Gabriella Ribeiro Ramos

Orientador: Marcelo Hermes-Lima

 “Estresse Oxidativo e Hipometabolismo em Gastrópodes Helix aspersa maxima”.

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Resumo

            Durante a transição entre períodos de anóxia/hipóxia e reoxigenação ocorre aumento da pressão de oxigênio celular, levando a uma maior geração de espécies reativas de oxigênio (EROs) e estresse oxidativo (Gonzalez-Flecha e Demple, J. Biol Chem, 270: 13681, 1995). Durante condições de hipometabolismo, como na estivação do gastrópode terrestre Otala lactea, ocorre hipóxia nos órgãos internos, seguido por um aumento na peroxidação lipídica quando a taxa metabólica retorna ao normal (Hermes-Lima e Storey, Am. J. Physiol., 268: R1386, 1995).

Neste trabalho, estudou-se o sistema de defesa antioxidante enzimático (seis enzimas antioxidantes) e não enzimático (glutationa reduzida - GSH e glutationa oxidada - GSSG) em gastrópodes Helix aspersa maxima durante um período de 20 dias em estivação, 24 horas ativo (após a estivação) e a transição entre estas duas condições, no período do despertar. Foram ainda determinados os indicadores de estresse oxidativo: razão GSSG/GSHeq (GSHeq = GSH + 2 GSSG), proteínas oxidadas (quantificação de proteínas carboniladas) e peroxidação lipídica pelo método clássico do TBARS e pela técnica de lipoperóxidos reativos com o complexo alaranjado de xilenol-Fe(II). Os animais foram estudados em duas épocas do ano diferente e analisou-se dois órgãos, hepatopâncreas e o músculo do pé.

No período de janeiro/março, o hepatopâncreas do animal em estivação apresentou uma redução na atividade das enzimas catalase e superóxido dismutase (SOD) de 32% e 39%, respectivamente, enquanto a atividade da glutationa peroxidase (GPx) subiu 268%. As atividades de glutationa redutase, glutationa S-transferase e glicose-6-fosfato desidrogenase mantiveram-se inalteradas, assim como os níveis de TBARS. No pé, nenhuma variação entre atividades enzimáticas ou níveis de TBARS foi encontrada.

            Durante o mês de junho, a atividade de GPx aumentou 387% no hepatopâncreas e 199% no pé durante a estivação. As outras enzimas mantiveram-se com atividades constantes em ambos os órgãos. A concentração de glutationa total (GSH-eq) aumentou 82% no hepatopâncreas durante a estivação. Foram detectados ainda aumentos de peroxidação lipídica (TBARS: 83%; lipoperóxidos: 361%) no hepatopâncreas e de proteínas carboniladas (56%) no pé de animais em estivação. Pôde-se observar ainda, aumento dos níveis de TBARS e da razão GSSG/GSHeq no hepatopâncreas, com 15-30 minutos do processo de despertar da estivação. Isto indicou a ocorrência de estresse oxidativo na transição hipometabolismo-metabolismo normal no mês de junho.

            Em estudos preliminares de biologia molecular, clonamos e sequenciamos, a partir do hepatopâncreas, um fragmento de 720bp que apresentou homologia de 60 à 67% com outras seqüências de catalase já descritas. O fragmento obtido deve corresponder a cerca de 40-45% da seqüência total.

            Os resultados mostraram que, em junho, H. aspersa passa por um estresse oxidativo durante a transição hipometabolismo-metabolismo normal e que para minimizar os danos oxidativos nestas condições, o animal modifica a atividade de seu sistema de defesa antioxidante endógeno. No período de janeiro/março, os resultados também mostram que ocorre uma modulação nas atividades de enzimas antioxidantes de H. aspersa,  podendo servir para inibir processos oxidativos deletérios durante o despertar. Analisando os resultados como um todo, propomos que o caramujo utilize o mecanismo de “preparo para o estresse oxidativo” durante a estivação (Hermes-Lima et al. Comp. Biochem. Physiol. 120B: 437, 1998) como forma de controlar os efeitos deletérios de EROs formadas no processo de transição hipometabolismo-metabolismo normal. Outros animais, dentre eles rãs, cobras e peixes, também adotam esta estratégia para sobreviverem a condições de hipóxia/anóxia, seguido por reoxigenação.

