Além das fronteiras da filosofia
– Na História da Loucura e em As
palavras e as coisas simplesmente me referi a eles, os mencionei de
passagem, como o andarilho que diz: “Bem... ao ver isto não podemos senão
falar de Le Neveu de Rameau”. Mas não conferi a eles nenhum papel na
organização de fato do processo.
Para mim, a literatura era algo a ser
observado e não analisado ou reduzido ou integrado ao campo da análise. Era um
descanso, um pensamento a caminho, uma marca, uma bandeira.
–
Não desejava que estes textos
expressassem ou refletissem os processos históricos?
– Não...
É preciso abordar à questão a partir de um outro nível.
Ninguém analisou realmente como, da massa de
idéias expressas, da totalidade do discurso real, a apenas alguns destes
discursos (filosóficos, literários) são conferidas uma sacralização e uma
função particular.
Pareceria que tradicionalmente os discursos
literários ou filosóficos poderiam funcionar como substitutos ou como um invólucro
geral de todos os outros discursos. A literatura deveria representar o restante.
Escreveu-se a história do que se dizia no séx. XVIII, passando por Fontenelle
ou Voltaire, ou Diderot ou La Nouvelle Heloïse, etc. Estes discursos
eram considerados como a expressão de algo que, definitivamente, não podia ser
formulado em um nível mais cotidiano.
A respeito disto, passei da proposição
esperada (mencionando a literatura quando fosse oportuno, sem indicar suas relações
com o restante) à francamente negativa, tratando de destacar como positivos
todos os discursos literários ou paralelos que se produziam efetivamente, em
uma certa etapa, excluindo à própria literatura. Em Vigiar e Punir me
refiro somente à má literatura.
–
Como se pode distinguir entre a boa e
a má literatura?
– Essa é a pergunta com a qual devemos nos
confrontar algum dia. Por um lado, teremos de perguntar o que, exatamente,
representa esta atividade que consiste em difundir ficção, poesia, contos...
em uma sociedade. Também devemos analisar um segundo fato: dentre todas as
narrativas, por que algumas delas são sacralizadas, postas a funcionar como
“literatura”? São imediatamente assimiladas por uma instituição, que
originariamente era bastante diferente: a instituição universitária. Agora
está começando a ser identificada com a instituição literária.
– Há uma curva muito visível em nossa
cultura. No séc. XIX, a universidade era o âmbito no qual se constituía a
chamada literatura clássica e era valorizada como a única base da literatura
contemporânea e como crítica desta mesma literatura. A partir daqui, se produz
uma curiosa ação recíproca no séc. XIX, entre a literatura e a universidade,
entre o professor e o escritor.
Então, pouco a pouco, as duas instituições
que, apesar de suas discórdias estavam profundamente vinculadas, tenderam a
fundir-se completamente. Sabemos perfeitamente bem que hoje a literatura de
vanguarda é lida somente pelos professores universitários e seus alunos.
Sabemos muito bem que hoje um professor com mais de trinta anos está rodeado de
alunos que estão escrevendo teses sobre seu trabalho. Sabemos que os escritores
vivem, principalmente, de ensinar e dar conferências.
Devido a isso, chegamos pelo menos à verdade
sobre algo: o fato de que a literatura funciona como tal através da interação,
da seleção, da sacralização e da convalidação institucional, da qual a
universidade é tanto promotora quanto receptora.
–
Existe alguma característica dentro
do texto, ou é apenas uma questão de sacralização pela instituição
universitária?
– Não
sei. Simplesmente queria dizer que para romper com muitos mitos, incluindo o do
caráter expressivo da literatura, foi muito importante formular o grande princípio
de que a literatura só se ocupa de si mesma. Quando se ocupa do autor, o faz
simplesmente a partir de sua morte, silêncio ou distanciamento do escritor.
Não interessa aqui tratar-se de Blanchot ou
Barthes. O ponto central é a importância do princípio: a intransitividade da
literatura. Este era, de fato, o primeiro passo pelo qual podíamos nos libertar
da idéia de que a literatura era o receptáculo de qualquer tipo de tráfico,
ou o ponto no qual todo o tráfico se deteria ou a expressão das totalidades.
Mas parece-me que esta é só uma etapa, já
que, mantendo a análise neste nível, não só se corre o risco de não
descobrir a totalidade das sacralizações das quais a literatura tem sido
objeto, mas também se corre o risco de sacralizá-la ainda mais. E isto é o
que, de fato, tem acontecido até 1970. Veremos como vários temas originados em
Blanchot ou Barthes foram usados como exaltações ultralíricas e
ultra-racionalistas da literatura, como estruturas lingüísticas capazes de ser
analisadas em si mesma e segundo seus próprios termos.
As derivações políticas estavam ausentes
desta exaltação. Até se chegou a dizer que a literatura por si mesma estava tão
emancipada de toda determinação que o ato mesmo de escrever era, por si,
subversivo; que o escritor, apenas pelo fato de escrever, tinha o direito
inalienável de subverter! O escritor era, portanto, um revolucionário, e
quanto mais escritura era a escritura, tanto mais se afundava na
intransitividade, mais alentava, por esse fato apenas, o movimento revolucionário!
Como se sabe, infelizmente se diziam essas coisas...
