Escolha sexual, ato
sexual
v
Traduzido a partir de FOUCAULT,
Michel. Dits et
Écrits. Paris: Gallimard, 1994, pp. 320-335 por Wanderson Flor do Nascimento.
- Temos aí, seguramente, um estudo
muito importante, cuja originalidade é já evidente na maneira em que ele propõe
o problema. Do ponto de vista metodológico, a rejeição de Boswell da oposição
estabelecida entre homossexual e heterossexual – que desempenha um papel muito
importante na maneira como nossa cultura considera a homossexualidade –
constitui um progresso, não somente para a ciência, mas também para a crítica
cultural. A introdução do conceito de gay (na definição que é dada por
Boswell), ao mesmo tempo em que fornece um precioso instrumento de análise, nos
auxilia a melhor compreender a imagem que as pessoas têm delas mesmas e de seus
comportamentos sexuais. No que concerne aos resultados da pesquisa, esta
metodologia permite descobrir que isto que se tem chamado de repressão da
homossexualidade não remonta ao cristianismo, propriamente falando, mas a um
período mais tardio da era cristã. É importante, neste tipo de análise,
perceber as idéias que as pessoas têm de sua sexualidade. O comportamento
sexual não é, como muito se costuma supor, a superposição, por um lado de
desejos oriundos de instintos naturais e, por outro, de leis permissivas e
restritivas que ditam o que se deve e o que não se deve fazer. O comportamento
sexual é mais que isso. É também a consciência do que se faz, a maneira que se
vê a experiência, o valor que se a atribui. É, neste sentido, creio eu, que o
conceito de gay contribui para uma apreciação positiva – mais que puramente
negativa – de uma consciência na qual o afeto, o amor, o desejo, as relações
sexuais são valorizadas.
- Seu trabalho recente o tem conduzido, se eu não me engano,
a estudar a sexualidade na Grécia antiga.
- Exatamente, e este
livro de Boswell me serviu de guia, na medida em que me indicou onde procurar o
que faria o valor que as pessoas atribuem a seus comportamentos sexuais.
- Essa valorização do
contexto cultural e do discurso que as pessoas têm a respeito de suas condutas
sexuais é reflexo de uma decisão metodológica de contornar a distinção entre
predisposição inata à homossexualidade e condicionamento social? Você tem
alguma posição a esse respeito?
- Não tenho estritamente
nada a dizer sobre esse ponto. Sem comentários.
- Você acha que não
há uma resposta para esta questão? Ou que esta é uma falsa questão? Ou
simplesmente ela não o interessa?
- Não, nada
disso. Eu simplesmente não creio que seja útil falar de coisas que estão além
de minha competência. A questão que você coloca não é de minha alçada, e eu não
gosto de falar de coisas que realmente não constituem o objeto do meu trabalho.
Sobre esta questão eu tenho somente uma opinião, e por ser uma opinião, é sem
interesse.
– Mas as
opiniões podem ser interessantes, você não acha?
– É verdade, eu poderia
dar minha opinião, mas ela apenas teria sentido na medida em que todos fossem
consultados. Eu não quero, sob pretexto de que estou sendo entrevistado, me
aproveitar de uma posição de autoridade para fazer comércio de opiniões.
- Está bem. Vamos,
então, mudar de assunto. Você pensa que se possa legitimamente falar de
consciência de classe no que concerne aos homossexuais? Deve-se encorajar os
homossexuais a se considerar como parte de uma classe, da mesma forma que os
operários não qualificados ou que os negros em certos países? Quais devem ser,
segundo você, os objetivos políticos dos homossexuais, enquanto grupo?
- Em resposta à sua
primeira questão, eu diria que a consciência da homossexualidade vai certamente
além da experiência individual e compreende o sentimento de pertencimento a um
grupo social particular. É um fato incontestável, que remonta a tempos muito
antigos. Certamente, essa manifestação da consciência coletiva dos homossexuais
vem mudando com o tempo e varia de um lugar para outro. Por exemplo, em diversas ocasiões, ela tomou a forma de
um pertencimento a um tipo de sociedade secreta ou de pertencimento a uma raça
maldita, ou ainda de pertencimento a uma fração da humanidade que foi ao mesmo
tempo privilegiada e perseguida – a consciência coletiva dos homossexuais tem
sofrido numerosas transformações, todas, diga-se de passagem, como a
consciência coletiva dos operários não qualificados. É verdade que, mais
recentemente, alguns homossexuais, segundo o modelo político, têm tentado
formar uma certa consciência de classe. Minha impressão é de não se obteve
realmente um sucesso, quaisquer que fossem as conseqüências políticas dessa
atitude, porque os homossexuais não constituem uma classe social. Isso não quer
dizer que não se possa imaginar uma sociedade onde os homossexuais constituam
uma classe social. Mas dado nosso modo
atual de organização econômico e social, não vejo muitas possibilidades disso
se efetuar.
