiram jogar tudo na vala da rotulagem sensacionalista. A saída medíocre os privou de mostrar aos lobos ávidos por sangue como se comportar profissionalmente diante de um fato sensacional... sem ser sensacionalista. Não precisavam fornecer carne fresca a lobos famintos, mas tinham a obrigação de, no ambiente acadêmico, provido, supostamente, de uma taxa absoluta de liberdade de agir, pensar, planejar, pautar, escrever e editar, de oferecer a diferença cabal entre o como deve ser feito e o que nunca se deve fazer.

Exijo mais que isso. Deveriam ter, já que estão na universidade, o ambiente público sustentado pelos impostos em troca da produção de soluções e idéias críticas para a sociedade, oferecido uma análise do que foi publicado, separando equívocos e erros banais de dados mal apurados por incompetência ou má-fé a serviço de um jornalismo de "títulos fortes e matérias carregadas de drama" barato. E o que os estudantes disseram para justificar a paralisia? Que, em "respeito" às fontes e à ética, decidiram não divulgar nada do que haviam apurado.

O editorial do Jornal do Campus revela a matriz do efeito paralisante: a ojeriza à tal da "grande mídia" plantada por grupos de professores - não todos - que mal sabem escrever o lead de uma reportagem. Se soubessem, teriam incentivado os alunos da ECA a fazer a melhor cobertura do crime, a melhor cobertura de um fato sensacional... sem transformar o trabalho em produto sensacionalista.

O que os estudantes de jornalismo da ECA (USP) fizeram foi provar à sociedade como a universidade pode ser inútil. Ao não se ocupar do que de mais importante havia acontecido na universidade, os estudantes comportaram-se como um bando de desocupados, críticos diletantes do trabalho alheio. Preferiam se esconder na crítica vazia e genérica, recheada de um falso bom-mocismo, para não submeter à sociedade a idealização de uma cobertura que eles apregoam, mas não conseguem praticar.

Publicado em 24 de outubro de 2005.

 

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