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CATÁLOGO DE TESES DO DOUTORADO  2008

Número: 01  
Título: "O Mundo dos Espíritos: estudo etnográfico dos ritos de cura Marúbo"  
Autor: Delvair Montagner Melatti  
Ano: 1985  
Nível e número de páginas: Doutorado - 601 p.  
Orientador: Prof. Peter L. Silverwood-Cope  
Linha de Pesquisa: Etnologia Indígena  

RESUMO 
Este trabalho constitui uma descrição e análise dos ritos de cura dos Marúbo, índios Pâno do sudoeste do Estado do Amazonas. Estes ritos se apresentam de diversos modos conforme seus objetivos. Como as doenças são consideradas de origem sobrenatural, são combatidas por agentes de cura (xamã e curador) que manipulam diferentes espíritos ou elementos benéficos para as eliminarem do corpo do enfermo. Tanto os espíritos que causam as doenças como aqueles que as expulsam, ocupam lugares determinados do cosmo. Por isso, os curadores, ao entoarem os cânticos de cura, mencionam a procedência da doença e convocam espíritos que possuem certas qualidade para combatê-la e para revigorarem o corpo do enfermo. O xamã em transe efetua a cura de outro modo, extraindo o objeto patógeno do local afetado pela doença. Ao lado desta terapêutica mágica há o uso de remédios do mato, havendo um tipo específico para cada caso patológico/psicológico.  

Número: 02  
Título: "É A FUNAI que Sabe: a frente de atração Waimiri-Atroari"  
Autor: Stephen Grant Baines  
Ano: 1988  
Nível e número de páginas: Doutorado - 629 p.  
Orientador: Prof. Julio Cezar Melatti  
Linha de Pesquisa: Relações Interétnicas  

RESUMO 
Esta tese trata de um tema pouco abordado nos trabalhos sobre o contato interétnico - uma frente de atração da FUNAI. Partindo da presença do pesquisador na situação de contato, procura-se mostrar como a sua presença influenciava fundamentalmente o comportamento dos outros agentes sociais. Trata-se da manipulação de identidades étnicas através de discursos contraditórios e a sua contextualização na luta pelo poder entre os funcionários da frente de atração. Usando a noção de "instituição total" de Goffman, salienta-se como a frente de atração agia como um aparelho de ressocialização dos Waimiri-Atroari como "índios", "civilizados" e "caboclos".  

Número: 03  
Título: "Colonos e Sitiantes: um estudo comparativo do parentesco e da reprodução social camponesa"  
Autor: Ellen Fensterseifer Woortmann  
Ano: 1988  
Nível e número de páginas: Doutorado - 379 p.  
Orientador: Profa. Mireya Suárez de Soares Prof. Roque de Barros Laraia (Co-orientador)  
Linha de Pesquisa: Antropologia do Campesinato  

RESUMO 
A tese analisa, pela comparação entre duas formações camponesas - sitiantes nordestinos e colonos teuto-brasileiros do Rio Grande do Sul - o significado do parentesco como prática de reprodução social. Descendência, casamento, compadrio e nominação são considerados como constituindo, em seu conjunto, um sistema articulado. O estudo do parentesco é colocado em perspectiva histórica, enfatizando-se a memória mítico-histórica dos grupos estudados. Destaca-se, por outro lado, o papel da mulher nesses grupos, particularmente sua situação quanto a herança.  

Número: 04  
Título: "A Ciência Sob o Olhar Etnográfico: Estudo da Antropologia Argentina"  
Autor: Leonardo Hipólito Genaro Fígoli  
Ano: 1990  
Nível e número de páginas: Doutorado - 415 p.  
Orientador: Prof. Roberto Cardoso de Oliveira  
Linha de Pesquisa: Antropologia do Pensamento Social  

RESUMO 
Trata-se de um estudo dirigido à compreensão do singular processo de constituição e desenvolvimento da Antropologia na Argentina, enquanto disciplina científica e acadêmica, a luz da Etnografia da Ciência. Num empreendimento etnográfico multiplo - histórico, sociológico e interpretativo - examina-se o pensamento antropológico argentino na~o somente como produção intelectual mas como um fenômeno de cultura. Dessa perspectiva, submete-se a exame a tradição antropológica argentina, do período conhecido como Organização Nacional (1852) até a metade de nosso século (1955), buscando-se, de um lado, determinar, nos níveis macro e micro-políticos a conjugação de eventos que condicionaram e intervieram no surgimento e posterior desenvolvimento dessa tradição científica de outro, procura-se situar a Emergência, Consolidação e Renovação da Antropologia na Argentina, no contexto dos processos integrativos de "construção da nação" (nation building). Cada período do pensamento antropológico argentino é analisado através de uma caracterização do quadro sócio-histórico correspondente, do estado do campo intelectual e científico e das correntes ideológicas predominantes em cada época. Nesse contexto, passa-se ao estudo do discurso disciplinar considerando-se tanto as instituiç´es nas quais se reproduz como saber, quanto as trajetórias biográficas e científicas dos principais cientistas que atuaram na especialidade. Sobre essa malha, detectam-se as conexões que essa "subcultura científica" apresenta com os processos integrativos territoriais, sociais e ideológicos, que intervem na "construção da nação". Conduzida pelo "olhar etnográfico", completa-se a tarefa compreensiva deste estudo com uma antropologia da Antropologia Argentina. Num exercício experimental que traz a noção de cultura para o interior da análise dos saberes disciplinados, identificam-se os "herois civilizadores", a delimitação das fronteiras da "comunidade científica" e os "processos aculturativos" dessa particular "tradição científica". O forte compromisso do pensamento antropológico argentino com a "construção da nação" revela-se, neste trabalho, um parâmetro fundamental para compreender sua especificidade discursiva, tanto no período de sua Emergência como disciplina científica no fim do século passado, quanto na sua Consolidação no início da centúria, e, igualmente, mostra-se um fator decisivo na Renovação pela qual atravessa a disciplina no segundo quarto do século.  

Número: 05  
Título: "Em Dois Meios, em Dois Mundos: a experiência pesqueira marítima"  
Autor: Simone Carneiro Maldonado  
Ano: 1991  
Nível e número de páginas: Doutorado - 204 p.  
Orientador: Prof. Gustavo Lins Ribeiro  
Linha de Pesquisa: Pescadores  

RESUMO 
Este é um trabalho sobre a percepção e a organização do espaço marítimo e social entre pescadores simples. A partir da condição de patrimônio comum da humanidade que caracteriza o mar, analiso os mecanismos de divisão e de apropriação não só viáveis como necessários à produção pesqueira. Sem ferir os princípios de usufruto definidos pelo Direito Internacional, os pescadores simples delimitam, classificam e dividem o mar com finalidades de usufruto e de produção. No caso desta tese, a unidade terra-mar que eles realizam nesse movimento está expressa em três instâncias do social: o bote, a marcação e a mestrança. Práticas sociais universais à pesca marítima, nelas se expressam noções de espaço, de hierarquia e de familiaridade, no que a antropologia já considera a cultura pesqueira marítima.  

Número: 06  
Título: "O Jogo do Bicho: A Saga de um fato social brasileiro numa abordagem antropológica"  
Autor: Simone Simões Ferreira Soares  
Ano: 1992  
Nível e número de páginas: Doutorado - 307 p.  
Orientador: Prof. José Jorge de Carvalho  
Linha de Pesquisa: Cultura Popular, Arte, Religião e Literatura  

RESUMO 
Este trabalho objetiva analisar o jogo do bicho como um fato social brasileiro, onde se imbricam dialeticamente os aspectos econômicos, sociais, políticos, culturais, folclóricos, morais, religiosos, jurídicos e oníricos, mostrando seu enraizamento profundo na cultura brasileira e no cotidiano do aficionado no jogo. Tenta mostrar a dubiedade de sua existência: ser considerado uma contravenção penal em um país onde existem várias outras modalidades congêneres de jogo, como Loteria Federal, Loterias Estaduais, Loteria Esportiva, Loto, Sena, Raspadinha todas sob a égide do governo. A pesquisa envolveu o mundo dos bicheiros, mundo dos cambistas e jogadores nas cidades de Fortaleza, Rio de Janeiro e Brasília. O mundo onírico com o imaginário e o simbolismo a ele inerente é de importância crucial para se obter um palpite para uma aposta.  

Número: 07  
Título: "O Psíquico e o Simbólico: contribuições para uma abordagem junguiana da cultura".  
Autor: Lais Mourão Sá Tavares de Oliveira  
Ano: 1992  
Nível e número de páginas: Doutorado -  
Orientador: Prof. Luís Roberto Cardoso de Oliveira  
Linha de Pesquisa: Antropologia do Pensamento Social  

RESUMO 
A proposta deste estudo é explorar algumas possibilidades de articulação teórica entre as disciplinas da Antropologia e da Psicologia, a partir do pensamento de E.E. Evans-Pritchard (1904-1974) e de Carl Gustav Jung (1875-1961). Adotando uma abordagem essencialmente antropológica, a pesquisa aqui realizada baseia-se numa concepção interdisciplinar da Cultura, vista enquanto fenômeno psico-simbólico, isto é, que resulta da relação dialógica entre os mundos subjetivo e objetivo da experiência humana. Esta relação vista enquanto mediada pela linguagem, definida esta como capacidade comunicativa humana, que constrói universos simbólicos com a energia psíquica. Para a interpretação etnográfica dos autores selecionados adotou-se o enfoque hermenêutico, que parte da definição de um horizonte de questões no presente histórico da pesquisa, o qual serve de eixo referencial para a leitura dos textos. Não existe, assim, qualquer intenção descritiva ou resenhista das obras consideradas, nem a pretensão de dar conta da totalidade do pensamento dos autores. O trabalho consistiu em três etapas. A primeira consistiu na delimitação histórica das pré-condições teóricas do campo interdisciplinar considerado (cap. I). A segunda incluiu a interpretação direta de uma seleção de obras de ambos os autores acima citados, buscando-se identificar a forma pela qual cada um construiu sua visão de dimensão psico-simbólica, nos processos históricos de criação, reprodução e transformação das identidades pessoais e coletivas (caps. II e III). E a terceira apresenta os pressupostos básicos para uma teoria antropológica-junguiana da cultura (cap. IV).  

Número: 08  
Título: "O Mundo Transformado: Um Estudo da 'Cultura de Fronteira' no Alto Rio Negro".  
Autor: Ana Gita de Oliveira  
Ano: 1992  
Nível e número de páginas: Doutorado - 286 p.  
Orientador: Prof. Gustavo Lins Ribeiro  
Linha de Pesquisa: Relações Interétnicas  

RESUMO 
Trata-se de uma reflexão sobre a "cultura de fronteira", no Alto Rio Negro, Amazônia brasileira. O estudo tem por objetivos: 1) apontar para as transformações sócio-culturais do segmento indígena frente às tensões que a situação de contato interétnico acarretou; 2) identificar fatores ligados à geopolítica de fronteiras nacionais no que diz respeito à formação de um campo hegemônico específico; 3) explicitar a "estrutura de segmentação étnica" intensificada na região, a partir da implantação dos projetos desenvolvimentistas, tais como a construção da rodovia 307 (Perimetral Norte), da instalação de uma rede de comunicação e da implantação do projeto Calha Norte.  

Número: 09  
Título: "O Tecido do Tempo: a Idéia de Patrimônio Cultural no Brasil - 1920/1970"  
Autor: Mariza Veloso Motta Santos  
Ano: 1992  
Nível e número de páginas: Doutorado - 524 p.  
Orientador: Prof. Roberto Cardoso de Oliveira  
Linha de Pesquisa: Antropologia do Pensamento Social  

RESUMO 
O trabalho analisa o surgimento da idéia de patrimônio e das práticas sociais consolidadas a partir desta idéia, no período compreendido entre 1920 e 1970. A pesquisa evidencia a presença de um grupo modernista, principal articulador da trama discursiva construída em torno das idéias de patrimônio e nação. Os personagens principais desse grupo foram: Rodrigo Melo Franco de Andrade, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Sérgio Buarque de Holanda, Gustavo Capanema, Lúcio Costa, Alcides da Rocha Miranda, Luis Saia, Pedro Nava, dentre outros. A questão do patrimônio é tratada como idéia-força que ordena e estrutura uma matriz discursiva voltada ao passado e que engloba concepções sobre a história, o tempo, a estética, a memória, o espaço público e primordialmente, sobre a nação brasileira. O grupo considerado direciona suas preocupações para a construção do conceito de cultura brasileira, o que se desdobra na problematização das idéias de passado e futuro. Esse mesmo grupo institucionaliza em 1937, o SPHAN - Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -, entidade governamental, ligada à preservação dos bens culturais móveis e imóveis existentes no país. Redescobre o barroco - apropria-se de suas ruínas ao atribuir um significado ao passado e ao inventar um futuro -, e constrói a idéia de que são as suas manifestações estéticas e históricas que constituem a origem da cultura brasileira, criando, assim, uma teoria da temporalidade para a nação que se acreditava nascente. O trabalho busca, ainda, aprofundar o conhecimento em torno da atuação de dois personagens carismáticos e exemplares do grupo: Rodrigo Melo Franco de Andrade e Mário de Andrade, principais responsáveis pela institucionalização da idéia de patrimônio no Brasil. Analisa, por fim, a criação da "Academia SPHAN" e o exercício de sua prática institucional, através de documentos sobre rotinas e procedimentos adotados naquele período. Fundamentado na teoria antropológica, em particular, e nas ciências humanas, de modo mais amplo, o trabalho busca articular permanentemente pesquisa empírica e reflexão teórica.  