Quanto aos objetivos
políticos do movimento homossexual, dois pontos podem ser sublinhados. É
preciso, em primeiro lugar, considerar a questão da liberdade de escolha
sexual. Eu digo liberdade de escolha sexual e não liberdade de ato sexual,
porque certos atos, como o estupro não devem ser permitidos, quer se dêem entre
um homem e uma mulher ou entre dois homens. Eu não creio que deveríamos fazer
de uma forma de liberdade absoluta, de liberdade total de ação no domínio
sexual nosso objetivo. Por outro lado,
quando a questão é a escolha sexual, nossa intransigência deve ser total. A liberdade de escolha sexual implica a
liberdade de expressão dessa escolha.
Por isso, eu entendo a liberdade de manifestar ou de não manifestar essa escolha. No que diz respeito à
legislação, é verdade que têm acontecido progressos consideráveis neste
assunto, apontando para uma maior tolerância, mas há ainda muito o que fazer.
Em segundo lugar, um
movimento homossexual pode adotar como objetivo colocar a questão do lugar que
ocupam, para o indivíduo em uma dada sociedade, a escolha sexual, o
comportamento sexual e os efeitos das relações sexuais entre as pessoas. Essas
questões são fundamentalmente obscuras. Veja, por exemplo, a confusão e
equivoco que rodeia a pornografia ou a falta de clareza que caracteriza a
questão do estatuto legal definidores da relação entre duas pessoas do mesmo
sexo. Eu não quero dizer que a legislação do casamento entre homossexuais deva
se constituir em um objetivo, mas nós temos uma série de questões concernentes
à inserção e o reconhecimento no interior do quadro legal e social de um certo
número de relações entre indivíduos, para os quais devemos encontrar uma
resposta.
- Você então
considera, se eu bem entendi, que o movimento homossexual não deve somente
adotar por objetivo aumentar a liberdade legal, mas devem também colocar
questões mais abrangentes e mais profundas sobre o papel estratégico que
desempenham as preferências sexuais e sobre a maneira como essas preferências
são percebidas. Você pensa que o movimento homossexual não deveria
limitar-se somente à liberalização de
leis relativas à escolha sexual do indivíduo, mas deveria também incitar ao
conjunto da sociedade a repensar seus pressupostos no que diz respeito à
sexualidade. O que eu gostaria de dizer, em outros termos, é que os
homossexuais não seriam os desviados que é preciso deixar viver em paz, mas é
preciso destruir todo o sistema conceitual que classifica os homossexuais entre
os desviados. Eis o que coloca interessantemente em jogo a questão dos
professores homossexuais. Por exemplo, no debate que se instaurou na
Califórnia, acerca do direito dos homossexuais ensinarem em escolas primárias
ou secundárias, os que estão contra esse direito se fundamentam não somente
sobre a idéia de que os homossexuais possam constituir um perigo para a
inocência, na medida em que eles estariam suscetíveis de tentar seduzir seus
alunos, mas também sobre o fato de que os homossexuais podem pregar a
homossexualidade.
– Toda esta questão, veja, foi mal formulada.
Em caso nenhum a escolha sexual de um indivíduo deve determinar a profissão que
lhe é permitida ou que lhe é proibida exercer. As práticas sexuais simplesmente
não são critérios pertinentes para decidir a capacidade de um indivíduo para
exercer uma dada profissão. Claro, você pode me dizer, "mas se essa profissão é
utilizada pelos homossexuais para estimular outras pessoas a se tornarem
homossexuais?”
Eu lhe responderia isto:
você crê que os professores que, durante anos, dezenas de anos, de séculos,
explicaram às crianças que a homossexualidade era inadmissível; você crê que os
manuais escolares que expurgaram a literatura e falsificado a história, com o
objetivo de excluir um certo número de condutas sexuais, não causaram danos
pelo menos tão sérios quanto os que se podem imputar a um professor homossexual
que fale da homossexualidade e que o defeito é só explicar uma dada realidade,
uma experiência vivida?
O fato de que um
professor seja homossexual apenas tem efeitos eletrizantes e extremos sobre
seus alunos se o resto da sociedade se recusar a admitir a homossexualidade. A
priori, um professor homossexual não deve colocar mais problemas do que um
professor calvo, um professor homem numa escola de meninas, uma professora
mulher em uma escola de meninos ou um professor árabe em uma escola do XVIo
distrito de Paris.
Quanto ao problema do
professor homossexual que busque ativamente seduzir seus alunos, tudo o que eu
posso dizer é que a possibilidade desse problema é presente em todas as
situações pedagógicas; encontra-se bem mais exemplos deste tipo de conduta
entre os professores heterossexuais – simplesmente porque eles constituem a
maior parte dos professores.
