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“Teatro e comunicação política necessitam da força performática do corpo humano”
A pesquisadora brasileira Paula Diehl, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar
de Estudos sobre Encenações do Corpo (Körper-Inzenierungen)
da Universidade Livre de Berlim, esteve recentemente no Brasil coletando material
para suas pesquisas. Paula é autora de Propaganda e Persuasão
na Alemanha Nazista (editora Anna Blume, 1996) e de Macht-Mythos-Utopie: Die
Körperbilder der SS-Männer - 1933 –1938 (Poder, Mito e Utopia:
As Imagens dos Corpos dos Membros da SS - 1933 – 1938) (Akademie Verlag,
2005). Ela concluiu o doutorado em 2002 no Departamento de Ciência Política
da Universidade Humboldt, de Berlim. E concedeu uma entrevista exclusiva ao
site do Nemp.
1) Paula, por que você está pesquisando a representação
teatral do corpo no jogo político contemporâneo?
Eu acredito que o corpo seja um veio importante para se entender os mecanismos
de representação e apresentação midiática
da política hoje. Se prestarmos atenção, há uma
tendência mundial no uso performático do corpo como elemento
de teatralização da política, onde ele chega até
mesmo a desempenhar uma função lúdica ou incitar projeções
de desejos e aspirações de ordem individual. Silvio Berlusconi
é um ótimo exemplo.
2) O uso do corpo na política é mais intenso
hoje do que foi no passado?
O corpo sempre foi um elemento fundamental da comunicação política
e faz parte integrante de sua simbolização. É através
dele que a instituição se personifica. No entanto, o que observamos
atualmente é um desprendimento cada vez maior de sua função
em simbolizar as instituições políticas.
3) Qual é o mecanismo de representação
teatral que está envolvido no uso do corpo na política? Em política,
representar significa criar e consolidar uma personagem com certa identidade,
viver uma personagem?
Ambos. Teatro e comunicação política necessitam do que
se chama força performática do corpo, ou seja, a capacidade
de ações de caráter simbólico influenciarem o
real. Tanto no teatro como na política, o ator está atrelado
a uma identidade, se quisermos chamar assim, que não é a sua
identidade pessoal. No caso do ator de teatro, a identidade assumida durante
a representação é uma ficção. Já
o caso da política é mais complicado, a identidade privada do
soberano, rei ou político é remodelada pela instituição
que ele representa. Isso nos leva a uma das diferenças fundamentais
entre teatro e política: enquanto o público de teatro sabe que
está vendo uma peça, a representação política
só funciona se os cidadãos acreditarem no papel institucional
representado pelo político.
4) Você afirmaria que o uso do corpo significa um esvaziamento
dos conteúdos programáticos na política? Há um
falseamento político nestes atos?
Não necessariamente. Como disse antes, a política precisa do
corpo como elemento de sua representação simbólica. O
problema é quando o corpo do político deixa de representar as
instituições ou o cargo político, abandonando o elo de
ligação com a legitimidade política.
5) Há mais espaço para a utilização
teatral do corpo na cultura política brasileira que em outros países?
Apesar da tendência da teatralização da política
ser internacional, países como Brasil, Estados Unidos e Itália,
onde a mídia desempenha um papel fortíssimo na construção
de um cenário de representação político e do imaginário
social, e onde o consumo televisivo é muito maior do que em outros
lugares, estão mais propícios a essa tendência. No caso
do Brasil e, em uma escala menor, da Itália, o culto ao corpo e a cultura
hedonista acabam influenciando a comunicação e a apresentação
da política na mídia nesse sentido.
6) Qual o político brasileiro que mais utilizou o corpo
nas suas campanhas políticas? Cite exemplos e explique o significado
desse uso político do corpo.
O caso do ex-presidente Fernando Affonso Collor de Mello foi, sem dúvida,
o exemplo mais exacerbado da utilização do corpo na teatralização
da política. Collor servia-se de seu físico de diversas maneiras:
antes de tudo Collor exibia seu corpo aos telespectadores e leitores de jornais
como um troféu, expondo-o em trajes de banho ou em indumentária
esportiva. Arriscava-se em “aventuras perigosas”, como pilotar
aviões caças ou andar de moto sem capacete acima do limite de
velocidade permitido por lei. Esses espetáculos, que eram sempre midiáticos,
acabaram lhe valendo o apelido de “Indiana-Collor”, como a personagem
de Spielberg, Indiana Jones. Em discurso verbal, Collor também se apoiava
na importância que ele mesmo atribuía a seu corpo físico
para provar sua virilidade, competência política ou integridade
moral. Respondia várias vezes sobre sua capacidade política
e conduta moral referindo-se à sua saúde física. Frases
como “Eu nasci com aquilo roxo” foram marcantes de seu estilo
e viravam escândalo nacional.
Mas esse tipo de uso do corpo na política pode ser observado em outros
países. Vladmir Putin é um bom exemplo: ele também pilota
aviões acompanhado de jornalistas, mostrando sua coragem e capacidade
física. Silvio Berlusconi chegou até a fazer operaração
plástica divulgando na mídia os detalhes do seu “embelezamento”.
E o ex-Chanceler alemão Gerard Schröder processou a agência
de notícias DPA por esta ter divulgado que seu cabelo era pintado.
7) Em síntese o que você quer dizer quando utiliza a expressão
“teatralização da política”?
Teatralização da política é trazer do teatro para
a política mecanismos de representação que são
específicos do teatro. Estes estão baseados num acordo entre
público e ator que têm a ficção e o espetáculo
como razão de seu encontro. Quem compra um ingresso para uma peça
de teatro vive, por um determinado tempo, um mundo fictício, do qual
sai acabado o espetáculo. De forma mais radical pode-se falar em certa
ficcionalização da política através da utilização
de recursos estéticos e performáticos do teatro.
8) Quais são os autores e as teorias políticas
e sociológicas que você utiliza para dar sustentação
às análises e argumentos desenvolvidos em suas pesquisas?
Há várias teorias interessantes para se analisar a teatralização
da política. Acho que é necessário se trabalhar interdisciplinarmente,
conectando a teoria política com a sociologia da comunicação
e os Cultural Studies. Autores como Hannah Pitkin ou Stuart Hall ajudam a
abrir o caminho.