Introdução
Conclusões
Modernidade e Pós-modernidade
Comunicação e Tecnologia
O Hipertexto
Em direção à uma nova textualidade

Sujeito e subjetividade definidos pela linguagem

A noção de sujeito é uma noção bastante ampla. É, ao mesmo tempo, evidente e não-evidente.

Considerada a partir da compreensão da religião, a subjetividade se confundiu com a alma, com a divindade, que seria a subjetividade absoluta. Já a partir do ponto de vista do paradigma técnico-científico ela se dissolveu, historicamente, em determinismos físicos, biológicos, sociológicos ou culturais e, em alguns momentos, até se tornou um "ruído" a ser eliminado em benefício da eficiência e do progresso.

Mesmo dentro da psicologia, da história, da antropologia, disciplinas eminentemente relacionadas ao estudo do homem, verifica-se que houve, na modernidade, uma predominância de critérios técnico-científicos na definição do sujeito.

Na Psicologia behavorista, por exemplo, o sujeito chegou a ser reduzido à uma série de estímulos, respostas, comportamentos programáveis e compreensíveis. Na história e na antropologia, o sujeito foi substituído pelos determinismos sociais, por estruturas, com a sua subjetividade sendo reduzida, por vezes, a um valor de troca, a um valor instrumental

No entanto, o que se observa nesse fim de século, é que essas noções estanques e parciais foram transformadas. Deixou de existir um paradigma preponderante na definição do sujeito e de sua subjetividade. Uma definição que foi subsituída por um complexo agenciamento de sentidos, uma grande teia de significados criados, mantidos e modificados pela linguagem.

Um cenário onde noções ambivalentes e contraditórias podem coexistir e os conceitos são instrumentalizados de acordo com a finalidade das ações a que se propõem.

No mundo digital o sujeito e a subjetividade se estabelecem numa relação dialógica. Existem na linguagem e a partir dela. Nessse contexto, é possível que a noção de sujeito se misture com a de objeto, o humano se misture com a máquina, a realidade com a virtualidade.

No ciberespaço, cada usuário define a sua identidade, o seu sexo a sua personalidade através de uma construção lingüística, que pode ou não corresponder a sua realidade física, mas que dispõe de uma realidade virtual, uma existência não-corpórea mas real.

Nasce um indivíduo que não é mais formado por corpo e espírito, que não é mais um conjunto de estímulos previsíveis, nem tão pouco fruto, do determinismo histórico. É, enfim, um sujeito lingüístico, cuja identidade está em constante movimento é e, na sua existência efêmera, objetivada por processos lingüísticos complexos, mutantes, coletivos e multilineares.

Enfim, um sujeito que não mais se define por critérios ontológicos ou físicos. Um sujeito que se define na linguagem, no contexto, na interação. Que possui uma subjetividade coletiva e virtual, que pressupõe constantes inter-relações entre unidade e todo, entre o singular e coletivo, entre o tudo e o nada.

É nessa relação entre a construção da subjetividade e a linguagem, que se pode antever o papel significativo desempenhado pelos processos mediáticos contemporâneos e, em especial, dos novos agenciamentos da informação possibilitados pela linguagem hipertextual.

O que se verifica, é que os meios tradicionais de comunicação ainda estão, de um modo geral, bastante atrelados a um paradigma tecno-positivista, no tratamento da informação. Há uma fadiga na informação, gerada tanto por um excesso de dados, mas principalmente pelo emprego de narrativas empobrecidas, poluídas, que contribuem mais do que corrigem as doenças sociais.

Este empobrecimento se deve a uma lógica de produção e transmissão da informação que se encontra cristalizada, incapaz de apreender a complexidade do mundo, terminando por reduzí-lo a um relato insípido, violento e numérico.

A tentativa de assegurar uma objetividade, através de tecnologias e técnicas, resulta falsa, servindo apenas a um controle da verdade e a uma desumanização profunda dos acontecimentos e do sujeito, que se torna um número, uma estatística, uma categoria. É um uso empobrecido da racionalidade, sempre comprometida com uma narrativa da certeza, da objetividade, da verdade absoluta.

Neste cenário, observa-se que há, na maioria das vezes de forma implícita, a manutenção das figuras de poder, do status quo social, um reforço do "estado de coisas". Uma redução dos cenários sócio-culturais a uma relação de causa e efeito unívocas.

O hipertexto e a Internet não escapam dessas contradições. No entanto, a sua estrutura multilinear, digital e interativa traz, em si mesma, um potencial de subversão da lógica empobrecida da mídia. Traz mudanças significativas à narrativa, aos papéis do autor e do leitor, à lógica da organização, manipulação e distribuição da informação.

Porém, mais do que uma adaptação de conteúdos e um novo relacionamento com a informação são necessários para que o hipertexto possa contribuir para uma lógica mais complexa, mais dialógica, mais profunda na comunicação.

Há uma linguagem a ser criada. O que se observa na Internet é uma apropriação de linguagens de diversas mídias, num processo mimético, em constante mutação. Na verdade, mais do que uma linguagem que facilite a navegação e apresente coerentemente os conteúdos é necessário um aprofundamento nas pesquisas sobre o próprio meio digital, para explorar, criativamente, as suas possibilidades expressivas.

De certa forma, há a necessidade de uma aproximação da narrativa hipertextual com a experiência estética da arte, para que ela seja capaz de manifestar efetivamente o seu potencial de transformação do discurso mediático e da sociedade como um todo.

Para que seja criado, então, o espaço para uma narrativa emancipatória, interveniente; com uma perspectiva solidária e sensível diante da realidade; que contenha silêncios, ambivalências, críticas; que assuma positivamente a subjetividade inerente a sua realização; que exponha os conflitos, as tensões da realidade em seus diversos contextos (ao invés de enquadrá-la, simplificá-la numa racionalidade reduzida, onde a produção de significados é feita de forma linear não-processual).

Enfim, uma narrativa que busque a intertexutalidae e a inter-pluri-causalidade, que pressuponha, na sua realização, uma dialogia, um compromisso com o leitor.

A criação de tal narrativa, exige a elaboração, pelo comunicador, de novas ferramentas mentais. Daí, mais uma vez, a aproximação reativa e salutar da arte. Como disse um sábio certa vez...

"a virtude da arte está fazer o fenômeno parecer estranho".

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