– Observa-se uma
tendência cada vez mais marcada, nos círculos intelectuais americanos, em
particular entre as feministas mais radicais, em distinguir entre a
homossexualidade masculina e a feminina. Esta distinção repousa sobre duas
coisas. De início, se o termo homossexualidade é empregado para designar não
somente uma inclinação pelas relações afetivas com pessoas do mesmo sexo, mas
também uma tendência a encontrar, em pessoas do mesmo sexo, uma sedução e uma
gratificação eróticas, então é importante sublinhar coisas muito diferentes, no
plano físico, em um e outro caso. A outra idéia na qual se funda a distinção é
que as lésbicas, em seu conjunto, parecem procurar em outra mulher o que se
oferece em uma relação heterossexual estável: apoio, afetividade, compromisso a
longo prazo. Se isso não acontece no caso dos homens homossexuais, então se
pode dizer que a diferença é chocante, senão fundamental. A distinção lhe
parece útil e viável? Quais motivos se podem discernir, que justifiquem essas
diferenças que um bom número de feministas radicais influentes destacam com
tanta insistência?
– Não posso deixar de
cair na risada.
– Minha questão é
divertida de uma maneira que me escapa, estúpida ou as duas coisas?
– Ela certamente
não é estúpida, mas eu a acho muito divertida, sem dúvida por razões que eu não
poderia explicar, mesmo se eu quisesse. Eu diria que a distinção proposta não
me parece muito convincente, se eu julgar pelo que observo na atitude das
lésbicas. Mas, além disso, é preciso falar das pressões diferentes que se
exercem sobre os homens e as mulheres que se declaram homossexuais ou tentam
viver como tais. Eu não creio que as feministas radicais de outros países
teriam, nestas questões, o ponto de vista que você atribui ao círculo das
intelectuais americanas.
– Freud declara na
“Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” que todos os homossexuais
são mentirosos[2]. Não seria necessário levar essa afirmação a
sério para perguntar se a homossexualidade não comporta uma tendência à
dissimulação que teria levado Freud a
fazer esta afirmação. Se substituirmos
a palavra “mentira” por palavras como “metáfora” ou “expressão indireta” não
nos aproximaríamos mais do estilo homossexual? Não há algo de interessante em
falar de um estilo ou de uma sensibilidade homossexuais? Richard Sennet, por
sua vez, acha que não há estilo homossexual, assim como não há estilo
heterossexual. É este também seu ponto
de vista?
– Sim, eu não creio que
tenha muito sentido em falar de um estilo homossexual. Sob o plano mesmo da
natureza, o termo homossexualidade não significa muita coisa. Estou
precisamente lendo um livro interessante, lançado há pouco nos Estados Unidos e
que se intitula Proust and the Art of Loving (Proust e a arte de amar)[3] O autor mostra a dificuldade de dar um
sentido à proposição “Proust era homossexual”. Parece-me que temos aqui,
definitivamente, uma categoria inadequada. Inadequada no sentido onde, por um
lado, não se pode classificar os comportamentos e, por outro lado o termo não
dá conta do tipo de experiência que se tem. Pode-se, a rigor, dizer que há um
estilo gay, ou pelo menos, uma tentativa progressiva de recriar um certo estilo
de existência, uma forma de existência ou uma arte de viver que se pode chamar
“gay”.
Em resposta à sua
questão sobre a dissimulação, é verdade que no séc. XIX, por exemplo, era
necessário em certa medida, esconder sua homossexualidade. Mas tratar os
homossexuais como mentirosos equivale a tratar como mentirosos os resistentes
em uma ocupação militar, ou tratar os judeus como agiotas, em uma época onde a
profissão de agiota era a única que lhes era permitido exercer.
– Parece evidente,
entretanto, pelo menos no plano sociológico que se possa assinalar ao estilo
gay certas características, certas generalizações também – apesar de seu riso
constante – recordam formas estereotipadas como a promiscuidade, o anonimato
entre parceiros sexuais, a existência de relações puramente físicas, etc.
– Sim, mas as coisas não
são assim tão simples. Em uma sociedade como a nossa onde a homossexualidade é
reprimida – e severamente – os homens gozam de uma liberdade bem maior do que
as mulheres. Os homens têm a possibilidade de fazer amor bem mais
freqüentemente e em condições notadamente menos restritivas. Criaram-se casas
de prostituição para satisfazer suas necessidades sexuais. De maneira irônica,
isso teve como efeito uma certa permissividade em torno das práticas sexuais
entre os homens. Considera-se que o desejo sexual é mais intenso nos homens, e então têm uma maior necessidade de
dar vazão ao seu impulso. Assim, ao lado desses prostíbulos, foram aparecendo
banhos onde os homens podiam se encontrar e ter entre eles relações sexuais. Os
banhos tinham precisamente essa função.
Ele era um lugar onde os heterossexuais se encontravam para o sexo.