Número: 10  
Título: "A Gestão do Amor: Domesticação e Disciplina"  
Autor: Josefina Lucia Pimenta Lobato de Mello  
Ano: 1994  
Nível e número de páginas: Doutorado - 274 p.  
Orientador: Profa. Rita Laura Segato  
Linha de Pesquisa: Construção do Gênero  

RESUMO 
Neste trabalho toma-se como campo de investigação os discursos amorosos produzidos, por um lado, em sociedades nas quais os valores holistas são dominantes e, por outro, em sociedades fundamentais em valore individualistas. A fim e evidenciar a especificidade própria ao modo pelo qual o amor é pensado nesses dois tipos de sociedade, foram elaborados dois conceitos: o de amor disciplinado e o de amor domesticado. Por meio deles, busca-se ultrapassar tanto a posição particularistas, que defende o caráter excepcional da concepção de amor peculiar ao mundo ocidental mas vê apenas um vazio onde há experiências amorosas inegáveis, quanto a adotada pelos adeptos da posição universalistas que vêem em toda a parte a mesma espécie de amor.  

Número: 11  
Título: "Comunidad de Memoria: Memoria Metafórica de Una localidad en el Sertão brasileño"  
Autor: Manuel de Jesus Chávez Borjas  
Ano: 1995  
Nível e número de páginas: Doutorado - 280 p.  
Orientador: Profª. Ellen F. Woortmann  
Linha de Pesquisa: Campesinato  

RESUMO 
Comunidade de memória é um conceito proposto para atualizar a categoria "memória coletiva" de Halbwachs. Comunidade de memória opera nos grupos humanos cujos indivíduos se conectam entre si e geram uma rede referencial; espacial e temporal, onde compartilham, como um todo o repertório de experiências acumuladas, através de múltiplos meios. Seus membros adscrevem-se nesse todo através de um interjogo que lhes permite individualizar-se dinamicamente, abrindo a comunidade de memória a um processo de construção de intrageração e intergeração. Na presente tese a comunidade de memória estudada pertence a uma localidade do sertão no sudeste do Estado de Tocantins. Ali viveram no começo do século XX uma experiência dolorosa provocada por uma espécie de "feud" entre famílias do Estado de Goiás. A violência prolongada por longos anos desestruturou a localidade em todos os níveis da vida social. Depois de muitos anos de abandono, persecução, refúgio no nordeste baiano... as famílias foram retornando até se reorganizar a comunidade social e culturalmente. Este complicado processo tem sido sintetizado pelos atores como o "barulho" e "massacre dos nove" para referir-se, consecutivamente, a todo o processo de conflito e aos assassinados. Assim, construíram uma comunidade de memória baseada numa lógica metafórica que lhes permitiu sobrepôr-se aos estigmas da violência e gerar um processo no que tentaram redefinir todas as coisas: o espaço físico do povoado, as alianças políticas, os núcleos familiares, o nome do lugar... e sobretudo, ante as pressões da modernidade; redefiniram sua memória gerando uma projeção do passado que lhes permite adaptar-se as novas circunstâncias da vida social brasileira mantendo a hegemonia na localidade.  

Número: 12  
Título: "Os Caçadores da Barba-de-Ouro: Mudança e Continuidade na Sociedade Pesqueira"  
Autor: Marcia Maria Gramkow  
Ano: 1996  
Nível e número de páginas: Doutorado - 220 p.  
Orientador: Profª. Mireya Suárez de Soares  
Linha de Pesquisa: Pescadores  

RESUMO 
A presente tese aborda a transformação das comunidades pesqueiras de Barreiras, de Rio do Fogo, de Barra e de Pontal, situadas no litoral nordestino e no sudeste brasileiro, tanto no que se refere à ação prática da pescaria como também ao fenômeno da mudança cultural. Focaliza o processo de mudança/continuidade ao longo das últimas quatro décadas nas comunidades pesqueiras, a partir do fato etnográfico da pescaria da lagosta. A autora parte do pressuposto de que a prática pesqueira da lagosta, mudança externamente induzida na década de cinqüenta nas comunidades pesqueiras, é nativamente orquestrada pelo habitus - transformação e reprodução - orientador da pesca tradicional. Orientada pela idéia de Sahlins e de Bourdieu nos estudos de reprodução e transformação social - de que a cultura ao longo do processo é reordenada através a abordagem do habitus e a ordem em redefinição via práxis - procede a reflexão sobre mudança na continuidade e a leitura do processo de incorporação da prática da pesca da lagosta no universo da prática da pesca do peixe. Essas referências possibilitaram ver que a pescaria da lagosta, acontecimento de encontro assumido pelas comunidades da pescaria do peixe, promove atualizações do passado nas práticas realizadas no presente da lagosta.  

Número: 13  
Título: "O Chão É O Limite: A Festa do Peão Boiadeiro e a Domesticação do Sertão"  
Autor: Sidney Valadares Pimentel  
Ano: 1996  
Nível e número de páginas: Doutorado - 301 p.  
Orientador: Profª. Mireya Suárez de Soares  
Linha de Pesquisa: Cultura Popular, Arte, Religião e Literatura  

RESUMO 
Este trabalho analisa a Festa do Peão de Boiadeiro que foi criada na cidade paulista de barretos e disseminada para uma ampla região dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Paraná. A Festa do Peão é organizada como uma espécie de festival e todas as atividades de que se compõe giram em torno de rodeios nos quais os peões competem entre si montando em touros e cavalos. A pesquisa de campo foi feita na cidade mineira de Pirajuba, que fica próxima da divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo e evidenciou a existência de uma complexa trama de discursos voltados para a reconstrução da categoria "sertão" como uma noção sempre recorrente na cultura brasileira. Mostrou ainda a pesquisa a importância da noção de tradição para todos estes discursos, razão pela qual tanto a religiosidade popular quanto a idéia de autenticidade das culturas caipira e sertaneja aí exercem grande importância. O trabalho buscou, ainda, compreender as festas do peão como parte do registro popular de um amplo movimento cultural que, desde a década de 1930, tem procurado resignificar a categoria sertão no Brasil. Por fim, o trabalho buscou articular permanentemente pesquisa empírica e reflexão teórica, fundamentando-se particularmente na teoria antropológica e, de modo mais geral, nas ciências humanas.  

Número: 14  
Título: A Honra da Política: "Decoro Parlamentar" e perda de mandato no Congresso (1949-1994)  
Autor: Carla Costa Teixeira  
Ano: 1997  
Nível e número de páginas: Doutorado - p.  
Orientador: Profª. Mariza Gomes e S. Peirano  
Linha de Pesquisa: Identidade, Individualismo e Cidadania  

RESUMO 
Esta tese investiga a figura constitucional do "decoro parlamentar" em sete processos legislativos de perda de mandato na Câmara dos Deputados (de 1949-1994), na perspectiva de uma antropologia da política com inspiração nos escritos de Max Weber. A análise desses eventos recoloca a discussão da noção de "votação" dos políticos e da política, a partir da compreensão da honra como seu valor distintivo.  

Número: 15  
Título: "Mercado Exemplar: um estudo antropológico sobre a bolsa de valores"  
Autor: Lucia Helena Alves Müller  
Ano: 1997 Nível e número de página: Doutorado - p.  
Orientador: Prof. Luís Roberto Cardoso de Oliveira  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
Trata-se de um estudo antropológico sobre a bolsa de valores mobiliário, tomada como instituição exemplar das relações de mercado capitalistas, tendo como objetivo a análise dos pressupostos culturais que orientam as concepções e práticas das relações de mercado em nossa sociedade. Este estudo baseou-se em uma etnografia realizada junto à Bolsa de Valores de São Paulo, Brasil, e a diversas instituições financeiras que participam deste mercado, com ênfase nas práticas levadas a cabo no interior dessas instituições, e nas representações que são compartilhadas por seus participantes.  

Número: 16  
Título: "A Cena Analítica na Sociedade Contemporânea"  
Autor: Ondina Pena Pereira  
Ano: 1997 Nível e número de página: Doutorado - p.  
Orientador: Profa. Rita Laura Segato  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
Uma reflexão sobre a cena analítica a partir da perspectiva dos analisandos, isto é, a partir das teorias que estes constroem sobre esse espaço/tempo onde encontram um outro íntimo/estranho a quem falam. Nessas teorias, constata-se o desenvolvimento de uma queixa que vai além de uma simples demanda de cura dos sofrimentos pessoais para atingir o desencantamento do mundo atual, que se revela na sua miséria simbólica. Assim, características do mundo atual, por um lado, e da cena analítica, por outro, contrapõem-se em dimensões como a do tempo, da linguagem, da interlocução, do valor, do dinheiro, fazendo da cena analítica uma espécie de potlatch contemporâneo, que nos afasta da dimensão econômica das negociações e nos introduz no dispêndio luxuoso das trocas simbólicas.  

Número: 17  
Título: “ Pioneiros da Marcha para o Oeste: Memória e Identidade na Fronteira do Médio Araguaia”  
Autor: Manuel Ferreira Lima Filho  
Ano: 1998 Nível e número de página: Doutorado - 265 p.  
Orientador: Ellen F.Woortmann  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
No presente estudo, apresento uma interpretação da Marcha para o Oeste do ponto de vista dos que participaram da Expedição Roncador-Xingu (1943), bem como daqueles que foram funcionários da Fundação Brasil Central (1943-1967) e da Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste, Sudeco (1967-1990). Os atos dessas instituições tiveram como ponto de partida a política do Estado Novo presidida por Getúlio Vargas e reeditada depois, por Jus celino Kubistchek por intermédio de uma ideologia fortemente impregnada de sentidos de construção da nação. Como resultado desta investida no Centro-Oeste do Brasil, foram fundadas inúmeras cidades como Aragarças (GO) e Xavantina (MT), além da constituição de uma malha aérea regional e inúmeras rodovias que interluigaram a Amazônia ao resto do País, alçém do conhecimento hidrográfico dos rios da bacia do Araguaia, Xingu e Tapajós. Porém, o objetivo do trabalho foi ouvir os homens que, de fato, Marcharam para o Oeste relacionados com o Médio Araguaia, que se faz representar, na etnografia, pelo trecho compreendido entre as cidades de Aragarças(GO) e Luciara (MT). Desta maneira, munido com dados etnográficos, busco produzir conhecimento novo sobre o tema. Esses homens introjetaram o discurso do Estado Novo como o da saga de construção da nação brasileira. Eles se viram bandeirantes modernos a consquistar, de forma definitiva, o que se chamava na época de “espaços vazios” e plantar a civilização e amodernidade. Dentre os atos heróicos compartilhados por eles estão a construção de Aragarças, um forte símbolo regional da Marcha para o Oeste no período de Vargas e a do Hotel Turismo JK na época de Juscelino, na ilha do Bananal. De bandeirantes, esses homens se tornaram funcionários da Fundação Brasil Central que lhes deu poder, prestígio e status social. Por fim, mais tarde, alguns foram absorvidos pela Sudeco. Com a extinção da Fundação Brasil Central em 1967, esses trabalhadores foram aposentados e se instaura uma crise de identidade entre eles, colocando em relevo a noção de pioneiro. Com a crise, se forma uma comunidade de Memória que evoca o passado da Marcha para o Oeste onde as categorias Sertão, Fronteira, Índios e Bandeirantes e a noção de Patrimônio são articuladas para sustentar narrativas relacionada ao processo de reconstrução da identidade dos pineiros. Tais narrativas são potencializadas durante a “Festa do Pioneiro da Marcha para o Oeste” que se realiza todo mês de fevereiro na cidade de Nova Xavantina (MT). A identidade dos pioneiros é construída pelo contraste e conflito com outras identidades presentes e anteriores à chegada da Fundação Brasil Central, como a dos garimpeiros e sertanejos. O processo de reter fatos da História e selecionar certos quadros da Memória está relacionado com a disputa pelo poder local. Como resultado, a categoria pioneiro se desdobra construindo pessoas políticas e outras categorias, como exemplo, os pioneiros descendentes e os pioneiros modernos. Sendo assim, essa etnografia apresenta uma interpretação da cultura dos pioneiros da Marcha para o Oeste no Médio Araguaia que tem a Fronteira como etnogênese.  

Número: 18  
Título: “De Corpo e Alma: a dualidade no pensamento religioso Judaico e sua implicação nas práticas funerárias.”  
Autor: José Zuchiwschi  
Ano: 1998 Nível e número de página: Doutorado - 213 p.  
Orientador: Sônia Maria Bloomfield Ramagem  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
Esta tese descreve o ritual funerário judaico aliado à configuração estática dos espaços cemiteriais em função de preceitos místicos próprios e de uma dimensão mais profunda do pensamento religioso. Elevados ao campo semiológico, os elementos estéticos, próprios da configuração e organização dos espaços sagrados, possuem, dentro da ordem cultural, um importante papel no diálogo entre o pensamento religioso, a organização e a vivência dos cemitérios. Esse diálogo traduz dois planos estruturais aos quais subordina-se a própria dimensão cultural globalizante. Esses dois planos: o instrumental, isto é real e concreto, e o outro de oredem ideal e abstrata, constituem, assim, um císculo hierarquicamente ordenado, que parte desde o plano material, como moldura aos aspectos biológico, individual e instrumental, até o social, grupal e institucional, fechando-se em um plano cultural mais amplo. Dessa forma, traçando um paralelo interpretativo e analógico entre os elementos observados, este estudo busca contribuir para o entendimento quanto a opcupação, organização e vivência dos espaçõs físicos consagrados como meios de linguagem simbólica, onde as categorias de tempo e espaço, sagrado e profano, público e privado, continuamente resgatadas pelo pensar antropológico contemporâneo, podem ser melhor discutidas e aproveitadas no trato de questões relativas às doutrinas religiosas judaicas e à concepção da morte.  