De fato, o enfoque de Blanchot e Barthes
tendia à dessacralização da literatura, rompendo os laços que a colocavam na
posição de expressão absoluta. Esta ruptura implicava que o seguinte
movimento seria a dessacralização absoluta, tratando de determinar como, na
massa global do que se dizia, era possível que essa região particular da
linguagem se constituíra, em um momento dado e de uma maneira particular. Não
se deve pretender que a literatura tome as decisões de uma cultura, mas, pelo
contrário, se deve analisar por que uma cultura decidiu dar-lhe esta posição
tão especial e paradoxal.
–
Por que paradoxal?
–
Nossa
cultura confere à literatura um lugar que em certo sentido é
extraordinariamente limitado: quantas pessoas lêem literatura? Que lugar tem
realmente no desenvolvimento geral dos discursos?
Porém, esta mesma cultura obriga a suas
crianças, na medida que se aproximam da cultura, a passar por toda uma
ideologia da literatura durante seus estudos. Há uma espécie de paradoxo
nisso; o qual se relaciona com a declaração de que a literatura é subversiva.
O fato de que alguém afirme que é assim, nesta ou naquela crítica literária,
não tem importância, não tem consequências. Mas se ao mesmo tempo, toda a
profissão docente, desde a escola primária até os chefes de departamentos
universitários diz – explicitamente ou não – que para encontrar as grandes
decisões da cultura, os pontos de flexão, se deve apelar para Diderot ou Sade,
Hegel ou Rabelais, pois se as encontraria
ali. Neste nível se dá um efeito de mútua
colaboração. Os chamados grupos de vanguarda e a grande quantidade de
professores universitários estão de acordo. Isto levou a um sério bloqueio
político.
–
Como você tem escapado a este
bloqueio?
– Meu modo de abordar o problema foi
evidenciado, primeiro, no meu livro sobre Raymond Roussel e depois no livro
sobre Pierre Rivière. Em ambos se coloca a mesma questão: “qual é o limite
além do qual um discurso (quer seja o do doente, do criminoso, etc.) começa a
funcionar no campo conhecido como literatura?
Para compreender o que é a literatura, você
não quis estudar as estruturas literárias internas. Você preferiria apreender
o movimento, o frágil processo pelo qual um discurso não literário,
subestimado, esquecido, tão logo como se produz, ingressa no campo literário.
O que acontece? Que mecanismo se desencadeia? De que modo se modifica a intenção
original deste discurso, pelo fato de que é reconhecido como literário?
– Contudo, dedicou-se textos a trabalhos
literários sobre os quais não se faz essa pergunta. Refiro-me em particular
aos artigos publicados em Critique sobre Blanchot, Klossowski e Bataille. Se
fossem reunidos em um único volume, ofereceriam uma imagem sobre este itinerário
muito diferente do que estamos acostumados.
– Sim, mas... seria bastante difícil falar
sobre eles. Realmente Blanchot, Klossowski e Bataille - que foram finalmente os
três autores que me interessaram particularmente nos anos sessenta - eram para
mim muito mais que trabalhos literários dentro da literatura. Eram discursos
fora da filosofia.
–
E o que isso significa?
–
Tomemos
a Nietzsche, se você quer. Em relação ao discurso filosófico acadêmico, que
constantemente o fez voltar para si mesmo, Nietzsche representa os limites
exterior. Certamente, em Nietzsche se pode encontrar toda uma linha de
pensamento ocidental. Platão, Spinoza, os filósofos do séc. XVIII, Hegel...
tudo passa através de Nietzsche. E, contudo, em relação à filosofia, tem
toda a aspereza, a rusticidade do forasteiro, do camponês das montanhas, que
lhe permite, dando de ombros, e sem parecer nada ridículo, dizer, com uma
firmeza que não pode ser ignorada: “Ora vamos... tudo isso é lixo...”
Liberar-se a si mesmo da filosofia implica
necessariamente uma similar falta de consideração. Não se pode sair dela
fincando-se dentro dela, refinando-a tanto quanto possível, dando voltas ao
redor dela com o próprio discurso. Não. Consegue-se isso, opondo-se a ela, com
uma espécie de espanto e alegria, uma espécie de incompreensível crise de
riso que no final se torna entendimento, ou que em todo caso, destrói. Sim,
destrói antes de levar ao entendimento.
Somente na medida em que eu era, sobretudo,
um acadêmico, um professor de filosofia, perturbava-me o que ficava do discurso
filosófico tradicional no trabalho que eu realizei sobre a loucura. Há um
certo hegelianismo que sobrevive ali. Não é necessariamente suficiente para
escapar da filosofia tratar com fatos tão baixos como informes policiais,
medidas para o confinamento, gritos de loucos. Para mim, Nietzsche, Blanchot,
Klossowski eram meios para escapar da filosofia.
Na violência de Bataille, na doçura agitada, insidiosa de Blanchot, nas espirais de Klossowski, havia algo que, enquanto se afastava da filosofia, colocava-a em jogo, emergia dela, para logo regressar... Ago da teoria da respiração de Klossowski está ligado, por não sei quantas fibras, a toda a filosofia ocidental. E por toda a apresentação, formulação, o modo que funciona em Le Baphometh, emerge completamente dela.
Estas entradas e saídas através da parede mesma da filosofia, ironicamente, fizeram permeáveis as fronteiras entre o filosófico e o não filosófico.