Penso que esses banhos só foram fechados no séc. XVI, sob o pretexto de que
eles eram lugares de uma baixaria sexual inaceitável. Desta maneira, mesmo a
homossexualidade se beneficiou de uma certa tolerância em ralação às práticas
sexuais enquanto se limitassem a um simples encontro físico. E não somente a
homossexualidade se beneficiou com esta situação, mas, através de um contorno
singular – comum neste gênero de estratégias –, ela inverteu os critérios de
tal maneira que os homossexuais tem podido, em suas relações físicas, gozar de
uma liberdade maior que a dos heterossexuais. Em conseqüência, os homossexuais
têm hoje a satisfação de saber que em um certo número de países – a Holanda, a
Dinamarca, os Estados Unidos e mesmo um país provinciano como a França –, as
possibilidades de encontros sexuais são imensas. Deste ponto de vista, a
consumação, se poderia dizer, tem aumentado muito. Mas isso não é
necessariamente uma condição natural da homossexualidade, um dado biológico.
- O sociólogo americano Philip Rieff, em um ensaio sobre
Oscar Wilde intitulado The Impossible Culture (A cultura impossível)[4], vê em Wilde um precursor da cultura moderna. O ensaio começa
com uma longa citação dos atos do processo de Oscar Wilde seguida de uma série
de questões que o autor levanta quanto
à viabilidade de uma cultura isenta de qualquer interdição – de uma cultura que
não conhece, então, a necessidade da transgressão. Examinemos, se você quer, o
que diz Philip Rieff:
“Uma cultura apenas
resiste à ameaça da possibilidade pura contra ela, na medida em que seus
membros aprendam por meio de sua vinculação a ela, a restringir as eventuais
escolhas oferecidas”.
“À medida que a cultura é interiorizada e se torna caráter, é a
individualidade que é reprimida, isso é o que Wilde mais valoriza. Uma cultura
em crise favorece o desabrochar da individualidade; uma vez interiorizadas as
coisas não pesam tanto para moderar o
jogo na superfície da experiência. Pode-se considerar a hipótese segundo a
qual, em uma cultura que atingisse a crise máxima, tudo poderia ser expresso e
nada seria verdadeiro”.
“Sociologicamente, uma verdade é tudo o que milita contra a
capacidade dos homens a expressarem tudo. A repressão é a verdade”.
O que Rieff diz de Wilde e da idéia de cultura encarnada por
Wilde parece plausível a você?
– Eu não estou seguro de que
compreendo a observação do professor Rieff. O que ele entende, por exemplo, por
“a repressão é a verdade”?
– Na realidade, eu creio que esta idéia é muito próxima à que
você explica em seus livros quando você diz que a verdade é o produto de um
sistema de exclusões, que ela é uma rede, uma épistémè, que define o que
pode e o que não pode ser dito.
– A questão importante, me parece, não
é de saber se uma cultura isenta de restrições é possível ou mesmo desejável,
mas se o sistema de repressões no interior do qual uma sociedade funciona deixa
os indivíduos livres para transformar esse sistema. Haverá sempre repressões
que serão intoleráveis a certos membros da sociedade. O necrófilo acha
intolerável que o acesso aos túmulos lhe seja proibido. Mas um sistema de
repressões apenas se torna verdadeiramente intolerável quando os indivíduos que
são submissos a esse sistema não têm mais os meios para modificá-lo. Isto pode
acontecer quando sistema se torna intangível, seja quando se o considera como
um imperativo moral ou religioso ou conseqüência necessária da ciência médica.
Se o que Rieff quer dizer é que as restrições devem estar claras e bem
definidas, então eu estou de acordo.
– Na realidade, Rieff
diria que uma verdadeira cultura é aquela na qual as verdades essenciais foram
bem interiorizadas por cada um e não sendo é necessário exprimi-las
verbalmente. É claro que, em uma sociedade de direito, seria necessário que o
leque de coisas não permitidas fosse explicito, mas as grandes crenças, ficam,
em sua maior parte, inacessíveis a uma formulação simples. Uma parte da
Reflexão de Rieff é dirigida contra a idéia que é desejável livrar-se de
crenças em nome de uma liberdade perfeita e também contra a idéia que as
restrições são, por definição, o que devemos nos empenhar em fazer desaparecer.
– Não há dúvida que uma
sociedade sem restrições é inconcebível. Mas eu apenas posso repetir, e dizer
que essas restrições devem ser suportadas pelos que ao menos têm a
possibilidade de as modificar. No que
diz respeito às crenças, eu não creio que Rieff e eu estejamos de acordo, nem
sobre seu valor, nem sobre seu sentido, nem sobre as técnicas que permitem
ensiná-las.
