Uma estética da
existência
Entrevista com Michel
Foucault
FOUCAULT, Michel. Dits et écrits. Paris: Gallimard, 1994, Vol. IV, pp. 730-735.
Tradução:
Wanderson F. Nascimento
<Une esthétique de l’existence> (entretien
avec A. Fontana), Le monde, 15-16 juillet 1984, p. XI.
Sete anos se passaram após A vontade de Saber. Sei que
seus últimos livros têm trazido muitos problemas e que você tem encontrado
dificuldades. Eu gostaria que você me falasse dessas dificuldades e sobre essa
viagem ao mundo greco-romano, que, ainda que não fosse ignorado por você, não
era também muito conhecido.
- As dificuldades derivaram do projeto mesmo, este que,
justamente, queria evitá-las.
Ao programar meu trabalho para vários volumes, de acordo com um
plano preestabelecido, eu havia dito a mim mesmo que havia chegado o momento de
escrever sem dificuldade e, simplesmente desenvolver o que eu tinha em minha
mente, confirmando-o com o trabalho de investigação empírica.
Quase morro de aborrecimento ao escrever esses livros: eles se
pareciam muito com os precedentes. Por certo, escrever um livro é sempre correr
um risco qualquer. Por exemplo, de não ter sucesso em escrevê-lo. Quando se
sabe de antemão onde se vai terminar ou se vai chegar, há uma dimensão da
experiência que falta, aquela que consiste precisamente em escrever um livro
arriscado de não chegar à parte final. Tive, deste modo, de mudar o projeto
geral: no lugar de estudar a sexualidade nos limites do saber e do poder,
ensaiei uma pesquisa mais alta: como era constituído, para o sujeito mesmo, a
experiência de sua sexualidade como desejo. Para clarear esta problemática, fui
levado a considerar textos gregos e latinos muito antigos, o que demandou de
mim muita preparação, muito esforço, fato que me causou, até o fim, incertezas
e hesitações.
- Há sempre uma certa "intencionalidade" nos seus
trabalhos que, frequentemente, escapa aos leitores. A História da Loucura
tinha ao fundo a história da constituição desse saber ao qual se chama
psicologia; As Palavras e as Coisas era a arqueologia das ciências
humanas; Vigiar e Punir coloca em jogo as disciplinas do corpo e da
alma. Parece que o que esta no centro de seus últimos livros é o que você chama
de os "jogos de verdade".
- Eu não creio que exista uma grande diferença entre estes
livros e os precedentes. Deseja-se muito, quando se escreve livros como estes,
modificar tudo o que se pensa e se encontrar novamente, ao final, diferente do
que era ao começo. Então se percebe que se tem mudado relativamente pouco.
Talvez se tenha mudado de perspectiva, se tenha girado em torno do problema,
que é sempre o mesmo, digamos, as relações entre o sujeito, a verdade e a
constituição da experiência. Tenho tratado de analisar como áreas tais quais as
da loucura, da sexualidade e da delinqüência podem entrar em um certo jogo da
verdade e como, por outro lado, o sujeito mesmo é afetado por meio dessa
inserção da prática humana, do comportamento no jogo da verdade. Este era o
problema da história da loucura, da sexualidade.
– Isto não é, no fundo, uma nova genealogia da moral?
– Sem a solenidade do título e sem a grandeza que Nietzsche lhe
impôs, eu diria que sim.
– Em um texto publicado em O Debate de novembro de
1983, você fala, em respeito da Antigüidade, de morais voltadas para a ética e
de morais voltadas para o código. É esta mesma distinção entre a moral
greco-romana e a que vai nascer com o cristianismo?
– Com o cristianismo, veio a se instaurar lentamente,
progressivamente uma mudança em relação às morais antigas, que eram,
essencialmente, uma prática, um estilo de liberdade. Naturalmente, havia também
certas normas de comportamento que regulavam a conduta de cada um. Porém, a
vontade de ser um sujeito moral e a procura de uma ética da existência era
principalmente, na Antiguidade, um esforço para afirmar a própria liberdade e
dar a sua própria vida uma certa forma na qual podia se reconhecer e ser
reconhecido por outros e onde a posteridade mesma poderia encontrar como
exemplo.
