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HISTÓRIAS
MAL CONTADAS
Zonas escuras na pauta econômica
Rolf Kuntz
Quer entusiasmar um pauteiro de economia? Fale em aumento da carga tributária.
Ele continuará excitado se o assunto for o imposto pago pela pessoa
física. Será capaz de mandar um repórter entrevistar
um desses especialistas que medem o peso da tributação em qualquer
fase do ano e somam alhos com bugalhos para dizer que o país tem excesso
de normas. Pauteiros e editores também ficam animados - hoje muito
mais que há alguns anos - quando o assunto é vitória
do Brasil contra os Estados Unidos num processo a respeito de algodão.
Mas essa animação tem efeito limitado. É insuficiente
para garantir uma boa cobertura, por exemplo, de um conflito entre Estados
e União por causa de questões tributárias, mesmo que
a briga seja importante e possa render, se bem esmiuçada, uma boa história.
Quanto à agricultura, fica fora do radar durante a maior parte do tempo.
É hora de cuidar das lavouras de verão, mas quantos editores
e pauteiros se lembram disso?
Não é só uma questão de mais ou menos interesse.
Desinteresse e desinformação tendem a reforçar-se mutuamente
e isso cria zonas de sombra no jornalismo. Histórias boas e objetivamente
importantes são perdidas por despreparo das equipes. Pior para o leitor
e pior para o debate público de grandes temas.
Exemplo número 1 - O atraso fiscal
A maior parte dos jornais noticiou a briga entre governadores e o ministro
da Fazenda, Antonio Palocci, por causa de 900 milhões de reais de compensação
fiscal, mas nenhum foi a fundo na discussão do assunto. Os governadores
anunciaram a decisão de suspender a liquidação de créditos
fiscais de empresas exportadoras enquanto o governo federal não transferisse
aos estados aqueles 900 milhões de reais. Esse dinheiro é parte
de um total de 5,2 bilhões de reais destinados, segundo a justificativa
oficial, a compensar os Tesouros estaduais pela aplicação da
Lei Kandir. Essa lei isentou do Imposto sobre Circulação e Mercadorias
(ICMS), o principal tributo estadual, as exportações de produtos
primários e semi-elaborados. Os manufaturados já eram isentos.
Por essa lei, os estados receberiam durante alguns anos uma compensação
do governo federal. Depois, a transferência seria extinta. Por pressão
dos governadores, o pagamento foi prolongado. Os critérios de cálculo
mudaram, mas o dinheiro continuou sendo transferido, sempre com alguma briga
na hora de fixar o montante.
O problema só existe porque: 1) uma boa reforma tributária tornaria
dispensável a Lei Kandir, mas essa reforma nunca foi feita e aquela
em tramitação no Congresso é muito deficiente; 2) o governo
federal continuou a aceitar o argumento das perdas alegadas pelos governadores,
mas essa alegação é hoje muito discutível. É
difícil sustentá-la tanto pela fórmula original das compensações
quanto pelo critério da renúncia fiscal. O tempo passou e o
próprio aumento das exportações de primários e
semi-elaborados, facilitado pela isenção fiscal, produziu mudanças
na economia dos estados.
Na prática, os governadores mostram preferir o velho e defasado sistema
tributário, desde que possam contar com o benefício da Lei Kandir
desvirtuada.
O noticiário ficou longe de todos os detalhes que poderiam render uma
boa discussão. Repórteres simplesmente repetiram o argumento
das perdas, sem perguntar se ainda há perdas, de fato, quase dez anos
depois de entrar em vigor a Lei Kandir. Os editores mais audaciosos publicaram
uma explicação sumária de como se situam nesse jogo a
União, os estados e as empresas, mas não tocaram no problema
de fundo, que é o sistema tributário internacionalmente defasado.
Um grande problema foi tratado como mais um conflito entre a fome de dinheiro
dos governadores e a tentativa malandra do Ministério da Fazenda de
congelar a verba.
Exemplo número 2 - A agricultura na lona
A primavera chegou, voltou a chover e é hora de plantar, mas em setembro
a indústria vendeu apenas 2.048 máquinas agrícolas -
45,9% menos que um ano antes. Neste ano, em nove meses, as vendas no mercado
interno foram 38,7% menores que no mesmo período de 2004. O dinheiro
anda curto para os agricultores, principalmente para os mais afetados pela
seca do primeiro semestre. Não é um problema pequeno.
Apesar da crise, a produção de alimentos tem sido suficiente
para manter os preços muito bem comportados há muitos anos.
Além disso, o agronegócio exportou até setembro 32,48
bilhões de reais e gerou um superávit de 28,72 bilhões
de reais - 87,9% do excedente comercial obtido pelo Brasil. Mas não
houve muito choro nem vela, nos grandes jornais, quando a Associação
Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a Anfavea divulgou,
na quinta-feira (6/10), o relatório mensal de produção
e vendas.
O destaque foi para as vendas de automóveis, como era previsível.
A Folha de S.Paulo publicou num pé de página, em uma coluna,
uma nota curta, mas bem-feita, sobre as máquinas agrícolas e
sobre a crise no campo. Gazeta Mercantil e Valor deram matérias maiores.
Estado de S.Paulo e O Globo desconheceram a crise agrícola refletida
nos números da Anfavea.
Jornais especializados, como Gazeta Mercantil e Valor, têm mais espaço
para uma cobertura mais ampla, dirão alguns leitores. O argumento é
bom, mas duas outras verdades também devem ter algum peso: 1) os dois
jornais dedicam bom espaço, e com resultado apreciável, à
cobertura política e a assuntos fora de sua especialidade; 2) os jornais
de cobertura geral gastam muito espaço, nos cadernos de economia, com
matérias de época - vendas no Dia das Mães, encomendas
de Natal e assim por diante. Época de plantio, pelo visto, é
muito menos importante, embora o agronegócio (lavoura, criação,
indústria de insumos e indústria processadora) represente, segundo
especialistas, uns 40% do Produto Interno Bruto.
Esse par de exemplos aponta para algo muito mais importante que as duas histórias
sub-aproveitadas. Todo dia os melhores jornais do mundo deixam de cobrir uma
porção de grandes assuntos e jogam no lixo um monte de reportagens
bem-feitas e interessantes. O problema é outro. A maioria dos jornais
- há exceções, naturalmente - optou pela informação
rápida e pelo tratamento epidérmico dos assuntos, preparou seu
pessoal e organizou suas equipes para isso.
Uma das conseqüências é o desperdício de talentos,
que não faltam nas redações. Outro resultado é
a perda de relevância: para que gastar tempo com jornais que não
oferecem mais que a televisão - e isso na melhor hipótese?