– Você tem, sem dúvida nenhuma, razão sobre este ponto. Podermos deixar agora as esferas do direito e da sociologia para nos voltar ao domínio das letras. Eu gostaria que você comentasse a diferença entre a erótica, tal como se apresenta na literatura heterossexual e o sexo que aparece na literatura homossexual. O discurso sexual, nos grandes romances heterossexuais de nossa cultura – eu percebo o ponto onde a designação “romances heterossexuais” é imprecisa – caracteriza-se por um certo pudor e uma certa discrição que parecem contribuir para o charme dessas obras. Quando os escritores heterossexuais falam do sexo em termos muito explícitos, parecem perder um pouco desse poder misteriosamente evocador, dessa força que se encontra em um romance como Anna Karenina. É ai que, de fato, George Steiner desenvolve com muita coerência um bom número de seus ensaios. Contrastante com a prática de grandes romancistas heterossexuais, nós temos o exemplo de diversos escritores homossexuais. Penso, por exemplo, em Cocteau que em seu Livre blanc[5], bem sucedido em preservar o encantamento poético que os escritores heterossexuais alcançam por meio de alusões veladas, descrevendo os atos sexuais em termos mais realistas. Você pensa que existe uma tal diferença entre esses dois tipos de literatura? E se sim, como você a justifica?
– É uma questão muito
interessante. Como eu havia dito antes, eu tenho lido, nestes últimos anos, um
grande número de textos latinos e gregos que descrevem as práticas sexuais
tanto de homens entre eles, quanto de homens com mulheres; eu fiquei surpreso
com o extremo pudor desses textos (há, claro, algumas exceções). Tomemos um
autor como Luciano. Temos aí um escritor antigo, que certamente fala da
homossexualidade, mas de uma maneira quase pudica. No fim de um de seus
diálogos, por exemplo, ele evoca uma cena onde um homem se aproxima de um jovem
rapaz, coloca a mão sobre seu joelho, depois a desliza por sobre sua túnica e
acaricia seu peito; a mão desce em seguida para o ventre do jovem homem, e
neste ponto, o texto se detém[6].
Tendo a atribuir esse pudor excessivo, que em geral, caracteriza a literatura
homossexual da Antiguidade, ao fato de que os homens gozassem, naquela época,
em suas práticas homossexuais, de uma liberdade bem maior.
– Eu compreendo. Em
suma, quanto mais as práticas sexuais são livre e francas, mais se permite
falar de maneira reticente e indiretas sobre elas. Isso explicaria por que a
literatura homossexual é mais explicita em nossa cultura que a literatura
heterossexual. Porém, eu me perguntaria hoje se há, nesta explicação, algo que
poderia justificar o fato de que a literatura homossexual consiga criar na
imaginação do leitor, os efeitos que cria a literatura heterossexual ao
utilizar mais precisamente os meios opostos.
– Eu poderia
tentar responder sua questão, se você me permite, de outra forma. A heterossexualidade, pelo menos desde a Idade
Média tem sido sempre percebida segundo dois eixos: o eixo da corte, onde o
homem seduz a mulher e o eixo do ato sexual mesmo. A maior parte da literatura
heterossexual do Ocidente é essencialmente preocupada com o eixo da corte
amorosa, quer dizer, com tudo o que precede o ato sexual. Toda a obra de
refinamento intelectual e cultural, toda a elaboração estética no Ocidente tem
se voltado sempre para a corte. Isso explica que o ato sexual mesmo seja
relativamente pouco apreciado, do ponto de vista literário, cultural e estético.
Por outro lado, não há
nada que ligue a moderna experiência homossexual à corte. Além do mais, as
coisas não se passam assim na Grécia antiga. Para os gregos, a corte entre os
homens era mais importante do que a corte entre homens e mulheres (que se pense
ao menos em Sócrates e Alcibíades). Mas a cultura cristã ocidental baniu a
homossexualidade, a forçando a concentrar toda a sua energia no ato mesmo. Os
homossexuais não podem elaborar um sistema de corte porque se lhe tem recusado
a expressão cultural necessária para esta elaboração. A piscada na rua, a
decisão, em uma fração de segundo, de aproveitar a aventura, a rapidez com a
qual as relações homossexuais são consumadas, tudo isso é o produto de uma
interdição. A partir do momento em que uma cultura e uma literatura
homossexuais se iniciasse, seria natural que elas se concentrassem sobre o
aspecto mais ardente e passional das relações homossexuais.
– Lembro, ao te
ouvir, da célebre fórmula de Casanova: “O melhor momento, no amor, é quando se
sobe as escadas”. Seria doloroso imaginar hoje essas palavras na boca de um
homossexual.
– Exatamente. Um
homossexual diria antes: “O melhor momento, no amor, é quando o amante se
distancia no táxi”.
– Eu não posso deixar
de pensar que está ai uma descrição mais ou menos precisa das relações entre
Swann e Odette no primeiro volume de La Recherche[7].
– Sim, é verdade em um
sentido. Porém, embora se trate de uma relação entre um homem e uma mulher,
seria necessário, na descrição, ter em conta a natureza da imaginação que a
concebe.
– E seria preciso
também ter em consideração a natureza patológica da relação tal como Proust
mesmo a concebe.