Número: 19  
Título:“Indios Muertos, Negros Invisibles: La identidad “Santiagueña” en Argentina”  
Autor: José Luis Grosso  
Ano: 1999 Nível e número de página: Doutorado - 231 p.  
Orientador: Alcida Rita Ramos  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
L a construcción de la Nación Argentina, hegemonizad por las étiles de hacendados y comerciantes de Buenos Aires, consistió en la erradicación de los trazos étnicos coloniales, considerados como sinónimos y causales del “atraso” y la “barbarie”. Los indios, los negros y sus mezclas, sectores mayoritarios de la mesopotamia santiagueña, en el Norte del país, fueron borrados del mapa social, y de acuerdo com la disposición oficial a reconocer sólo identidades en términos provinciales, se resumió todo el espectro poscolonial local en una única identidad “santiagueña”. Esa identidad es un campo de diferenciaciones y de luchas sociales. Los sectores mayoritarios, más próximos y en relación de continuidad estructural (por su lengua y su ubicación laboral, económica y cultural) con aquellas mayorías étnicas, recurren en su trabajo de representación a la oscura presencia de “indios” y “negros”, y ella integra el texto de su lógica identitaria. El bilingüismoq quichua/español, los rituales de muerte y la representación de los “indios” en las fiestas de los Santos, las creencias generalizadas sobre el nacimiento subterráneo de la música, expresan el poder de ausencia de lo “indio” y de lo “negro” en lo “santiagueño” popular. Frente a esto, las élites rurales y urbanas marcan sus gestos de diferenciación, asumiendo una tarea político-cultural de mediación entre el modelo de ciudadanía nacional y su conjugación provincial. A pesar de esto, los sectores populares “santiagueños” llevan a sus márgenes la identidad “argentina”, habitándola en una oscura disconformidad que presiona desde la muerte y la invisibilidad.  

Número: 20  
Título: “O Corpo Cósmico: O Xamanismo entre osYanomae do Alto Tootobi”  
Autor: Maria Inês Smiljanic Borges  
Ano: 1999 Nível e número de página: Doutorado - 218 p.  
Orientador: Alcida Rita Ramos  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
Esta tese trata do xamanismo entre os Yanomae, sub-grupo Yanomami do norte do Brasil. Partindo do conceito de cosmos e dos seus habitantes humanos e não-humanos, a autora mostra como o xamanismo constitui um processo de descoberta e de construção do universo, cuja expressão encontra seu espaço privilegiado nas narrativas sobre os cantos xamânicos. Por suas qualidades e pelos poderes adquiridos durante o seu aprendizado, o xamã consegue estabelecer relação com o vasto e complexo mundo dos espíritos, que lhe permite gerir e tentar resolver as contradições da Criação, e lidar com as situações de crise que ameaçam o equilíbrio e a ordem do cosmos. Transitando livremente pelas dimensões temporais e espaciais do mundo e da realidade mitológica, o xamã adquire o poder de negociar as doenças, a morte, e o surgimento dos brancos, sobretudo depois das intrusões maciças de populações não indígenas, que invadiram o território Yanomae ao longo destas últimas décadas.  

Número: 21 Titulo: Hari Nama Sankirtana: Um estudo Antropológico de um Processo Ritual  
Autor: Marcos Silva da Silveira  
Ano: 1999 Nível e número de página:  
Orientador: Stephen Grant Baines  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
Esta tese apresenta o principal rito do Movimento Hare Krishna, denominado HARI NAMA SANKIRTANA, primeiro numa perspectiva histórica, para depois descrevê-lo a partir de um evento específico, a celebração do Centenário de Srila Prabhupada Bhaktivedanta Swami, o fundador desse movimento, ralizada em Sri Mayapur Dhama, West Bengal, em fevereiro de 1996. São analisadas duas dimensões distintas do cerimonial, a adoração à deidade de Srila Prabhupada e sua instalação em seu memorial e o comportamento dos adeptos brasileiros durante o mesmo evento. Conclui-se que este rito, em particular, a marca registrada dos Hare Krishna, sintetiza sua dimensão evangelizadora, aberto a todos sem distinções sociais.  

Número: 22  
Título: “Narrativas Orais e Alegorias: uma poética da vida social”  
Autor: Nei Clara de Lima  
Ano: 1999 Nível e número de página: Doutorado - 205 p.  
Orientador: José Jorge de Carvalho  
Linha de Pesquisa:  

RESUMO 
Este trabalho é uma interpretação do imaginário do ouro construído pela oralidade. As narrativas que analiso singularizam-se pelo uso do discurso do encantamento no qual o real e o imaginário, o histórico e o mítico se amalgamam e contam, de modo diferente, eventos da história local. Pertencentes ao repertório popular de cidades do ciclo do ouro da região Centro-Oeste, elas enfeixam um grande número de imagens mentais e afetivas através das quais os moradores interpretam a si mesmos, o seu passado e a sociedade em que vivem. Condensando e entrelaçando crenças religiosas e moralidades, acontecimentos históricos e ficcionais e concepções particulares de tempo e espaço, essas narrativas constroem uma espécie de poética da vida social por contarem eventos através de alegorias.  

Número: 23  
Título: “A Fala do Infante: Um estudo antropológico com a criança periférica”  
Autor: Lelia Lofego Rodrigues  
Ano: 1999 Nível e número de página: Doutorado - 176 p.  
Orientador: José Jorge de Carvalho 
Linha de Pesquisa: 

RESUMO 
O presente estudo antropológico é resultado de uma pesquisa etnográfica com crianças de periferia, realizada em São Luís do Maranhão, entre 1995 e 1999. A “fala do infante” emergiu nas “expressões lúdicas” das crianças, em suas brincadeiras, desenhos, esculturas, leituras... Perceber a crítica que, através desses textos escritos e imagéticos, as crianças fazem ao mundo dos adultos, só foi possível reconhecendo que a criança politiza o faz de conta. Suas narrativas estão aqui inscritas.  

Número: 24  
Título: “Da Impossibilidade do Trágico: conflitos morais e bioética”  
Autor: Débora Diniz Rodrigues  
Ano: 1999 Nível e número de página: Doutorado - 227 p.  
Orientador: Rita Laura Segato 
Linha de Pesquisa: 

RESUMO 
Esta tese trata do conflito moral como condição de existência dos seres humanos moralizados. A bioética é entendia como um discurso que pretende mediar os conflitos morais no campo da saúde e da doença dos seres vivos. Para tanto, a bioética resgat o espírito trágico, isto é, reconhece a inexistência de natureza nas crenças morais. Desta forma, considera-se que a bioética seja o projeto mais intensamente trágico já feito no campo da teoria moral aplicada.  

Número:25.  
Título: "Tupi - Guarani e Jê Timbira: Articulações Étnicas em Processo"  
Autor: Maria Helena Barata  
Ano: 1999  
Nível e número de páginas: Doutorado  
Orientador: Roque de Barros Laraia 
Linha de Pesquisa: 

RESUMO 
Exame das relações étnico-sociais entre os povos indígenas Pukob´gateyê (Jê-Timbira) e Tenetehara (Tupi-Guarani), que habitam o Estado do Maranhão, face a situação de contato interétnico mais ampla na qual estão submetidos. A ênfase dominante recai sobre a própria perspectiva que esses povos desenvolveram tanto do contato entre eles estabelecido, quanto do processo histórico em que se viram inseridos com a penetração das diversas "frentes de expansão" em seus territórios. Busca-se também examinar as relações que esses povos mantém entre si e com os diversos segmentos da população regional no interior da cidade mais próxima: Amarante do Maranhão.  

Número 26.  
Título: " A Marcha Nacional dos Sem - Terra: Um Estudo Sobre a Fabricação do Social"  
Autor: Christine de Alencar Chaves  
Ano: 1999  
Nível e número de páginas: Doutorado - 462p.  
Orientador: Mariza G. S. Peirano 
Linha de Pesquisa: 

RESUMO 
Esta tese é uma etnografia da "Marcha Nacional por Reforma Agrária, Emprego e Justiça", organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem - Terra, MST, entre 17 de fevereiro e 17 de abril de 1997. A Marcha Nacional é nela tomada como um evento exemplar da atuação política do MST, marcada por ações coletivas de forte caráter expressivo com as quais ao mesmo tempo que pressiona o aparato legal do Estado, o MST busca conquistar legitimidade. Dotada de eficácia política, a Marcha Nacional é tratada como um ritual de longa duração e, por conseguinte, como um locus privilegiado de investigação do MST como ator político e do contexto sócio-político que a balizou. Na trilha de Mauss, procura-se desvendar a interação efetiva e os nexos significativos entre agente, ato e sociedade. O estudo detalhado da Marcha, seu cotejamento com outras ações coletivas do MST e com a reação política por ela suscitada na esfera pública, favoreceu a compreensão da cosmologia política que sustenta a ação dos sem-terra, bem como a identificação da dinâmica interna e externa posta em curso pela Marcha Nacional.  

Número: 27  
Título: " Os Labirintos do Minotauro: Política, troca e linguagem"  
Autor: Luiz Eduardo de Lacerda Abreu  
Ano: 2000  
Nível e número de páginas:  
Orientador: Luis Tarlei de Aragão 
Linha de Pesquisa: 

RESUMO 
O objeto da tese é a política; o locus de pesquisa, o Congresso Nacional, particularmente a Câmara dos Deputados. Ela contém duas hipóteses. A primeira, etnográfica, é que a política brasileira engendra e, simultaneamente, se conforma num sistema de trocas, com propriedades específicas, sui generis. A segunda, metodológica, é que o modelo da linguagem serve como instrumento heurístico para descrever a política. Lévi-Strauss propõe que a troca é uma forma de comunicação e, portanto, a linguagem é o modelo que permite apreender (saisir) o social. Ele, no entanto, leva a metáfora na direção da linguística estrutural de Jackobson. Os labirintos do Minotauro seguem a mesma inspiração, a partir de outra influência: a doutrina que relaciona significado e uso em Wittgenstein. O trabalho é decorrência direta das pesquisas desenvolvidas em Corte de Pedra, povoado do interior da Bahia, desde 1988. Não só as duas hipóteses são compatíveis com os dados etnográficos surgidos desta pesquisa, como a tese se estrutura na comparação, muitas vezes implícita, com Corte de Pedra. É possível, inclusive, dizer que Os labirintos percebem a política no Congresso pelos olhos de Corte de Pedra. Evidentemente, outros olhares são possíveis a partir de outros pontos comparativos. Enfim, é preciso mencionar que, a partir, principalmente, da influência de Wittgenstein, Os labirintos discute os limites da nossa percepção da política, que são os limites da linguagem, e como que a política, em muitos dos seus aspectos, arremete contra estes limites.  

Número: 28  
Título: " Banditismo Social: Política e Utopia".  
Autor: Manoel Alexandre Ferreira da Cunha  
Ano: 2000  
Nível e número de páginas:  
Orientador: Luís Roberto Cardoso de Oliveira 
Linha de Pesquisa: 

RESUMO 
Esta tese, utilizando a observação participante e a pesquisa documental, levanta a etnografia e analisa um movimento de "banditismo social" ocorrido a partir de um conflito fundiário, na década de 80 no Nordeste paraense. Constata que essa manifestação não está desligada do movimento social e camponês da região, pois identifica sete "cangaços" na área e dois personagens "carismáticos", mostrando que o movimento origina-se de uma decisão política do campesinato e está inserido na história sócio-política do país. O conflito articula projetos diferenciados da Igreja Católica, do Estado e do Campesinato, enfatizando a autonomia histórico-social desse último projeto, desde os primeiros núcleos de sociabilidade quilombola no século passado e neste século, enfrentando a sociedade institucionalizada a partir do litoral, expulsando oligarcas, criando sindicatos, sociedades civis, mostrando capacidade política de articular-se com as instituições da modernidade e de organizar formas próprias de resistência e luta. As ações desse movimento antecipam e realizam propostas políticas sintonizadas com a conjuntura nacional, como a questão do Estado de direito, da democracia e da reforma agrária na década de 80. Assim, discute as relações entre imaginário e política mostrando que tanto o "bandistismo social", com conotações messiânicas, articula o racional e o político, como os movimentos revolucionários e "modernos" articulam o imaginário, ultrapassando as idealizações nos dois contextos.  

Número: 29 
Título: Pertencemos a um Grupo Étnico Chamado Mixteco 
Autor: Luis Eugênio Campos Muñoz 
Ano: 2000 
Orientador: Stephen Grant Baines 

RESUMO 
Nesta tese questiono as categorias étnicas Mixtecos e Indígenas, contrastando-as com as atuais populações assim denominadas em Oaxaca, México. Por meio deste exercício busco exemplificar mediante uma etnografia, as muitas possibilidades que atualmente têm os Índios para reivindicar-se identitariamente. Para isto eles utilizam o conceito de cultura e outras categorias do discurso antropológico como conceitos que permitem, tanto sua reafirmação como grupos étnicos, como sua articulação com unidades organizativas maiores com as quais se relacionam. Importntes neste processo têm sido os antropólogos que têm conseguido trabalhar com os nativos e a gama de confluências que definem a atual cultura Mixteca. Por último, pretendo com este exemplo poder levar elementos de discussão a outros estados-nações, porque creio ser necessário que as diferentes experiências de descolonização dos índios sejam conhecidas. 

Número: 30 
Título: Mercosul Ritual. Políticos e Diplomatas na Política de Integração do Cone Sul 
Autor: Gabriel Omar Alvarez 
Ano: 2000 
Orientador: Gustavo Lins Ribeiro 

RESUMO 
Este trabalho aborda o Mercsoul a partir de distintas iniciativas de políticos e diplomatas implementadas durante o período 1997-1999. Estes atores serão considerados como brokers que tem um papel estratégico na articulação de um novo nível de integração. Os rituais apresentaram-se como uma ferramenta eficaz para explicar as diversas ambiguidades e contradições inerentes ao processo de integração. 
Trabalharei os diferentes rituais, que estruturam-se em um continuum que vai desde os rituais de agregação aos rituais de poder; desde os mais laxos aos mais rígidos. Os mesmos estruturam as relações entre os brokers, permitem-nos mostrar a passagem da comunidade de argumentação para uma comunidade de comunicação mais ampla e para a construção do Mercosul como comunidade imaginada. Os rituais são analisados como um poderoso veículo de comunicação de conteúdos altamente abstratos, os fazem sensíveis; dão existência simbólica ao projeto político no qual combinam-se regionalização e globalização. Por meio dos rituais se re-cria um poder estrutural, que faz sentir seus efeitos na economia política da região.