            Ainda não conhecemos as bases moleculares que modulam a atividade do sistema de defesa antioxidante, mas devem envolver EROs como segundos mensageiros e um sistema sensor de oxigênio e/ou estado redox intracelular.

 

 

Abstract

            During the transition from a period of anoxia/hypoxia to reoxygenation there is an increase in intracellular oxygen tension, leading to a major production of oxygen reactive oxygen species and oxidative stress (Gonzalez-Flecha and Demple, J.Biol.Chem, 270: 13681, 1995). During hypometabolic conditions, such as estivation of terrestrial gastropods, internal organs become hypoxic. Moreover, Hermes-Lima and Storey (Am. J. Physiol., 268: R1386, 1995) detected an increase in lipid peroxidation in land snails Otala lactea during the transition from hypometabolism to active metabolism.

            Throughout this dissertation, we studied the enzymatic and non-enzymatic antioxidant defense system (reduced and oxidized glutathione, GSH and GSSG, and six antioxidant enzymes) of the terrestrial gastropod Helix aspersa maxima after 20 days of estivation, 24 h in active metabolism (after estivation) and during arousal (the transition from hypometabolism to active metabolism). Some oxidative stress indicators were also determinated: ratio of GSSG/GSHeq (GSHeq = GSH + 2 GSSG), oxidized proteins (carbonyl protein determination) and lipid peroxidation by the classic method of TBARS and the technique of reactive lipoperoxides with Fe(II)-xylenol orange complex. The study was performed in two distinctive periods of the year and two organs were analyzed (hepatopancreas and foot muscle).

            During January-March the activity of the enzymes catalase and superoxide dismutase (SOD) decreased by 32% and 39%, respectively, after 20 days of estivation. Glutathione peroxidase (GPx) activity from hepatopancreas also increased by 268% during estivation. In addition, the activities of glutathione reductase, glutathione S-transferase and glucose-6-phosphate were unaffected. In foot muscle, no changes were observed in the enzymatic activities and the levels of TBARS.

            During June the activity of GPx activity increased by 387% in hepatopancreas and 199% in foot muscle after 20 days of estivation. The other enzyme activities were unchanged in both organs. The concentration of total glutathione (GSHeq) in hepatopancreas was increased by 82% during estivation. We also observed relevant increases in lipid peroxidation (TBARS: 83%; lipoperoxides: 361%) in hepatopancreas and in carbonyl proteins (by 56%) in  foot muscle of estivating animals. Moreover, during 15–30 minutes of arousing process, a significant increase in the levels of TBARS and GSSG/GSH-eq ratio from hepatopancreas was noticed.

            On preliminary studies of molecular biology, we cloned and sequenced a 720bp fragment from hepatopancreas catalase, which corresponds to 40-45% of the entire sequence. This fragment exhibited a 60–67 % homology to other already described catalase genes.

            Our results suggested that H. aspersa undergoes physiological oxidative stress during the transition from hypometabolism to active metabolism in June. In these conditions, the animal modulates its antioxidant defensive system to minimize oxidative injuries. In the January-March period, the results suggest that the modulation of enzymatic antioxidant activities of H. aspersa are possibly used to inhibit oxidative processes during arousal. We propose that these H. aspersa have a physiological mechanism of "preparation against oxidative stress” during estivation, as proposed by Hermes-Lima et al. for other non-mammalian species during wild transitions of oxygen concentrations and metabolic activities (Comp. Biochem. Physiol. 120B: 437, 1998). This biochemical mechanism may control the harmful effects of reactive oxygen species produced during arousal in H. aspersa.

            Although we do not know the molecular bases that modulate the changes in the endogenous antioxidant system during estivation, it might involve reactive oxygen species as second messengers and sensors of oxygen tension and/or intracellular redox state.