– Eu gostaria mesmo de
deixar de lado, neste contexto, a questão da patologia. Eu prefiro mais
simplesmente me ater à observação pela qual eu abri esta parte de nossa
conversa, a saber que, para um homossexual, é provável que o melhor momento do
amor é aquele onde o amante se distancia no táxi. É quando o ato está consumado
e o rapaz parte, que se começa a sonhar
com o calor de seu corpo, a beleza de seu sorriso, o tom de sua voz. É a
lembrança, e não a antecipação do ato que importa mais nas relações
homossexuais. É a razão pela qual os
grandes escritores homossexuais de nossa cultura (Cocteau, Genet, Burroughs)
podem descrever com tanta elegância o ato sexual: a imaginação homossexual se
liga, principalmente, à lembrança do que à antecipação deste ato. E como eu
disse antes, tudo isso é o produto de
considerações práticas, de coisas bem concretas, que nada dizem da natureza
intrínseca da homossexualidade.
– Você pensa que isso
tenha alguma influência sobre a pretensa proliferação das perversões de hoje?
Faço alusão a fenômenos como a cena sadomasoquista, os golden showers, as
diversões escatológicas e outras coisas do mesmo gênero. Sabemos que estas
práticas existem há muito tempo; mas parece que se as vive hoje de uma maneira
muito mais aberta.
– Eu diria também
que bem mais pessoas entregam-se a elas.
–
Você
pensa que este fenômeno e o fato de que a homossexualidade saia do armário,
tornando pública sua forma de expressão são, de alguma forma, ligados?
–
Eu arriscaria a seguinte hipótese: em uma civilização que, durante séculos,
considerou-se que a essência da relação entre duas pessoas residiria no fato,
de saber se uma das duas partes cederia ou não à outra, todo o interesse, toda
a curiosidade, toda a audácia e a manipulação que provaram as partes em
questão, sempre visaram a submissão do parceiro com a finalidade de deitar-se com
ele. Hoje, quando os encontros sexuais têm se tornado extremamente fáceis e
numerosos, como é o caso dos encontros homossexuais, as complicações acontecem
apenas depois do ato. Nestes encontros repentinos, depois de ter feito amor,
que se começa a inquirir o outro. Uma vez consumado o ato sexual, pergunta-se,
então ao parceiro: “Qual é mesmo seu nome?”
Estamos
na presença de uma situação em que toda a energia e a imaginação, antes
canalizadas para a corte em uma relação heterossexual, se aplicam, ai, para
intensificar o ato sexual. Desenvolve-se hoje toda uma nova arte da prática
sexual, que tenta explorar as diversas possibilidades internas do comportamento
sexual. Vemos se constituir em cidades como São Francisco e Nova Iorque, o que
se pode chamar de laboratórios de experimentação sexual. Pode-se ver, em
contrapartida à corte medieval, que definia regras muito estritas de
propriedade no ritual da corte.
É
porque o ato sexual tornou-se tão fácil e tão acessível aos homossexuais que
corre o risco de tornar-se rapidamente tedioso; por isso se faz tudo o que é
possível para inovar e introduzir variações que intensifiquem o prazer do ato.
– Sim,
mas por que essas inovações têm tomado esta forma e não outra? De onde vem a
fascinação pelas funções excretoras, por exemplo?
–
Eu acho mais surpreendente o caso do sadomasoquismo. Mais surpreendente, na medida onde as relações sexuais se
elaboram e se exploram através de relações míticas. O sadomasoquismo não é uma
relação entre este (ou esta) que sofre e este (ou esta) que inflige o
sofrimento, mas entre um senhor e a pessoa sobre a qual se exerce sua
autoridade. O que interessa aos adeptos do sadomasoquismo é o fato de que a
relação é ao mesmo tempo submissa às regras e aberta. Ela lembra um jogo de
xadrez, onde um pode ganhar e o outro perder. O senhor pode perder, no jogo
sadomasoquista, se ele se revela incapaz de satisfazer a necessidade e
exigências de sofrimento de sua vítima. Da mesma forma, o escravo pode perder
se ele não consegue tolerar ou não suporta o desafio lançado pelo senhor. Essa
mistura de regras e de abertura tem por efeito intensificar as relações
sexuais, introduzindo uma novidade, uma tensão e uma incerteza perpétuas, que é
isenta na simples consumação do ato. O objetivo é usar qualquer parte do corpo
como um instrumento sexual.
De
fato, a prática do sadomasoquismo é ligada à expressão célebre “animal
triste post coitum”. Como o coito é imediato nas relações homossexuais, o
problema se torna: “O que se pode fazer para se proteger do caminho da
tristeza?”
– Você
veria uma explicação para o fato dos homens parecerem hoje menos dispostos a
aceitar a bissexualidade das mulheres do que de outros homens?
–
Isso tem, sem dúvida, a ver com o papel que as mulheres desempenham na
imaginação dos homens heterossexuais. Eles as consideram, desde sempre, como
sua propriedade exclusiva. Para preservar essa imagem, um homem deve impedir
sua mulher de estar muito em contato com outros homens; as mulheres se viam,
assim, restritas a seu contato social com as outras mulheres, o que explica que
uma tolerância maior no que diz respeito às relações físicas entre as mulheres.