Número: 31
Título: Se a FUNAI não faz, nós fazemos
Autor: Ludmila Maria Moreira Lima
Ano: 2000
Orientador: Ellen F. Woortmann

RESUMO
Esta tese examina as relações de conflito e poder, bem como a resistência à mudança desencadeadas no desenvolvimento do Projeto Integrado de Proteção às Populações e Terras Indígenas da Amazônia Legal - PPTAL. Concebido como um projeto-piloto e executado pela Fundação Nacional do Índio - FUNAI, o PPTAL integra um programa maior denominado Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras - PPG7. Seu caráter inovador é afirmado pelo prisma tanto de suas metas, quanto de sua operacionalização, por regularizar as terras indígenas da Amazônia com a ativa participação indígena e de diversos parceiros e o apoio financeiro de organismos internacionais de cooperação. A tese analisa as relações de poder entre os atores institucionais envolvidos, partindo do princípio de que estes estão inseridos em um campo de lutas concorrenciais, ocupando posições determinadas pela lógica interna do campo. A análise vem contribuir para a reflexão acerca do dilema mudar/permanecer.

Número: 32
Título: Os Dois Brasis: Um Estudo do Dualismo nas Interpretações do Brasil
Autor: Custódia Selma Sena
Ano: 2000
Orientador: José Jorge de Carvalho

RESUMO
O obejtivo deste trabalho é refletir sobre a recorrência da representação dualista nas interpretações do Brasil e as propostas de síntese apresentadas. Nossos dados são os textos produzidos pelos ensaistas, cientistas sociais e historiadores que registraram a dualidade como um fato, uma imagem, um sentimento ou um modelo teórico. Texto sobre textos, a composição do nosso trabalho assemelha-se àquela do bricoleur. Rastreado e arrancado do interior da compartimentação disciplinar e do contexto mais imediato de sua produção o dualismo é representado como uma configuração ideológica central da sociedade brasileira: como forma de experiência de brasilidade e penhor de nossa singularidade.

Número: 33
Título: Retornar à Raiz: Tradição e Experiência em uma Linguagem Taoísta no Brasil
Autor: José Bizerril Neto
Ano: 2001
Orientador: José Jorge de Carvalho

RESUMO:

Ao investigar uma tradição espiritual predominante e contemplativa adotei um tipo de abordagem que privilegia o vivido, enfatizando a participação como estratégia para compreensão da substância deste tipo de experiência do sagrado. Assim como a teoria, o corpo do antropólogo torna-se um instrumento de pesquisa. Em contraposição à ênfase no olhar e na observação supostamente neutra e distanciada, trata-se de incluir plenamente o corpo, os sentidos e a afetividade do antropólogo em sua estratégias de pesquisa, de modo a tomar contato com as técnicas, propósitos e efeitos dos sistemas de meditação. Ao contrário da perspectiva sinológica que privilegia a exegese dos textos clássicos, concentrei-me em uma versão contemporânea concreta do taoísmo, o grupo com sede na cidade de São Paulo, constituído em torno do mestre chinês Liu Pai Lin. Focalizo os aspectos práticos desta tradição como estruturantes de um tipo particular de experiência de mundo e amplio a noção de narrativa para abarcar tanto falas quanto obras literárias, material iconográfico e técnicas corporais e os seus modos situacionais de articulação e reatualização no presente, no contexto performativo do ensino oral e prático. Paralelamente, discuto as possibilidades de uma etnografia da meditação e as especificidades e ambigüidades da posição do antropólogo.

Número: 34
Título: SEKETI: Poetic and Musical Eloquence Among the Saramaka Maroons From Suriname
Autor: Terry Ronald Agerkop
Ano: 2001
Orientador: José Jorge de Carvalho

RESUMO:

Os Saramacas são um dos principais grupos de quilombolas existentes hoje no Suriname, ex-Guiana Holandesa. Descendentes dos escravos que escaparam das plantações estabelecidas na costa do país, eles criaram, no ambiente hostil da floresta amazônica, novas instituições culturais, tais como religião, estrutura social, modos de subsistência, adaptados às necessidades do seu novo ambiente. Uma dessas formas expressivas foi sua cultura musical, consistindo principalmente de modos elaborados de canto e dança, usados no contexto de uma grande variedade de eventos rituais e festivos. A tese focaliza um gênero específico de canção, o sekéti, que é tocado como um evento em si mesmo, ou como uma atividade à margem de outros eventos políticos e religiosos. O sekéti é um gênero lúdico que comenta uma imensa variedde de assuntos sociais, morais e estéticos. O poder dos cantos sekéti reside no uso imaginativo da linguagem rítmica e poética, cheia de símbolos, efeitos verbais e virtuosismo musical. Baseado nas teorias de alguns dos principais representantes da Antropologia da Experiência, a atitude fenomenológica na pesquisa de campo, etnográfica e etnomusicológica, fiz um esforço por chegar a compreender as canções ao considerá-las como expressão artística de certas experiências e sobretudo como a experiência mais ampla, adquirida pelos membros de um grupo cultural bem estabelecido. O canto sekéti reflete, para os Saramakas, um modo de estar e de interpretar o mundo em todas as suas múltiplas facetas. E também um caminho apto para comunicar idéias, sentimentos, anseios e frustrações, de modo a lidar com situações de frequentes mudanças, e ao mesmo tempo, continuar conectando-se com os valores dos quilombos dos "velhos tempos", que com tanta bravura estabeleceram o senso de "ser Saramaka".

Número: 35
Título: Confrontos Discursivos sobre Território no Brasil: O Caso das Terras dos Remanescentes de Quilombos
Autor: Siglia Zambrotti Doria
Ano: 2001
Orientador: José Jorge de Carvalho

RESUMO:

A despeito da sua orientação jurídica fundamental - a concepção de direitos individuais - a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, pelo art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, garantiu às comunidades remanescentes dos antigos "quilombos" (em outros paíse americanos, recebem denominações como "Maroons", "Palenques", "Cimarrones", "Cumbes") a propriedade definitiva das terras que estejam ocupando. O reconhecimento legal da existência de territórios negros no país, apropriados de forma coletiva, configurou um campo discursivo que se constituiu no relacionamento entre as diversas agências encarregadas da implementação das normas do arcabouço jurídico estatal e os grupos sociais remanescentes de quilombos a cuja ocupação territorial tal arcabouço se sobrepõe. Confrontos discursivos puderam ser identificados nesse campo, entre eles os produzidos pela sobreposição identitária genérica, de cunho político-ideológico, que não leva em conta as diferenças de cultura entre os inúmeros grupos negros e a diversidade de suas auto-concepções identitárias. Sob uma abordagem hermenêutica, este trabalho analisa os discursos emitidos em alguns eventos nos quais a questão foi discutida, sobretudo em Brasília, São Paulo, Pará e Estado do Rio de Janeiro, observando mais de perto as situações do Campinho da Independência (RJ) e das comunidades remanescentes de quilombos do Baixo Amazonas. Admitindo que a questão fundiária é central do ponto de vista das ideologias e que suas implicações vão muito além da própria lei e da prática da lei, a substancialização do trabalho esteve em buscar a compreensão analítica dos discursos gerados nessas situações dialógicas, ir à sua textualidade, compreender e apreender as proposições sobre território enquanto construto social que engendra relações de poder, de subordinação, de subjetivação - ou seja, aspectos da dimensão fundiária da cultura brasileira.

Número: 36
Título: Olhos de Medusa: Aids, Poder e Terror
Autor: Pedro Paulo Gomes Pereira
Ano: 2001
Orientador: Rita Laura Segato

RESUMO:

Este texto trata da etnografia realizada em uma instituição de aproximadamente duzentas pessoas, todas portadoras de HIV, onde ex-presidiários, ex-prostitutas, meninos de rua, travestis, pessoas expulsas de casa, usuários de drogas injetáveis, alcoolistas, convivem em situação de confinamento e reinventam uma nova identidade sob o signo da AIDS. Examina-se, utilizando autores como Michael Taussig Foucault, entre outros, os procesos pelos quais o terror inscreve-se nos corpos e toma conta da consciência destes internos, fechando o seu horizonte de sentido. A questão fundamental deste trabalho é a identificação, a descrição e a análise do "campo de terror".


Número: 37
Título: Uma Maria brasileira. Um estudo sobre catolicismo popular
Autor: Tania Mara Campos de Almeida
Ano: 2001
Orientador: Rita Laura Segato


RESUMO:

O tema da tese é uma aparição de Nossa Senhora que vem ocorrendo diariamente na pequena cidade de Piedade dos Gerais, no estado de Minas Gerais, durante os últimos treze anos. Trata-se de um estudo teórico-etnográfico sobre a fundação e a difusão de um conjunto de práticas religiosas e sociais por parte de um extenso e heterogêneo grupo, a partir de uma fonte qualificada como sobrenatural. A emissão das falas da Virgem, chamadas mensagens, teve o poder de transformar a realidade social e de erigir ali um santuário, o Vale da Imaculada Conceição, onde se vive um interessante experimento de sociabilidade e encontram abrigo diversos estilos de religiosidade católica. Ainda sendo um fenômeno vinculado a uma antiga tradição, mostra-se aqui como se atualiza dentro de um contexto histórico-social específico, transcende suas próprias condições de produção e se amplia, atraindo uma grande diversidade de atores sociais diferentemente posicionados.

Número: 38
Título: O Espetáculo do Boi-Bumbá. Folclore, Turismo e as Múltiplas Alteridades em Parintins
Autor: José Maria da Silva
Ano: 2001
Orientador: Mariza Gomes e S. Peirano

RESUMO:

Esta tese desenvolve uma etnografia do festival do boi-bumbá, que se realiza anualmente nos três últimos dias do mês de junho na cidade de Parintins, no estado do Amazonas. Examino como, na realização do festival, convergem diferentes interesses, relações e representações, envolvendo pontos de vistas locais e externos. Nesse jogo de identidades, a exotização do outro é um dos aspectos fundamentais nas representações e tipificações mútuas. A etnografia se soma à tradição dos estudos sobre comunidades amazônicas, mas procura focalizar o campo dinâmico onde identidades locais, regionais, nacionais e globais interagem. A abordagem dos rituais permite descrever a sequência do "ciclo do boi-bumbá", destacando a preparação, a realização do espetáculo e sua conclusão, além de examinar os atores envolvidos - da população local ao turista.

Número: 39
Título: A Pobreza no Paraíso Tropical: Interpretações e Discursos sobre o Brasil
Autor: Marcia Anita Sprandell
Ano: 2001
Orientador: Mariza G.S. Peirano

RESUMO:

O trabalho demonstra queo o "problema da pobreza" é uma preocupação historicamente recente no Brasil. Realizando uma genealogia da categoria "pobreza" em cem anos de discursos políticos e acadêmicos sobre o país, o trabalho conclui que a naturalização da
pobreza foi uma constante em grande parte das interpretações sobre o Brasil. Embora detalhadamente descrita em muitos textos, a pobreza aparece no mais das vezes como uma consequência do clima, da mestiçagem, a doença, da desorganização social ou mesmo da falta de condições objetivas para uma revolução popular. Recentemente, através da influência dos grandes organismos internacionais, percebe-se a disseminação de um outro discurso naturalizador da pobreza, que a define como mundial e atemporal. A proposta da autora é de que se resgate as discussões levadas a efeito pelos clássicos do pensamento social brasileiro e, com elas, o passado racista, escravocrata e elitista a que se referiam, como forma de enfrentarmos diversamente os nossos problemas contemporâneos.

Número: 40
Título: Roteiro de uma Etnografia Colaborativa: as organizações indígenas e a construção de uma educação diferenciada em Roraima, Brasil.
Autor: Maxim Paolo Repetto Carreño
Ano: 2002
Orientador: Stephen Grant Baines

RESUMO:

O presente trabalho relata e analisa uma pesquisa antropológica e etnográfica de caráter colaborativo desenvolvida junto às organizações indígenas do estado de Roraima, no norte do Brasil. Neste contexto, centro minhas atenções ao povo Makuxi e Wapichana, habitantes dos lavrados e serras circundantes do Monte Roraima. Para tanto, exploro os processos políticos de constituição das organizações indígenas locais, bem como suas reivindicações, para estudar o processo histórico vivido pelos povos indígenas e suas relações com os diferentes setores da sociedade regional e nacional, entre os anos 1970 e 2000. No centro das atenções e conflitos, entre grupos indígenas e entre indígenas e não-indígenas, encontram-se as terras indígenas, sobre as quais surgem diversos discursos de poder e sérios conflitos devido a sua indefinição formal. Entretanto, outras preocupações também movimentam as várias organizações, dentre elas a necessidade de produção e de melhora das condições de vida das comunidades. Assim, focalizo as discussões relativas à educação escolar indígena para abordar aspectos referentes à produção de conhecimentos e disputas pelo saber e pelo poder que se manifestam no processo de escolarização.


Número: 41
Título: Índio não é todo igual: a construção Ashaninka da história e da política interétnica
Autor: José Antonio Vieira Pimenta
Ano: 2002
Orientador: Alcida Rita Ramos

RESUMO:
Os Ashaninka do rio Amônia no Estado do Acre têm uma longa história de luta, repelindo os invasores desde a época do Império Incaico até a economia extrativista da borracha do século XIX e a exploração madeireira no século XX. Num esforço consciente, revertem as vicissitudes do contato transformando desvantagens em vantagens, incorporando e dando novos significados a diversos conceitos do mundo dos brancos, tais como comunidade, desenvolvimento sustentável, escola, projeto e cultura. A apropriação desses elementos faz parte da estratégia dos Ashaninka do rio Amônia não só para fortalecer sua identidade étnica frente aos seus parentes de outras áreas ashaninka e aos brasileiros regionais, mas também para concretizar suas aspirações políticas no contexto dos indigenismo acreano.

