A imprensa brasileira e os senhores da guerra

 

Por Luiz Martins

Especial para O Correio.

 

         A atual guerra veio demonstrar que o público brasileiro está à mercê do monopólio da opinião por um dos lados, da mesma forma como a economia brasileira está sujeita às manipulações financeiras internacionais. Os poucos correspondentes brasileiros cobrem o mundo a partir de Nova York e Londres e, em contrapartida, não existe nenhum sistema de radiodifusão que transmita para o exterior uma visão brasileira dos fatos.

Discute-se neste momento, no âmbito dos executivos da Radiobrás, a criação de um canal a cabo internacional, mas tão somente para favorecer o comércio exterior.          A Radiobrás disponibiliza on-line textos, áudios e vídeos - em português, espanhol, inglês e alemão -, e mantém convênios com agências estrangeiras para que elas possam, quando oportuno, utilizá-la como fonte. E é tudo. Aquele velho pregão “de Pernambuco para o mundo” ficou no folclore.

         Há uma máxima segundo a qual numa guerra a primeira vitima é a verdade. O que está pressuposto é que o pluralismo é constitutivo da verdade. Na medida em que este pluralismo seja impedido ou coagido por algum senhor da guerra, tem-se apenas meias verdades. Guerra e liberdade de expressão não combinam. Conseqüentemente, a primeira vítima da guerra é também a imprensa, na proporção em que ela possa ser portadora de alguma verdade.

         A tentação à censura, portanto, é típica de quem comanda uma guerra. E o que vimos nestes dias foi uma proposta capaz de ruborizar qualquer jornalista, de que as televisões norte-americanas e, por extensão toda a sua clientela mundial, não transmitam imagens do lado contraposto, pois o inimigo poderia estar enviando comandos às linhas terroristas.

         A guerra bombardeia, portanto, princípios e valores sagrados, como a famosa Primeira Emenda que garante aos norte-americanos a liberdade de expressão. A sugestão de autocensura também é problemática porque significa perdas financeiras: imagens impactantes representam milhões de dólares em caixa. Contra o inimigo, porém, vale oferecer gratuitamente radinhos que até dispensam pilha, mas, paradoxalmente, impedem qualquer outra sintonia que não seja a voz do “benfeitor”.

Numa guerra, portanto, não se pode depender de uma única fonte fornecedora de informações. Para nós, brasileiros, o radinho oferecido ao afegão serve de metáfora. É a versão hegemônica dos fatos globais, que antes da guerra já nos chegava diariamente empacotada, circulando em sentido único. Não temos uma visão brasileira do mundo, nem uma difusão de imagens brasileiras, a não ser de um certo imaginário – novelas e quadrinhos.

         Cada parte beligerante usa o controle da informação fator estratégico. A imprensa, no entanto, não pode ser vista como uma das divisões do exercito ou como parte da inteligência. CIA e FBI recobram a importância de outrora, mas a imprensa não pode ficar a reboque dessa volta ao passado.

 A presente guerra está pondo em cheque a lenda de que vivíamos num mundo global. Ora, que globalização é esta que não suporta diferentes visões de um conflito? Quando que se imaginava que o outro lado da Terra poderia tornar-se tão obscuro quanto o outro lado da Lua? E, de repente, esta outra face resolve botar a cara para fora de uma caverna. E eis então desde a Guerra do Fim do Mundo a própria face messiânica de Osama, parecendo um Antônio Conselheiro global, dividindo o mundo em duas hostes, os fiéis e os infiéis, graças às câmeras de uma surpreendente TV Al Jazeera, do minúsculo, mas rico Catar.

         A cobertura jornalística desta ‘guerra ao terrorismo’ está servindo para demonstrar o quanto são atuais as contradições que levaram a Unesco, na década de 70, a propor uma Nova Ordem Internacional da Informação, que resultou na publicação, em 1983, do famoso Relatório McBride (Um mundo e muitas vozes), apontando profundas disparidades na circulação de notícias e imagens.

         Chega a ser patético, mas louvável, o esforço de alguns repórteres brasileiros, entre eles, Pepe Escobar, e Pedro Bial, para proporcionar filtros alternativos ao domínio das agências e TVs ocidentais, o primeiro, na fronteira paquistanesa com o Afeganistao; e o segundo recuperando via notebook imagens da TV chinesa captadas na Noruega.

Globalização existe, mas da pobreza, que muito bem poderia ser resolvida com os US$ 40 bilhões a serem torrados no Afeganistão. Cada míssil tomahawk custa 1,2 milhão de dólares. O custo da guerra terá de ser repassado às economias mais vulneráveis, as mesmas que já arcam com os juros das dívidas externas. As ações de combate à fome poderiam se equiparar a mísseis poderosos. A fome mundial mata 3,6 pessoas a cada segundo atinge 800 milhões de pessoas. A fome é o pior massacre e o permanente dos terrorismos.

         Que não haja uma universalização do ser humano e de seus direitos e prerrogativas já é grave, mais de meio século depois de instituída a Declaração dos Direitos do Homem. Acreditava-se, entretanto, que estava em curso pelo menos um processo de globalização. Vê-se, agora,  que o mundo regride ao tempo dos senhores da guerra, com os seus arautos. Parece um pouco com os primórdios da imprensa européia, quando reis criavam jornais para contar as suas próprias versões de batalhas, ainda que perdidas.

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Luiz Martins, jornalista, coordena na Faculdade de Comunicação da UnB, o projeto de pesquisa e extensão SOS-Imprensa.