Por outro lado, os homens heterossexuais tinha a impressão que se eles
praticassem a homossexualidade, isso destruiria essa imagem que eles têm de si,
junto às mulheres. Os homens pensam que
as mulheres apenas experimentam prazer na condição que elas os reconheçam como
senhores. Mesmo para os gregos, o fato de ser o parceiro passivo em uma relação
amorosa constituía um problema. Para um membro da nobreza grega, fazer amor com
um escravo passivo era natural, porque o escravo era, por natureza, inferior.
Mas quando dois gregos da mesma classe social queriam fazer amor, isso colocava
um verdadeiro problema pois nenhum dos dois consentia em se reduzir diante do
outro.
Os
homossexuais ainda hoje conhecem este problema. A maioria deles consideram que
a passividade é, de uma certa forma, degradante. A prática do sadomasoquismo
contribuiu, de fato, para tornar o problema menos agudo.
– Você
pensa que as formas culturais que se desenvolvem na comunidade gay são, em
grande medida, destinadas aos jovens membros dessas comunidades?
–
Sim, em muitos casos, penso eu; mas eu não estou seguro que se possa tirar
conclusões importantes daí. Certamente, é enquanto homem de cinqüenta anos que
tenho a impressão que, quando leio certas publicações são feitas para e por gays,
que elas não se endereçam a mim, que não há, de uma certa maneira, lugar para
mim. Eu não me fundamentaria nestes fatos para criticar essas publicações, já
que elas satisfazem os interesses de seus autores e de seus leitores. Mas eu não posso me impedir de observar que
há uma tendência, entre os gays cultos, a considerar os grandes problemas, as
grandes questões de estilo de vida interessam prioritariamente às pessoas que
tem entre vinte e trinta anos.
–
Eu não vejo por que isso não poderia constituir a base não somente de uma
crítica de certas publicações específicas, mas também da vida gay em geral.
–
Eu não disse que ai não se poderia encontrar matéria para crítica, mas
somente que esta critica não me pareceria útil.
– Por
que não considerar, neste contexto, o culto voltado ao jovem corpo masculino
como o núcleo mesmo dos fantasmas homossexuais clássicos e falar da maneira que
esse culto aciona a negação de processos vitais comuns, em particular o
envelhecimento e o declínio do desejo?
–
Escute, essas questões que você levanta não são novas e você o sabe. No que diz
respeito ao culto voltado ao jovem corpo masculino, eu não estou totalmente
convencido que isso seja específico dos homossexuais, ou que isso tenha que ser
considerado como patológico. Se é isso que sua questão exprime, eu a recuso.
Mas lembro a você que, além do fato de que os gays sejam necessariamente
tributários de um processo vital, eles são também, na maioria dos casos, bem conscientes disso. As publicações gays
talvez não consagrem tanto o lugar que eu desejaria às questões de amizade
entre homossexuais ou à significação das relações de ausência de códigos ou de
linhas de condutas estabelecidas; porém cada vez mais gays têm resolvido essas
questões por si mesmos. E, como você sabe, eu acredito que o que embaraça mais
quem não é homossexual é o estilo de vida gay e não os atos sexuais em si.
– Você
faz alusão a coisas como os sinais de afeto e as carícias que os homossexuais
se fazem em público ou antes à maneira chamativa que eles se vestem, ou ainda,
ao fato de que eles arvoram as reuniões formais?
–
Todas essas coisas apenas podem ter um efeito perturbador sobre certas
pessoas. Porem, eu fazia alusão, sobretudo, ao temor comum de que os gays
estabeleçam relações que, ainda que elas não se conformem em nada ao modelo de
relações exaltado pelos outros, aparecendo, apesar de tudo, como intensas e
satisfatórias. É esta idéia de que os homossexuais possam criar relações que
não possamos ainda prever, que muitas pessoas não podem suportar.
– Você
faz alusão, então, às relações que não impliquem nem a possessividade nem a
fidelidade – para apenas mencionar dois fatores comuns que poderiam ser negados?
–
Se não podemos prever o que serão essas relações, não podemos verdadeiramente
dizer que esse ou aquele traço será negado. Porém, podemos ver no exército, por
exemplo, como o amor entre homens pode nascer e se afirmar em circunstâncias
onde somente o puro hábito e a regra são permitidos prevalecer. E é possível
que mudanças afetem, em maiores proporções, as rotinas estabelecidas, na medida
em que os homossexuais aprendam a exprimir seus sentimentos em relação uns aos
outros das maneiras mais variáveis e criarem estilos de vida que não se
assemelhem aos modelos institucionais.
– Você
considera que seu papel seja de endereçar à comunidade gay particularmente as
questões de importância geral, como as que você levantou?