Número: 42
Título: Los Flujos de la Fronterización: una etnografia histórica de la nacionalidad en Uruguayana (Brasil) - Paso de los Libres (Argentina)
Autor: Alejandro Grimson
Ano: 2002
Orientador: Roberto Cardoso de Oliveira

RESUMO:
Esta tese analisa a sociogênese da fronteira entre a Argentina e o Brasil. A mudança nas respectivas identificações nacionais e em seus significados, entre os moradores de Paso de Los Libres e Uruguaiana, constitui o principal objeto deste estudo. Através de uma etnografia histórica procura-se reconstruir as perspectivas que os atores fronteiriços tiveram acerca das nações e de suas fronteiras, em diferentes períodos. Ao mesmo tempo, analisa-se como, na presente situação sociocultural, a fronteira é quotidianamente produzida, recriada e reproduzida por diferentes agentes sociais que intervêm nesse espaço: os contrabandistas-formiga, as organizações de comerciantes, os governos locais ou regionais e as instituições nacionais.
O estudo concentrações nas práticas transfronteiriças, ou seja, naquelas relações que vinculam pessoas ou grupos de um lado e outro da fronteira. Tal ênfase bivalente (histórica e contemporânea), colocada sobretudo nas relações comerciais, leva também em consideração as alianças matrimoniais, as redes políticas e outros processos socioculturais transfronteiriços. A análise desses vários vínculos permite-nos elucidar o processo sutil através do qual se produz a distinção identitária, na própria relação transnacional.
Esta tese pretende mostrar que a nacionalidade e seus sentidos são produzidos, ressignificados, diluídos ou reforçados em redes e práticas que atravessam a fronteira material, sem que com isso seja negada a relevância das fronteiras simbólica.

Número: 43
Título: Um Rio São Muitos
Autor: Roberto Cunha Alves de Lima
Ano: 2002
Orientador: José Jorge de Carvalho
TeseRobertoCunhaPrimeiraParte
TeseRobertoCunhaSegundaParte
TeseRobertoCunhaAnexos

RESUMO:
Tentar pensar o rio São Francisco através dos que nele se espelham, mas mantendo o foco no rio sento este, uma fonte de identidades ou contraparte de si destes agentes. O texto organiza-se em capítulos mais ou menos independentes em que grupos de agentes são discutidos em relação às questões que levantam e os imaginários que criam e manipulam: os viajantes e a mimese, os pescadores e os marjos e seu compromisso com o rio, os planos estatais e o coronelismo. No itinerário seguido, são discutidas as narrativas, as ruínas e a memória na paisagem e na alma dos homens e do rio, e autores como Benjamin, Ricoeur, Spivak e Bhabha entram no diálogo.

Número: 44
Título: Desenvolvimento Sustentável e Pequenos Projetos: entre o projetismo, a ideologia e as dinâmicas sociais
Autor: Ana Carolina Cambeses Pareschi
Ano: 2002
Orientador: Gustavo Lins Ribeiro

RESUMO:
Este trabalho analisa o campo das relações políticas e sociais estabelecidas no interior do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil - PG7, do seu Subprograma Projetos Demonstrativos A, PD/A e de um pequeno projeto de desenvolvimento sustentável, o Projeto Frutos do Cerrado, financiado pelo PD/A. Procuro compreender de que maneira a ideologia-utopia do desenvolvimento sustentável tem sido operacionalizada por políticas públicas, particularmente por pequenos projetos. Utilizo a noção de espaço de disputas para abordar este campo de interação entre atores sociais distintos e situados em variadas posições de poder. Utilizo igualmente a noção de projetismo, manifestação prática destas disputas e da ideologia do planejamento que, em certa medida, conforma os resultados dos pequenos projetos de desenvolvimento sustentável.

Número: 45
Título: A Festa do Divino Espírito Santo no Brasil Contemporâneo: uma etnografia de um rito popular em Goiás
Autor: Lara Santos de Amorim
Ano: 2002
Orientador: Mireya Suárez de Soares

RESUMO:
Com o objetivo de conferir legitimidade à forma cultural pesquisada, este trabalho procura ser um testemunho etnográfico da Folia do Divino Espírito Santo no interior do estado de Goiás. Abordo a folia como uma prática cultural dinâmica, que desde sua origem no século XIV em Portugal e posterior chegada ao Brasil, no século XVI, tem se perpetuado no país como uma festa popular e folclórica. Entendo que as localidades onde acontecem as folias são espaços políticos nos quais são encenadas práticas sociais que emitem enunciados simbólicos que representam a identidade de comunidades estigmatizadas socialmente. A partir de categorias nativas, descrevo ritos litúrgicos e representações do sagrado e do profano no âmbito da Folia da Roça.
Revela-se, no contexto do rito da folia, a forte influência de signos culturais que migram da sociedade moderna para o campo e periferia, através dos meios de comunicação de massa, formando novos signos híbridos. Relacionando o conceito de tradição com as representações sociais e estéticas que ajudam a formar identidades contemporâneas, abordo a folia como um ritual, que devido a sua característica performática, lúdica e subversiva, se apresenta no presente histórico como uma resistência estética e cultural às transformações impostas pelo processo de modernização. É na relação de assimilação entre estrutura mítica e evento histórico, que encontramos signos, significados e valores que fazem do rito da folia no Brasil, um rito popular, rural e tradicional, capaz de comunicar crenças e valores solidários entre a comunidade de foliões e revelar identidades de sujeitos históricos.

Número: 46
Título: Terra Caída: Encante, Lugares e Identidades
Autor: Edna Ferreira Alencar
Ano: 2002
Orientador: Ellen F. Woortmann

RESUMO:
Esta tese resulta de um trabalho com o qual pretendi compreender o processo de afirmação da identidade dos moradores de São João, um povoado situado na área Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, região do médio Solimões, estado do Amazonas. Um dos seus objetivos é mostrar esse processo a partir da articulação de diferentes planos de significação no qual o ambiente é um ponto referencial de simbolização e marcação da diferença. Nesse sentido, as transformações que ocorreram na paisagem e as mudanças na relação do grupo com o ambiente e nas formas de utilização dos recursos naturais refletem, e são também, reflexo de mudanças que ocorreram no contexto social e estão presentes nas narrativas do grupo sobre a sua história. Na leitura que realizo, categorias familiares à antropologia tais como lugar, identidade, ambiente e paisagem foram contextualizadas, resguardando assim as especificidades dos processos históricos locais de constituição deste grupo social. Busco o modo como os vários planos de significação que compõe a totalidade da sociedade são colocados em intersecção.


Número: 47
Título: Uma Antropologia Sem Outro: o Brasil no discurso antropológico nacional
Autor: Mônica Thereza Soares Pechincha
Ano: 2002
Orientador: Rita Laura Segato

RESUMO:
Esta tese versa sobre o ocultamento do outro na representação antropológica totalizadora da nação brasileira. A partir deste estranhamento, a relação entre antropologia, ideologia nacional e construção da nação se apresenta como tema para reavaliação crítica. O próprio conceito de ideologia está em causa, bem como a relação entre ideologia e cultura. A alteridade é definida pela relação de poder, que é uma relação eminentemente simbólica. Atravessa a tese, neste sentido, a interrogação sobre os processos de constituição da autoridade discursiva e simbólica que inscreve o outro. Nesse processo, o outro e a totalidade são, ao fim, termos definitivamente inconciliáveis.

Número: 48
Título: Joaseiro Celeste: tempo e paisagem na devoção do Padre Cícero
Autor: Francisco Salatiel de Alencar Barbosa
Ano: 2002
Orientador: Rita Laura Segato

RESUMO:
A etnografia tem por objetivo apresentar os devotos do Padre Cícero como atores e protagonistas de uma açõ - o ritual da romaria - que se desenvolve no palco da cidade santa do Joaseiro. Trata-se de um movimento que irrompe num chamado e se perpetua numa resposta, dada uma vez e repetida num ciclo interminável de romarias. Pois o chamado é um acontecimento que precisa ser renovado e reativado, revivido e processado no contato com o grupo do povo romeiro, com a cidade santa e com o Padrinho Cícero e a Mãe das Dores, donos do Joaseiro e autores do chamado. Assim, nas falas dos romeiros e na linguagem mitopoiética do cordel, o Joaseiro é reconfigurado como Nova Jerusalém, Roma dos pobres e cidade celeste. Neste novo espaço sagrado e nesta nova paisagem, o Joaseiro se abre à intervenção divina e torna-se o centro do mundo. E o tempo da salvação e da graça se faz também atual: um hoje para aqueles que peregrinam e procuram sentido e motivos de esperança para as suas vidas. É um movimento ascensional que se desenha num espaço sagrado em construção. Como um livo em processo de escritura. Uma obra aberta e inacabada.

Número: 49
Título: La Nación Interior: Canal Feijóo, Di Lullo y los Hermanos Wagner: El discurso culturalista de cuatro intelectuales en la provincia de Santiago del Estero
Autor: Eva Beatriz O´Campo
Ano: 2002
Orientador: Rita Laura Segato

RESUMO:
O presente estudo trata dos discursos culturalistas de intelectuales da província argentina de Santiago del Estero, Bernardo Canal Feijóo, Orestes Di Lullo e os irmãos franceses Émile y Duncan Wagner, viajantes e arqueólogos estabelecidos na província construíram discursos em volta dos emblemas culturais desde e a respeito do interior da Nação.
Estes discursos eram opostos aos que foram construídos em Buenos Aires durante o processo de Organização Nacional findo em 1880 com a consolidação do estado-nação argentino, liderado pela Geração de 80. Buenos Aires não só foi a capital do estado argentino mas centralizou a representação oficial da nação.
Através do meu trabalho procuro contribuir para uma maior visibilidade teórica e empírica da dimensão pela qual as províncias interiores na Argentina em geral e Santiago del Estero em particular, geraram o idioma capaz de expressar os particularismos, demarcar centros e periferias e afirmar ou desafiar a continuidade temporal e espacial da nação argentina.

Número: 50
Título: Tempo de Brasília: Etnografando Lugares-Eventos da Política
Autor: Antonádia Monteiro Borges
Ano: 2003
Orientador: Mariza G.S. Peirano

RESUMO:
A presente etnografia procura compreender a relação entre o tema do lugar para morar e a política no Recanto das Emas, cidade-satélite no Distrito Federal. No momento em que foi construída a presente etnografia, a Invasão, o Barraco, o Lote e até mesmo o Asfalto eram para os moradores do Recanto objetos ou lugares que encerravam uma razão de agir e, por isso, tais categorias nativas são concebidas nesta tese como lugares-eventos. Sintetizadas na expressão "Tempo de Brasília" esses lugares-eventos referem-se à conformação daquilo que, inspirada em Charles Sanders Peirce, denomino como "comunidade de crença".

Número: 51
Título: Mineiros e Baianeiros: Englobamento, Exclusão e Resistência
Autor: João Batista de Almeida Costa
Ano: 2003
Orientador: Mireya Suárez de Soares

RESUMO:
Esta tese examina a ideologia da mineiridade como o objetivo de identificar o lugar nela ocupado pelo norte de Minas, como também os meios mobilizados pelos norte mineiros para resistir à desvalorização e à exclusão de que são objeto. A base de dados é constituída por informações historiográficas, literárias e etnográficas e por trabalho de campo realizado em Matias Cardoso e em Mariana, cidades históricas escolhidas por acreditar que, apesar de mudanças seculares, o espírito dos Gerais e o espírito de Minas se mantêm, nelas, vivos. A partir da análise desse conjunto de dados, concluo que em Minas Gerais a hierarquização das diferenças culturais e identitárias, entre baianeiros e mineiros, organiza-se em uma dupla dinâmica que inclui valorizando e, ao mesmo tempo, exclui os baianeiros da totalidade hierárquica, ao serem construídos como alteridade. Para compreender esse duplo movimento ideológico, recorri a duas teorizações do fenômeno da hierarquia. Por um lado, à abordagem do englobamento do contrário e, pelo outro, à perspectiva da exclusão baseada nas relações de poder, no âmbito da configuração social. Para finalizar, examino conceitualmente os processos de subjetivação, mostrando que as duas identidades, colocadas em oposição habitam o sujeito baianeiro e mineiro e o situam não em um lugar distinto e separado, mas em um entre-lugar identitário. E, do diálogo travado com sujeitos que reagem subalternamente à exclusão, a textualização da tomada de consciência dos matienses evidenciou que, na erosão das identidades originais, o sujeito no entre-lugar transcende a si mesmo e constrói novos signos de identidade.

Número: 52
Título: Feitiçaria, Negritude e a Relação com o 'Outro'. Crenças Mágicas em uma Cidade do Vale do Jequitinhonha-MG
Autor: Liliana de Mendonça Porto
Ano: 2003
Orientador: José Jorge de Carvalho

RESUMO:
Esta tese discute a religiosidade dos moradores de uma cidade do Vale do Jequitinhonha-MG, caracterizada pela colonização a partir da mineração aurífera nos século XVIII e pela atual predominância de população negra. Destaca a presença de crenças mágicas no catolicismo local, e principalmente o lugar central ocupado pela crença em feitiçaria. A fim de compreender o sentido destas crenças, retoma aspectos da história significativos na constituição do perfil da comunidade e como os habitantes locais interpretam esta história. A seguir, aborda a religiosidade local, o sentido que o catolicismo adquire ao longo do tempo, como ele opera a partir de uma visão dicotômica do mundo - a oposição entre bem e mal, coisas "de Deus" e "do Diabo" - mas simultaneamente apresenta uma flexibilidade marcante quanto à classificação de quais os aspectos se inserem no primeiro ou segundo termo. E, ainda, como crenças mágicas perpassam o catolicismo local, tanto apontando para ameaças que interferem no cotidiano como possibilidades de reagir a estas ameaças. Por fim, considera os dois tipos de discurso sobre feitiçaria que aparecem nas falas dos sujeitos de estudo, como eles se conjugam e o que apontam quanto à concepção do "outro" e da ameaça constante que ele representa.