Esta elaboração da própria vida como uma obra de arte pessoal,
ainda que obedecendo certos cânones coletivos, estava ao centro, me parece, da
experiência moral, da vontade moral na Antigüidade, enquanto que, no
cristianismo, com a religião do texto, a idéia de uma vontade de Deus, o
princípio de uma obediência, a moral assume muito mais a forma de um código de
regras (somente certas práticas ascéticas estavam mais ligadas ao exercício de
uma liberdade pessoal).
Da Antigüidade ao cristianismo, passou-se de uma moral que era
essencialmente uma busca de uma ética pessoal a uma moral como obediência a um
sistema de regras. E se eu sei me interessar pela Antigüidade, é que, por toda
uma série de razões a idéia de uma moral como obediência a um código de regras
está em processo, presentemente, de desaparecimento; já desapareceu. E à essa
ausência de moral, responde, deve responder, uma busca de uma estética da
existência.
- Todo o saber acumulado nos últimos anos sobre o corpo, a
sexualidade, as disciplinas, tem melhorado nossos relacionamentos com os
outros, nosso ser no mundo?
- Não posso parar de pensar que toda uma série de coisas postas
em discussão, mesmo independentemente de coisas políticas, acerca de certas
formas de existência, regras de comportamento, etc., tem sido profundamente
benéfica: relações entre os corpos, entre homem e mulher, com a sexualidade.
- Então esses saberes têm nos ajudado a viver melhor?
- Não existe simplesmente uma mudança nas preocupações, mas nos
discursos filosófico, teórico e crítico: com efeito, na maior parte das
análises feitas, não se sugere às pessoas o que elas devem ser, o que elas
devem fazer, o que elas devem crer e pensar. Faz-se aparecer, como até o
presente, os mecanismos sociais que tem podido jogar como as formas de
repressão e constrangimento tem atuado; e então, a partir disto, penso que se
pode passar às pessoas a possibilidade de se determinar, de fazer, sabendo tudo
isso, a escolha de sua existência.
- Há cinco anos, se começou a ler, em seu seminário do Colégio
de França, Hayek e von Mises. Disse-se então: através de uma
reflexão sobre o liberalismo, Foucault vai nos dar um livro sobre a política. O
liberalismo parece também como um desvio para recuperar o indivíduo, além dos
mecanismos do poder. É conhecida sua oposição ao sujeito fenomenológico. Nesta
época, começou-se a falar de um sujeito de práticas, e a releitura foi feita em
torno desta ótica. Não é mistério para ninguém o que vem sendo dito a algum
tempo: não há sujeito na obra de Foucault. Os sujeitos são sempre sujeitados,
são pontos de aplicação de técnicas, de disciplinas normativas, mas não são
nunca sujeitos soberanos.
- É necessário fazer uma distinção. Em primeiro lugar, creio,
efetivamente, que não há um sujeito soberano, fundador, uma forma universal de
sujeito que se encontrar em qualquer lugar. Eu sou muito cético e muito hostil
para com esta concepção de sujeito. Penso, ao contrário, que o sujeito se
constitui por meio das práticas de assujeitamento, ou de uma maneira mais
autônoma, através das práticas de liberação, de liberdade, como na Antigüidade,
desde (bem entendido!) de um certo número de regras, estilos, convenções que se
encontra no meio cultural.
- Isso nos leva à política atual. Os tempos são difíceis: no
plano internacional, é a chantagem de Yalta e o afrontamento dos blocos. No
plano interno, é o espectro da crise. Em relação a tudo isso, parece que entre
a esquerda e a direita não há mais que uma diferença de estilo. Como se
determinar, então, em face desta realidade e de seus ditados, se ela está,
aparentemente, sem alternativa possível?
- Parece-me que sua questão é ao mesmo tempo correta e um pouco
estreita. Deveria ser decomposta em duas ordens de questões: em primeiro lugar,
se é necessário aceitar ou não aceitar? Em segundo lugar, se não se aceita, o
que se pode fazer? À primeira questão, deve-se responder sem qualquer
ambigüidade: não se pode aceitar nem os resíduos de guerra, nem uma certa
situação estratégica na Europa, nem o fato de que a metade da Europa está
escravizada.