– Eu
tenho, habitualmente, conversas com outros membros da comunidade gay. Nós
discutimos, tentamos encontrar maneiras de nos abrir uns aos outros. Porém eu
me vigio para não impor minhas próprias visões, para não fixar planos ou
programas. Eu não quero desencorajar a invenção, não quero que os homossexuais
cessem de crer que são eles que devem regular suas próprias relações, descobrir
o que serve para suas situações individuais.
– Você
não pensa que haveria conselhos particulares ou uma perspectiva específica que
um historiador ou um arqueólogo da cultura como você pudesse oferecer?
–
É sempre útil compreender o caráter historicamente contingente das coisas, de
ver como e porque as coisas se tornam o que elas são. Mas eu não sou o único
que é equipado para mostrar essas coisas e quero me guardar da suposição de que
certos desenvolvimentos foram necessários ou inevitáveis. Minha contribuição
pode ser, eventualmente, ser útil em certos domínios, mas, ainda uma vez, eu
quero evitar de impor meu sistema ou meu plano.
– Você
pensa que, de uma maneira geral, os intelectuais são, em relação aos diferentes
modos de comportamento sexual, mais tolerantes ou mais receptivos que as outras
pessoas? Caso positivo, isso se deveria a uma melhor compreensão da sexualidade
humana? Caso negativo, você pensa que você e outros intelectuais possam fazer
alguma coisa para melhorar essa situação? Qual é o melhor meio de reorientar o
discurso racional sobre o sexo?
–
Eu penso que em matéria de tolerância, nós sustentamos numerosas ilusões. Tome
o incesto, por exemplo. O incesto tem sido, durante muito tempo, uma prática
popular – entendo por isso uma prática muito difundida entre o povo. Até o fim
do séc. XIX, diversas pressões sociais começaram a se exercer contra o incesto.
É claro que a grande interdição ao incesto é uma invenção dos intelectuais.
– Você
quer dizer figuras como Freud e Lévi-Strauss ou pensa na classe intelectual em
seu conjunto?
–
Não, eu não viso uma pessoa em particular. Eu chamo sua atenção sobre o fato
de que, se você pesquisa na literatura do séc. XIX estudos sociológicos ou
antropológicos sobre o incesto, você não vai encontrar. Existe antes, aqui e
ali, algumas relações médicas e outras, mas parece que a prática do incesto não
tem um verdadeiro lugar de problema, na época.
Sem
dúvida, esses assuntos são abordados mais abertamente entre os melhores
intelectuais, mas isso não é sinal de uma tolerância maior. Isso, as vezes,
indica o contrário. Há dez ou quinze anos, quando eu freqüentava o meio
burguês, eu me lembro que era raro uma reunião sem que se abordasse a questão
da homossexualidade e da pederastia – afinal, não se esperava mesmo a
sobremesa. Mas essas mesmas pessoas que abordavam abertamente essas questões provavelmente
não admitiriam jamais a pederastia de seus filhos.
Quanto
a prescrever a orientação que devem tomar um discurso racional sobre o sexo, eu
prefiro não legislar sobre esse assunto; por uma razão: a expressão “discurso
intelectual sobre o sexo” é muito vaga. Certos sociólogos, sexólogos,
psiquiatras, médicos e moralistas têm propostas muito estúpidas – assim como
outros membros dessas mesmas profissões têm propostas inteligentes. A questão,
em minha opinião, não é sobre um discurso intelectual sobre o sexo, mas de um
discurso estúpido e de um discurso inteligente.
– Eu
compreendi que o senhor descobriu, a pouco tempo, um certo numero de obras que
progridem em uma boa direção.
– É
verdade, mais do que eu podia imaginar há alguns anos. Mas no conjunto, a
situação é menos que encorajadora.
[1] Boswell (J.), Christianity, Social
Tolerance and Homosexuality: Gay People in Western Europe from the Beginning of
the Christian Era to the Fourteenth Century. Chicago: The University of Chicago
Press, 1980.
[2] Alusão à frase de Freud: "Eu lhe expliquei um dia que eu
não devia confiar nesses sonhos, pois eles são mentirosos". Em "Sur
la psychogenèse d'un cas d'homosexualité féminine", 1920, Névrose,
Psychose Perversion. P.U.F., 1973,
p.264.
[3] RIVERS (J. C.). Proust and the Art of
Loving: The Aesthetics of Sexuality in the Life, Times and Art of Marcel
Proust. New York: Columbia University Press, 1980.
[4] Rieff, P. “The Impossible Culture”, Salmagundi,
nos 58-59: Homosexuality: Sacrilege, Vision, Politics,
autonome 1982-hiver pp. 406-426.
[5] Cocteau, J. Le Livre blanc. Paris: Sachs et Bonjean, 1928.
[6] Lucien. Dialogues
des courtisanes. (trad. E. Talbot). Paris: Jean-Claud Lettès, 1979.
[7] Proust, M. À la recherche du temps
perdu. t. I: Du cote chez Swann, 2e
partie: une amour de Swann. Paris: Ed. De la Nouvelle Revue
française, 1929.