Número: 53
Título: A Experiência do Samba na Bahia: Práticas Corporais, Raça e Masculinidade"
Autor: Arivaldo de Lima Alves
Ano: 2003
Orientador: José Jorge de Carvalho

RESUMO:
No século XX, a "música" se tornou um campo discursivo de fundamental importância para os afro-descendentes no Brasil. O samba é exemplar neste sentido. Compreendo que existem vários sambas no Brasil submergidos pelo termo genérico samba massificado desde os anos 30 pela indústria do rádio e do disco, legitimado por sambistas, público e pesquisadores. Embora exista uma vasta bibliografia sobre este gênero musical, a mesma se restringe, com raríssimas exceções, ao estudo do samba no Rio de Janeiro relegando à Bahia a condição de reserva de autenticidade. No sentido de descentralizar os estudos sobre o samba no Brasil e problematizar o consenso em torno da noção de samba, proponho, portanto, uma reflexão sobre a "experiência" do samba na Bahia, suas práticas corporais associadas, raça e maculinidade. O foco do meu trabalho etnográfico é a atual constituição do samba na Bahia como pagode baiano. Penso que como "música", o pagode baiano não se realiza apenas em seus aspectos musicológicos, mas também como sentidos culturais compartilhados coletivamente através do que se canta, do que se dança e do que se vê. Deste modo, gera informações estética e sensorial tanto quanto suscita questões extramusicais tais como, relações raciais, cultura juvenil, consumo, sexualidade e gênero. Apesar do pagode baiano ter se transformado num grande fenômeno de mercado, este trabalho se centraliza no pagode produzido em "territórios" formados por jovens negros da cidade de Salvador, na Bahia. O texto desta tese contém quantro capítulos, além de introdução e conclusão, assim organizados: 1. Miscigenação, hibridez cultural e cultura negro-africana. 2. A construção do gênero samba. 3. A experiência da música. 4. Imagens e representações sobre o negro.

Número: 54
Título: Mundo Afro: Uma História da Consciência Afro-Uruguaia no seu processo de emergência
Autor: Luis Ferreira
Ano: 2003
Orientador: Rita Laura Segato

RESUMO:
O objeto de estudo do presente trabalho é a inter-relação da esfera cultural com a esfera pública dos direitos civis, como uma contribuição para uma teorização das formações de diversidade nacionais e as denominadas «políticas raciais». O caso do ativismo organizado dos descendentes de africanos no Uruguai mostra como a sua estratégia política tem considerado essas esferas da modernidade, a cultural e a pública, como lugares de luta que trabalham a favor uma da outra, para melhorar as condições de vida do grupo. A abordagem do objetivo é feita a partir de três perspectivas relacionadas: as políticas do estado e a cultura tradicional do grupo, ambas no tempo histórico; e, na última década, a emergência de um movimento organizado de ativistas. Tal organização se define por uma política visando a eliminação das desigualdades socioeconômicas do setor e da discriminação racial. Metodologicamente, o objeto é construído a partir de documentação historiográfica, material etnográfico e memórias recolhidas. As principais categorias conceituais utilizadas são a consciência como modo de conhecer culturalmente incorporado, o da peculiaridade da formação nacional de diversidade e o da formação hegemônica no campo cultural.

Número: 55
Título: Margens Escritas. Versões da Capital antes de Brasília
Autor: Andrea Borghi Moreira Jacinto
Ano: 2003
Orientador: Mireya Suárez de Soares

RESUMO:
Entre discursos hegemônicos sobre Brasília e o Distrito Federal, encontra-se a imagem de Brasília como lugar do moderno e civilizado, inscrita como ilha em espaços vazios de cultura, civilização ou progresso. Partindo dessa imagem, pergunta-se: o que diriam os que são classificados por tais discursos como situados no vazio? Em busca de outros discursos e de diálogos com perspectivas locais, a tese privilegia um grupo em particular: escritores cujas produções literárias tematizam municípios e localidades existentes antes da construção de Brasília. Explorando tensões, tenta-se efetuar deslocamentos entre discursos e idiomas formulados localmente, narrados pela perspectiva de localidades, e também discursos enunciados a partir da centralidade do Estado-Nação. As temáticas observadas nesses discursos referem-se principalmente ao campo das relações entre os municípios e a capital federal, entre poder central e poderes locais, e a representação do espaço regional. Ao longo da tese, trabalha-se com três perspectivas. Primeiro, considerando-se um discurso enunciado da perspectiva do Estado-Nação, analisa-se o espaço nomeado Entorno do Distrito Federal, e imagens recorrentes em suas representações. Um segundo momento da análise volta-se ao discurso que enuncia o ponto de vista das localidades e municípios, acompanhando textos e narrativas de autores locais. A terceira perspectiva analisa o espaço social do qual participam os escritores, considerando práticas e instituições literárias. Finalmente, apresenta-se uma articulação entre os temas desenvolvidos ao longo do trabalho, procurando iluminar trânsitos simbólicos dos quais participam livros, autores e textos, na construção social do espaço no Distrito Federal.

Número: 56
Título: Em Busca da Sociedade Perdida: O Trabalho da Memória Xetá
Autor: Carmen Lucia da Silva
Ano: 2003
Orientador: Alcida Rita Ramos

RESUMO:
Este trabalho tem dois objetivos principais: o primeiro é realizar uma etnografia do ato de narrar, tomando como sujeitos etnográficos três sobreviventes da sociedade Xetá, grupo Tupi-guarani do noroeste do Paraná declarado extinto na década de 1960. Em segundo lugar, é apresentar o produto do trabalho de memória desses sobreviventes que, apesar de retirados do seu meio social ainda jovens, demonstram uma extraordinária capacidade de trazer do esquecimento aspectos cruciais daquela sociedade exterminada. Seus relatos concentram-se, principalmente, no meio ambiente, nas relações sociais e políticas e na mitologia. Ao contarem suas memórias na língua materna no contexto da pesquisa etnográfica, os narradores procuram recriar ritualmente relações, espaços e tempos que evocam a sociedade ausente, conferindo-lhe um caráter sagrado, em oposição ao seu cotidiano inserido em contextos estranhos à tradição Xetá. Graças à experiência etnográfica sui generis com os sobreviventes Xetá, criou-se uma verdadeira sociedade virtual cuja existência simbólica reside no ato de narrar e no conteúdo das narrativas. A partir dessa experiência, propõe-se uma etnografia das sociedades exterminadas que tem nos Tupinambá e em diversos grupos indígenas do Nordeste exemplos comparáveis ao dos próprios Xetá.

Número: 57
Título: Entre as Leis e o Mundo: Polícia e Administração de Conflitos numa Perspectiva Comparativa
Autor: Nívio Caixeta do Nascimento
Ano: 2003
Orientador: Mireya Suárez de Soares

RESUMO:
O objetivo desta tese é comparar instituições policiais estatais do Distrito Federal/Brasil e da municipalidade de Ottawa/Canadá por meio de algumas de suas maneiras específicas de administrar conflitos. Partindo de duas experiências etnográficas, são abordados leis, normas e procedimentos oficiais, bem como um gradiente de práticas e representações informais do cotidiano das instituições policiais em questão. A comparação estabelece similaridades de forma - os conflitos são dados da vida social e existem instituições como a polícia para administrá-los - e diferenças entre os conteúdos que repousam em experiências históricas, políticas, econômicas, sociais e culturais dos dois contextos de pesquisa. Não seria possível entender os processos de administração de conflitos sem levar em conta que os policiais estão submetidos, no cotidiano de suas profissões, a uma série de códigos normativos escritos tais como leis criminais, padrões de conduta, regimentos, entre outros. Por outro lado, o mundo que se apresenta cotidianamente aos "agentes da lei" não pode ser totalmente previsto e classificado nas normas oficiais. Comparativamente, isto implica pensar as polícias como instituições fundamentais na administração da justiça ao articular cotidianamente uma linguagem do Estado prevista nas leis e a moralidade presente em repertórios consuetudinários disseminados pela sociedade.

Número: 58
Título: Mornas e Coladeiras de Cabo Verde: versões musicais de uma nação
Autor: Juliana Braz Dias
Ano: 2004
Orientador: Wilson Trajano Filho

RESUMO:
No arquipélago de Cabo Verde formou-se uma sociedade muito especial, fruto do encontro entre portugueses e africanos. E a sociedade cabo-verdiana apresenta-se hoje como um terreno fértil para tratar de processos de identificação social. São inúmeros os projetos de identificação elaborados pelos vários grupos que compõem essa sociedade. A presente tese aborda alguns desses projetos a partir de um enfoque em discursos e práticas produzidos no domínio da cultura popular. Duas manifestações musicais cabo-verdianas - morna e coladeira - são examinadas a fim de alcançar algumas das construções sobre Cabo Verde como uma totalidade e as relações entre essas diversas elaborações. A investigação é realizada através de duas etapas complementares. Na primeira delas, trato de mornas e coladeiras como gêneros musicais autônomos. Elas são dissociadas dos contextos onde são originalmente produzidas e consumidas, passando a ser estudadas como categorias fabricadas pela indústria cultural. Na segunda etapa, examino atos de sociabilidade onde o par morna-coladeira se faz presente. Abordo a experiência com a música e o sentido a ela atribuído pelos cabo-verdianos. Procuro analisar as idéias, os sentimentos e os valores criados nesses eventos. Por fim, discuto a passagem da morna de elemento cultural associado às camadas populares a símbolo de Cabo Verde.

Número: 59
Título: APANJAHT: A expressão da sociedade plural no Suriname
Autor: Maria Stela de Campos França
Ano: 2004
Orientador: Mireya Suárez de Soares

RESUMO:
O objetivo desta tese é examinar o apanjaht, considerado como fato social a partir do qual a sociedade surinamesa torna-se inteligível. Como expressão da representação de sociedade plural, a ideologia apanjaht fundamentou a construção de modelos para as práticas democráticas e da organização social, legitimando simbolicamente a organização do poder político, assimo como a afirmação identitária dos diferentes grupos étnico-culturais. O apanjaht é concebido como uma ideologia que legitima o reconhecimento das diferenças étnico-culturais, ao mesmo tempo em que as afirma de forma igualitária. As múltiplas narrativas sobre os grupos étnico-culturais assim como a diversidade nas visões de mundo desses grupos tornam evidente a pluralidade sob a qual se expressa a sociedade surinamesa. As narrativas dos grupos étnico-culturais e suas visões de mundo são examinadas com o objetivo de descrever as diferenças entre os diversos grupos. E o conceito de apanjaht, visto sob a perspectiva do fato social total, torna inteligível a noção de sociedade plural, o insucesso de se estabelecer o nacionalismo nos moldes ocidentais, a aversão à mestiçagem cultural e a participação diferenciada dos membros dos grupos étnico-culturais na sociedade mais inclusiva. Mas, se, por um lado, as múltiplas narrativas, assim como as diferentes visões de mundo exaltam a pluralidade cultural, por outro lado, elas revelam que a construção do Estado surinamês, neste momento, se firma na invenção de uma "comunidade imaginada plural". O país parece não ter inventado tradições que fundamentem uma nação homogênea, o que pode ser interpretado tanto como um estágio inicial da formação do Estado-nação surinamês quanto como um modo particular de conceber o Estado-nação que enfatiza, por meio da dinâmica simbólica do apanjaht, a agregação dos diferentes preservando suas fronteiras étnico-culturais.

Número: 60
Título: Paradoxos da Autodeterminação: a construção do Estado-nação e práticas da ONU em Timor Leste
Autor: Kelly Cristiane da Silva
Ano: 2004
Orientador: Mariza G.S. Peirano

RESUMO:
Timor-Lete é o mais novo país do mundo, cujo processo de construção do Estado nacional tem sido considerado exemplar por certa parcela da comunidade internacional. Esta tese trata do processo de formação do Estado-nação, em Timor-Leste, por meio da análise do campo de relações que se forma em torno da edificação do funcionalismo local. Adota-se uma perspectiva micro-etnográfica e sincrônica, mediante a qual são colocadas em perspectiva as ações dos parceiros do desenvolvimento de Timor-Leste, em especial a ONU e a cooperação portuguesa, e as disputas entre os diferentes grupos das elites locais. As práticas e discursos existentes no país em torno do desenvolvimento de capacidades dos servidores públicos permitem-nos compreender vários fenômenos: a) faces do modus operandi, dos valores e dos registros simbólicos que circulam no campo da cooperação técnica internacional; b) tensões e ambiguidades que constituem as práticas das Nações Unidas; c) implicações dos projetos de desenvolvimento para a construção do Estado-nação e d) disputas entre as agendas de construção nacional existentes no seio da sociedade timorense.

Número: 61
Título: Cativando Maira: a sobrevivência Avá-Canoeiro no Alto Rio Tocantins
Autor: Cristhian Teófilo da Silva
Ano: 2005
Orientador: Stephen Grant Baines

RESUMO:
Esta etnografia busca compreender as representações e práticas dos avá-canoeiros sobre um contexto de dominação específico. A situação histórica dos avá-canoeiros será abordada como uma situação extrema decorrente da implementação de um regime tutelar exercido para assegurar a sobrevivência dos avá-canoeiros enquanto uma etnia "em vias de extinção". O presente trabalho inscreve-se assim em uma tradição de pesquisas etnográficas de casos particulares sobre o índio sob tutela. Seu objeto pode ser definido como os mecanismos de transformação dos avá-canoeiros em "índios" ou objetos do poder tutelar, bem como a acomodação dos avá-canoeiros a estes mecanismos e estes a eles. A tese será dividida como segue: 1) revisão crítica da literatura antropológica recente sobre os avá-canoeiros, 2) discussão teórica sobre a importância das relações de poder para a compreensão da vida social dos avá-canoeiros sob tutela, 3) histórico do contato, 4) etnografia da cena tutelar, e 5) conclusão mediante considerações críticas sobre as noções paternalistas de tutela para os avá-canoeiros e a responsabilidade dos antropólogos diante das políticas indigenistas e das demandas políticas dos índios.