Então se coloca a outra questão: "o que se pode fazer
contra um poder como este da União Soviética, em relação ao nosso governo e com
as pessoas que, dos dois lados da Cortina de Ferro, decidem questionar a
divisão tal qual está estabelecida?" Em relação com a União Soviética não
há muita coisa a se fazer, exceto ajudar o mais eficazmente possível aqueles
que lá lutam. Com relação às duas outras tarefas, temos muito a fazer, há muito
trabalho.
- Não é necessário assumir uma posição, por assim dizer,
hegeliana, que consista em aceitar a realidade tal qual ela é e como se nos
apresenta. Resta uma interrogação: "Existe uma verdade na política?"
- Eu creio por demais na verdade para não supor que existam
diferentes verdades e diferentes modos de dizê-la. Certamente, não podemos
exigir de um governo que ele diga a verdade, toda a verdade e só a verdade. Em
contrapartida, é possível exigir dos governantes uma certa verdade quanto aos
projetos finais, às escolhas gerais de sua tática, à um certo número de pontos
particulares de seu programa: é a parrhesia (a livre palavra) do
governado, que pode, que deve interpelar o governo sobre o que ele faz, sobre o
sentido de sua ação, sobre as decisões que ele toma, em nome do saber, da
experiência que ele tem, do fato de que ele seja um cidadão.
É preciso, contudo, evitar as armadilhas nas quais os governantes
querem fazer tombar os intelectuais e nas quais estes frequentemente caem:
"Coloquem-se em nosso lugar e digam o que fariam." Esta não é uma
questão à qual se tenha de responder. Tomar uma decisão sobre um assunto
qualquer implica um conhecimento das evidências que nos é negado, uma análise
da situação que não se tem a possibilidade de fazer. Esta é uma armadilha.
Permanece ainda, enquanto governados, perfeitamente o direito de perguntar
sobre a verdade*: "O que vocês têm feito, por exemplo, quando se
é hostil com os euro-mísseis, ou quando, ao contrário, os apoiam quando se
reestrutura a indústria do aço de Lorraine, ou quando abrem os arquivos da
educação pública?"
- Nesta descida aos infernos que é uma longa meditação, uma
longa busca – uma descida em que se tem de trilhar na busca de uma verdade –,
que tipo de leitor se busca encontrar? É um fato que, se se tem podido
encontrar bons autores, no entanto, há menos e menos bons leitores.
- Eu diria leitores. É verdade que não somos mais lidos. O
primeiro livro que se escreve é lido, porque não se é conhecido, por que não se
sabe quem somos e se lê na desordem e na confusão, o que para mim está muito
bem. Não há razão para que se elabore não somente o livro, mas também a leitura
do livro. A única lei é a de todas as leituras possíveis. Eu não vejo
inconvenientes maiores se um livro, enquanto lido, é lido de diferentes
maneiras. O que é grave, é que na medida em que são escritos os livros, não são
mais lidos de todo e, de deformação em deformação, lendo uns sobre os ombros
dos outros, se chega a dar ao livro uma imagem absolutamente grotesca.
Aqui se põe efetivamente um problema: deve-se entrar na polêmica
e responder a cada uma dessas deformações e, por conseqüência, fazer leis [de
leitura] aos leitores, o que me repugna; ou deixar, o que me repugna
igualmente, que o livro seja deformado até que ele venha a se tornar uma
caricatura de si mesmo?
Há uma solução: a única lei sobre a imprensa, a única lei sobre
o livro que eu gostaria de ver instaurada seria a proibição de utilizar duas
vezes o nome do autor, além do direito do anonimato e ao pseudônimo, de modo
que cada livro poderia ser lido por si mesmo. Há livros, para os quais o
conhecimento do autor é uma chave para a inteligibilidade. Mas, aparte de
qualquer grande autor, para a maior parte dos outros, este conhecimento não
serve rigorosamente para nada. Ele serve somente de barreira. Para qualquer um,
como eu, que não sou um grande autor, mas somente alguém que fabrica livros,
seria mais conveniente que os livros fossem lidos por eles mesmos com suas
imperfeições e qualidades eventuais.