Número: 62
Título: As Donas da Palavra: Gênero, Justiça e a Invenção da Violência Doméstica em Timor-Leste
Autor: Daniel Schroeter Simião
Ano: 2005
Orientador: Luís Roberto Cardoso de Oliveira
Tese62

RESUMO:
O processo de construção recente do Estado-nação em Timor-Leste tem proporcionado um contexto de múltiplos discursos acerca da modernização, dos quais um dos mais elaborados diz respeito a narrativas de gênero. Organizado por uma parcela da elite local, em parceria com instituições do mundo globalizado (ONU e ONGs internacionais), um discurso fundado na igualdade de gênero vem criando uma nova moralidade para dar significado aos atos de agressão física intrafamiliar. Gestos de outra maneira percebidos como naturais, passam a ser lidos como atitude de violência e categorizados como "violência doméstica". A invenção desta nova categoria no cotidiano timorense, em especial na capital do país, vem criando uma situação de conflito de novo tipo, para a resolução da qual é preciso instituir uma arena própria de negociação: um sistema de justiça de Estado que aparentemente se opõe às arenas locais de resolução de disputas. Esta tese analisa o processo de instituição desta arena em relação à invenção da "violência doméstica", entendo tal processo como de negociação de uma esfera pública e formação de uma sociedade civil. Ao mesmo tempo, é um espaço para emergência de usos múltiplos do gênero e da justiça no país, em que princípios e valores de diferentes origens são evocados pela população para negociar o sentido de uma resolução equânime de seus conflitos.

Número: 63
Título: Modernos e Rústicos: Tradição, Cantadores Nordestinos e Tradicionalistas Gaúchos em Brasília
Autor: Patricia Silva Osório
Ano: 2005
Orientador: Roque de Barros Laraia

RESUMO:
Esta tese é um estudo comparativo entre as dinâmicas de duas instituições, localizadas na capital do país: a Casa do Cantador e o Centro de Tradições Gaúchas Jayme Caetano Braun. Os fomentadores das práticas sociais estabelecidas nesses espaços se autodenominam cantadores nordestinos e tradicionalistas gaúchos. Em suas instituições, eles resgatam e atualizam manifestações culturais identificadas com seus contextos de origem. Por um lado, estamos diante de uma possível análise sobre processos migratórios. No entanto, à medida que essas pessoas vão se fixando no cenário da capital, seus Centros de Tradições funcionam não apenas como uma estratégia de adaptação ao lugar de destino. Fazer parte da Casa do Cantador e do CTG Jayme Caetano Braun pode fornecer ao indivíduo o sentimento de pertença a um grupo. Nesses espaços são tecidos laços sociais, formas de convivência e de reciprocidade em situações urbanas.

Número: 64
Título: Cosmologia Sanumá: O Xamã e a Constituição do Ser
Autor: Silvia Maria Ferreira Guimarães
Ano: 2005
Orientador: Alcida Rita Ramos

RESUMO:
Esta etnografia sobre os sanumás, subgrupo yanomami do alto rio Auaris, estado de Roraima, explora os aspectos mais centrais de sua vasta e complexa cosmologia. Para tanto, discutem-se noções relativas à pessoa, ao seres não humanos e ao xamanismo que, juntas, revelam dois grandes temas: o metamorfismo, processo de formação do cosmos e dos seres baseado na transformação contínua por que estes passam, e a fisicalidade do ser, que se refere à capacidade xamânica de transformar em realidade concreta os seres e situações de outras dimensões que não são perceptíveis aos sentidos dos não xamãs.

Número: 65
Título: Cosmologias Políticas e Neocolonialismo: como uma política pública pode se transformar em uma política do ressentimento
Autor: Ronaldo Joaquim da Silveira Lobão
Ano: 2006
Orientador: Luís Roberto Cardoso de Oliveira
Tese65

RESUMO:
Nesta tese construo uma trajetória para as Reservas Extrativistas Marinhas enquanto uma política pública. Construídas a partir da luta dos seringueiros do Acre, as Reservas Extrativistas constituíram-se em um lócus onde diversos sentidos e ideologias estão em permanente tensão. Procuro mostrar que, ao longo da trajetória da política pública conquistada, vários de seus significados originais foram sendo subsumidos em outros, bastante diversos. Sugiro que as Reservas Extrativistas foram enredadas em uma nova cosmologia política, onde novas percepções e significações sobre o tempo e o espaço colocam os grupos locais em uma posição tutelada ou subalterna. Denomino esta nova configuração como Cosmologia Política do Neocolonialismo. Sob o domínio desta nova cosmologia eclode uma nova política, a do Ressentimento, uma vez que os grupos locais envolvidos com a política vêem-se alvos de atos de desconsideração de várias ordens. São convidados a ingressar em um novo universo cognitivo, mas desde que o façam de forma subalterna, sem poder tornar-se senhores de seus próprios destinos. Os instrumentos mais comuns neste aprisionamento são a construção de identidades de fora para dentro, a ressignificação de seus lugares como Unidades de Conservação ou Áreas Protegidas sob a égide do Meio Ambiente e submissão aos ditames do Desenvolvimento Sustentável.

Número: 66
Título: Ainda Estamos Vivos: uma etnografia da saúde Sanumá
Autor: Rosangela de Sousa Biserra
Ano: 2006
Orientador: Alcida Rita Ramos
Tese66

RESUMO:
Esta etnografia da saúde Sanumá, subgrupo Yanomami mais setentrional, busca entender as várias nuanças do processo saúde/doença na região do alto rio Auaris. Suas muitas facetas conduzem a vários tópicos - a compreensão do corpo e seu funcionamento, os agentes que o agridem e as formas de tratamento - sejam eles dados pela medicina tradicional ou pela biomedicina, o que leva a explorar o funcionamento do sistema de saúde Sanumá, incluindo tanto as atividades da equipe médica ocidental quanto dos médicos tradicionais, os xamãs. Dentre vários temas, a tese aborda um plano geral de todos os atores e ações que compõem a saúde Sanumá.

Número: 67
Título: Etnografia, Modernidade e Construção da Nação: Estudo a partir de um Culto Afro-Brasileiro
Autor: Daniela Cordovil Correa dos Santos
Ano: 2006
Orientador: Roque de Barros Laraia
Tese67

RESUMO:
Essa tese trata de uma dificuldade presente na antropologia da religião brasileira desde seus primeiros estudos: a relação entre a discussão sobre religiões afro-brasileiras e a preocupação de intelectuais brasileiros com o problema da construção da nação e da nacionalidade. Durante um século de debates sobre cultos afro-brasileiros, muitos autores têm argumentado a partir de uma perspectiva que toma a modernidade como ponto de referência. Na maioria das vezes, simplesmente lamentam-se de que as culturas nativas não se constroem tendo essa modernidade como valor central. Por outro lado, nossas culturas nativas parecem ter se produzido num movimento de resistência aos valores da modernidade, o que é interpretado pelos intelectuais brasileiros como sintoma de atraso. A partir do contraste entre a realidade etnográfica e as perspectivas teóricas usuais, sugiro as vantagens da utilização de referenciais teóricos alternativos, onde os valores modernos não sejam considerados um objetivo a ser alcançado pelas populações estudadas. Palavras-Chave: etnografia, modernidade, nação, religiões afro-brasileiras.


Número: 68
Título: Os cocaleros do Chapare: coca, cocaína e políticas internacionais antidrogas na Bolívia
Autor: Rosinaldo Silva de Sousa
Ano: 2006
Orientador: Gustavo Lins Ribeiro

RESUMO:
Ao longo desta tese meu interesse foi descrever a capacidade que agentes poderosos têm para transformar e determinar relativamente o campo de possibilidades dos indivíduos em países com inserção subordinada no sistema internacional. Mais especificamente, descrevi alguns dos resultados da política internacional antidrogas na atividade cotidiana das pessoas relacionadas ao cultivo de coca no Chapare, região boliviana onde realizei pesquisa de campo. Procurei demonstrar, em relato etnográfico e histórico, de que maneira a extensa legislação antidrogas pode ser considerada para se compreender o presente da Bolívia, desde que se leve em conta nessa explicação a história e culturas locais. Particularmente, argumentei que jamais compreenderemos o que acontece com as pessoas nessa região produtora de coca, se não levarmos em consideração as idéias características do Ocidente sobre consumo de drogas e sua maneira de lidar com elas. Palavras-chaves: Bolívia, folha de coca, cocaína, drogas, políticas internacionais antidrogas.


Número: 69
Título: O cinema brasiliense em uma narrativa antropológica
Autor: Ariana Timbó Mota
Ano: 2006
Orientador: Eurípedes da Cunha Dias
Tese69

RESUMO:
Nesta tese, procedeu-se a uma caracterização do cinema brasiliense enquanto uma importante realidade artístico-cultural do Distrito Federal, através da abordagem de aspectos considerados constituintes do passado e do presente deste cinema. A pesquisa realizada para este estudo permitiu a adoção da perspectiva segundo a qual o cinema brasiliense teve início com filmagens da construção de Brasília e continuou a existir desde então até os dias atuais. Para a comprovação do caráter verossímil desta perspectiva, na qual este cinema aparece enquanto uma atividade presente ao longo da existência de Brasília, foi feita uma narrativa linear, com base em diferentes fontes. Em tal narrativa, analisaram-se objetivações do cinema brasiliense a fim de interpretar significados assumidos por este a partir do recorte dele feito aqui.

Número: 70
Título: As Raizes da Congada: a renovação do presente pelos Filhos do Rosário
Autor: Patricia Trindade Maranhão Costa
Ano: 2006
Orientador: Wilson Trajano Filho
Tese70

RESUMO:
Em Serra do Salitre-M.G, realizam-se periodicamente festas religiosas em louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Nesses momentos, a parcela pobre e negra da população local se reúne em coloridos congados que tomam conta das ruas e praças da cidade tocando, dançando e cantando versos em louvor aos referidos santos. Eles perpetuam, assim, uma maneira específica de devoção herdada do cativeiro. A presente tese analisa, portanto, esse grupo social subordinado através de uma manifestação da sua cultura popular. Procura, dessa forma, entender a congada como estratégia de sobrevivência que ajuda seus praticantes a lidar com a pobreza e com a discriminação que os afeta. Em uma busca por reconhecimento social, os congadeiros abrem a memória da escravidão e demonstram que o cativeiro lembrado pela congada promove a reconciliação com esse passado traumático ao recordar e atualizar a aparição de N. Sra do Rosário para os negros cativos. Tal lembrança encerra um potencial contestador das desigualdades sociais, revelando ser possível encontrar no imaginário da escravidão elementos que possibilitem a elaboração de uma cosmologia sócio-cultural onde o negro e/ou o descendente de escravos aparece de forma positiva e socialmente reconhecida.

Número: 71
Título: Tão Longe, Tão Perto: organização familiar e emigração feminina na Ilha da Boa Vista - Cabo Verde
Autor: Andrea de Souza Lobo
Ano: 2007
Orientador: Wilson Trajano Filho
Tese71

RESUMO:
A organização familiar da Boa Vista guarda especificidades interessantes no que concerne à posição da mulher e do homem na esfera doméstica, das relações entre gerações, das relações de vizinhança e de consangüinidade. Além disso, a emigração feminina faz parte do contexto desta ilha do arquipélago de Cabo Verde trazendo desafios para manutenção e reprodução dos laços familiares nas chamadas "famílias espalhadas". Este é um estudo que tem como objetivo a compreensão desta sociedade crioula tomando estes dois aspectos fundamentais, a organização familiar no contexto da emigração feminina. Temas centrais da antropologia são tratados em profundidade, tais como a conjugalidade, consangüinidade, relações geracionais, a lógica interna de um sistema cultural e a emigração.


Número: 72
Título: Etnozoneamento, Etnomapeamento e Diagnóstico Etnoambiental: Representações Cartográficas e Gestão Territorial em Terras Indígenas no Estado do Acre
Autor: Cloude de Souza Correia
Ano: 2007
Orientador: Henyo Trindade Barretto Filho
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RESUMO:
Ao longo de séculos os mapas foram produzidos e utilizados por grupos dominantes como componentes intrínsecos de processos de conquistas territorial e social. Isto fica visível na história da cartografia acreana que produziu diversos mapas para a delimitação das fronteiras internacionais e estaduais. Apenas recentemente, o amplo conhecimento dos povos indígenas que habitavam a região passou a ser contemplado nos mapas, por meio de mapeamentos participativos, como o etnozoneamento da Terra Indígena Mamoadate, o etnomapeamento da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia e o diagnóstico etnoambiental da Terra Indígena Nawa. Esses instrumentos de planejamento procuram fornecer subsídios para a gestão territorial em terras indígenas a partir da produção e uso de informações descritivas e mapas temáticos - hidrografia, vegetação, caça, pesca, extrativismo, invasão, histórico, ocupação humana, entre outros. A partir da minha implicação nessas três iniciativas e das diversas fontes acessadas e informações produzidas, efetuo neste trabalho uma abordagem antropológica das três experiências suprareferidas - etnozoneamento, etnomapeamento e diagnóstico etnoambiental - com o intuito de compreender o processo de produção e uso de mapas - tidos como instrumentos de saber-poder - para a gestão territorial em terras indígenas. Concluo que os mapas continuam atrelados a formas de dominação, mas agora como componentes da ideologia do desenvolvimento sustentável. Não obstante, nesse contexto, mesmo os mapas compondo tecnologias disciplinares e regulamentadoras, os povos indígenas são alçados a condição de sujeitos da sua produção utilizando-os como mecanismos liberatórios em dadas circunstâncias.


Número: 73
Título:Wyty-Catë: cultura e política de um movimento pan-Timbira. Contribuição ao entendimento das organizações indígenas e novas expressões da política indígena.
Autor: Jaime Garcia Siqueira Júnior
Ano: 2007
Orientador: Henyo Trindade Barretto Filho
Tese73

RESUMO:
O objeto deste estudo é a análise das representações e práticas dos grupos Timbira em torno da Associação Wyty-Catë das Comunidades Timbira do Maranhão e Tocantins. Observo como se constituem as relações de alteridade e busca de unidade entre esses grupos Timbira, frente a outros grupos indígenas e aos não-índios com os quais se relacionam num campo político intersocietário. Analiso principalmente a perspectiva dos grupos que a integram em relação às possibilidades de construção e mediação de uma unidade pan-Timbira e o papel desempenhado por aqueles que poderiam ser chamados de representantes desses grupos na associação. Eles lidam com os dilemas do "projetismo" e da "modernização da indianidade" e atuam como "intermediários" entre essas transformações colocadas pelo mundo dos cupen (não-índios) e a "tradução" disso para o mundo dos mehin (índios Timbira). Tratam-se de atores diversos, constituídos tradicionalmente no contexto das relações internas dos Timbira; e que assumem o discurso de uma "timbiridade" no contexto das relações interétnicas, com o Estado e com outros agentes indigenistas não-governamentais. Esse papel pode ser entendido em duplo sentido: na incorporação de novos elementos e construção de discursos e práticas inovadores em relação à organização política tradicional dos grupos Timbira; e na incorporação e adaptação de elementos culturais específicos desses grupos aos objetivos e à estrutura formal da sua organização associativista, ajudando-nos a investigar até que ponto vem ocorrendo uma "indigenização da modernidade", por meio da apropriação cultural e política da Associação Wyty-Catë feita pelos Timbira. Vale destacar ainda a participação do antropólogo nesse processo, enquanto mediador de um programa de intervenção de uma ONG indigenista, coordenador de GTs da Funai e chefe honorário "adotado" pelos Timbira.

Número: 74
Título: A Nação na Escola. Frentes políticas na cena "neutra" da escola argentina.
Autor: Diana Judith Milstein
Ano: 2007
Orientador: Rita Laura Segato
Tese74

RESUMO:
A educação pública escolar é uma das arenas políticas mais importantes na Argentina. Paradoxalmente, a idéia de neutralidade política da escola foi uma das condições básicas para que a ação escolar tivesse uma relativa eficácia e uma percepção coletiva de eqüidade. O quebrantamento desta idéia e o crescente desprestígio da educação pública escolar, produzidos em grande parte pelo processo de fragmentação do Estado e de crise social e econômica acentuados desde meados da década de 90, fizeram emergir um processo de politização inédito na tradicional escola primária. Organizei esta etnografia em torno do relato dramático de quatro episódios que mostram em detalhe as formas de fazer e estar na política que confluem na escola. Desse modo descrevo a existência de três formas de intervenção política na cotidianidade escolar, que configuram frentes nas quais diversos setores da sociedade nacional aparecem representados e em disputa na vida escolar. Esta descrição permite entender melhor os vínculos entre a fragmentação do Estado e a percepção coletiva de desprestígio e desestruturação das escolas públicas, assim como as tentativas parciais de recomposição que surgem dos próprios atores escolares no devir político das instituições.

Número: 75
Título:Baianas do Acarajé: a uniformização do típico em uma tradição culinária afro-brasileira
Autor: Gerlaine Torres Martini
Ano: 2007
Orientador: José Jorge de Carvalho
Tese75

RESUMO:
Este trabalho analisa a tradicional venda de acarajé na cidade de Salvador, um ofício feminino secular que se originou nas práticas votivas dos cultos afro-brasileiros. Também busca examinar as relações entre as vendedoras e os poderes públicos ou os confrontos mais recentes delas com as novas correntes evangélicas das igrejas neopentecostais, que terminaram levando o acarajé a um processo de uniformização e ao registro como patrimônio imaterial nacional brasileiro.

Número: 76
Título: Entre Gangues e Galeras: juventude, violência e sociabilidade na periferia do Distrito Federal
Autor: Carla Coelho de Andrade
Ano: 2007
Orientador: Wilson Trajano Filho
Tese76

RESUMO:
Compreender os campos de sentido que dinamizam as experiências de jovens integrantes de galeras ou grupos genericamente definidos como "gangues", enleados em atividades ilícitas e atos de violência, foi a motivação impulsionadora do presente estudo. De modo mais específico, centrei meu interesse nos modos de interação, práticas e valores desses jovens, instigada pela seguinte questão: que lugar a violência ocupa como campo propulsor de experiências nas suas vidas? Como terreno de observação, tomei a periferia de Brasília, onde moram jovens de camadas populares. O eixo norteador de meu estudo não foi o entendimento de causas da violência. Procurei, de modo distinto, delinear conteúdos culturais que estão na base do seu exercício e situar essa violência dentro do sistema de relações sociais dos jovens. Preocupei-me em tentar perceber a relação dos jovens com o mundo, seus valores, suas representações de si e do outro, numa perspectiva sócio-antropológica que considera a globalidade de seu modo de vida e que procura a compreensão dos significados que eles próprios dão às suas práticas e crenças. Desse modo, ainda que interessada na violência das gangues, não me detive unicamente no comportamento dos jovens no interior desses grupos, mas tentei explorar uma variedade de dimensões que atravessam e dinamizam a experiência de participação dos jovens nas gangues, localizando-as em diferentes planos de entendimento e relações.

Número: 77
Título: Senhores e Possuidores Livres e Desembargados: a liberdade antecipada e o uso solidário da Terra em Espinho
Autor: Miriam Virginia Ramos Rosa
Ano: 2007
Orientador: Eurípedes da Cunha Dias
Tese77

RESUMO:
Este trabalho apresenta o processo de construção do sujeito negro proprietário de terras em Espinho, no município de Gouveia, Minas Gerais. Ainda no século XIX, membros de uma família adquiriram parcelas de terra mediante compra; terras que hoje constituem o território de Espinho. A propriedade da terra é privada, mas o uso dessa terra é feito de modo solidário, mostrando uma forma alternativa de apropriação agrária. A pesquisa etnográfica revelou, dentre vários aspectos, que a comunidade possui estratégias de enfrentamento do preconceito étnico a que os habitantes estão submetidos. Tais estratégias baseiam-se na ludicidade, na hospitalidade e em narrativas míticas que lhes auxiliam na construção de uma postura assertiva. Além disso, este trabalho também reflete sobre a temática quilombola e pretende colaborar na percepção da diversidade da experiência quilombola no país.

Número:78
Título: Em Nome do Patrimônio: Representações e Apropriações da Cultura na Cidade de Goiás
Autor: Izabela Maria Tamaso
Ano: 2007
Orientador: Klaas Axel A.W. Woortmann
Tese78

RESUMO:
Esta tese apresenta o processo de patrimonialização da cidade de Goiás (GO), no decorrer da segunda metade do século XX, tendo como marco inicial os primeiros tombamentos efetuados pela Secretaria de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) durante a década de 1950 e findando no momento da outorga do título de patrimônio mundial em 2001, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Fontes documentais (jornais e processos de tombamento) somadas à etnografia permitiram identificar as representações e as apropriações dos vilaboenses de seus bens culturais (lugares, edificações, objetos, celebrações etc.) e das políticas e práticas engendradas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Este trabalho realiza uma antropologia do sistema patrimonial da cidade de Goiás à medida que (1) analisa o debate cultural que tem efeito por meio das estratégias e táticas acionadas pelos agentes do patrimônio e pelos moradores da cidade, no que tange aos patrimônios privados, públicos e religiosos; (2) interpreta as contradições e os conflitos inerentes às práticas de preservação dos patrimônios, sobretudo com relação às ações de tombamento e às obras de restauro; (3) descreve e analisa as fronteiras e as exclusões operadas pelo processo de patrimonialização, o qual colaborou sobremaneira para a cisão da área urbana em centro histórico e periferia; (4) analisa especialmente as ações de apropriação e expropriação empreendidas em nome do patrimônio tanto por agentes locais quanto externos à cidade; (5) apresenta o cotidiano, as festas e as celebrações dos vilaboenses circunscritos às políticas e práticas patrimoniais. A observação do debate cultural na prática social permitiu identificar os contrastes entre os ideais históricos e estéticos da burocracia estatal (IPHAN), dos agentes internacionais (International Council on Monuments and Sites - ICOMOS e UNESCO) e dos agentes locais do patrimônio (elite cultural) de um lado e de outro, as histórias pessoais e familiares incrustadas em ruas e becos, pontes e largos, paredes de taipa, adobe ou pau-a-pique das residências da antiga Vila Boa de Goiás.

Número: 79
Título: O Arpão e o Anzol: Técnica e Pessoa no Estuário do Amazonas (Vila Sucuriju, Amapá)
Autor: Carlos Emanuel Sautchuk
Ano: 2007
Orientador: Lia Zanotta Machado
Tese79


RESUMO:
O presente estudo aborda a pesca enquanto modo de construção da pessoa, refletindo sobre a relação entre o técnico e o humano numa perspectiva monográfica. A etnografia enfoca dois grupos de pescadores que habitam a Vila Sucuriju. Os laguistas dedicam-se à predação do pirarucu (Arapaima gigas) em lagos, onde o acoplamento do arpão e da canoa ao pescador e a relação intersubjetiva com os animais são primordiais. Eles se formam através de um longo processo de protetização do corpo, que é condição para a interação pessoa a pessoa com o peixe. Já os pescadores de fora atuam na região costeira, onde tripulam barcos a motor e agem em coordenação com a maré e o espinhel (linha com centenas de anzóis) para capturar a gurijuba (Arius parkeri). Seu prestígio está ligado à demonstração de coragem para enfrentar os perigosos movimentos do anzol e à vontade para suportar a árdua integração na dinâmica a bordo. Estabelecendo relações distintas entre pescadores, artefatos e ambiente, as pescas lacustre e costeira estão associadas a modalidades próprias de subjetivação, incluindo corpos, habilidades e modos de socialidade específicos (formas de reciprocidade, socialização das crianças, participação nas festividades, organização do espaço doméstico etc.). Tomando a relação entre o técnico e o humano numa perspectiva genética, em diálogo com Mauss, Leroi-Gourhan e Latour, e conferindo importância à prática, conforme as antropologias ecológicas de Descola e Ingold, este estudo examina em detalhe o fato que, para além da eficiência produtiva e do domínio de um saber-fazer, o engajamento em atividades técnicas implica configurações particulares da pessoa.

Número: 80
Título: A ética Ye´Kuana e o espírito do empreendimento
Autor: Karenina Vieira de Andrade
Ano: 2007
Orientador: Alcida Rita Ramos
Tese80

RESUMO:
A tese analisa de que maneira o modo de vida Ye'kuana os leva à inserção no mundo capitalista, que está muito além do simples acesso a bens industrializados. Inspirada pelo clássico trabalho de Max Weber sobre a confluência de ideais capitalistas e a ética protestante, parto para a análise da ética Ye'kuana, através do ciclo de histórias Wätunnä, verdadeiro código de conduta ye'kuana, que narra eventos do passado atemporal, mas também contém o que chamo de "profecia", que narra o futuro do povo Ye'kuana e preconiza sua morte cultural, estágio necessário antes do início de um novo ciclo, que reserva aos Ye'kuana a posição de líderes e detentores de todo conhecimento (inclusive tecnológico) existente. Essa ética, revelada pela análise do ciclo de histórias wätunnä e pelos rituais, e ainda pelos tipos ideais Ye'kuana, recurso metodológico por mim utilizado, informa as incursões Ye'kuana nesse mundo da lógica do mercado. O caráter fatalista da profecia de wätunnä confere agencialidade plena aos Ye'kuana, que optaram por assumir seu destino e passaram a desenvolver estratégias para lutar em defesa de seu ethos com as mesmas ferramentas que simbolizam o seu fim. Esse aparente paradoxo emana da própria natureza de wätunnä que, embora decrete a morte cultural dos Ye'kuana, os incita a se preparar para o renascimento, fazendo jus à posição que ocuparão no novo ciclo. É com esse 'espírito' que os Ye'kuana se envolvem nas relações comerciais com os brancos e, mais recentemente, com a escola. Ambas - relações de comércio e escola - são fontes de aquisição daquele conhecimento que julgam necessário para sobreviver à força da sua própria profecia.

Número: 81
Título: De Bonecos, Flores e Bordados: Investigações Antropológicas no Campo do Artesanato em Brasília
Autor: Aline Josiane Sapienzinskas Krás Borges Canani
Ano: 2008
Orientador: Roque de Barros Laraia
Tese81

RESUMO:
Esta tese constitui uma investigação antropológica sobre o campo do artesanato em Brasília. O trabalho de campo incluiu a frequentação dos grupos "As Costureiras do Varjão", as "Bordadeiras de Taguatinga Flor do Ipê" e "Flor do Cerrado", de Samambaia. Incentivados e apoiados pelo SEBRAE, os grupos de artesãs estão ligados a projetos de desenvolvimento local e geração de renda. Analisa-se também o papel desempenhado pela Instituição propositora de tais iniciativas, o SEBRAE, procurando revelar as estratégias desse órgão de parceria público-privada na formação dos grupos e na construção de referenciais identitários brasilienses, bem como o processo de produção artesanal e suas ressignificações até o mercado consumidor.


Número: 82
Título: Os Gurutubanos: Territorialização, produção e sociabilidade de um quilombo norte-mineiro
Autor: Aderval Costa Filho
Ano: 2008
Orientador: Ellen F. Woortmann
Tese82


RESUMO:
Esta tese aborda o povo Gurutubano, mais especificamente uma comunidade quilombola que vive no vale do rio Gorutuba - no centro norte de Minas Gerais - desde o século XVIII, vitimada por um brutal processo de expropriação territorial e de direitos deflagrado no século XX, mais precisamente nos anos 50, e intensificado com a chegada da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE, a partir da década de 70. O meu objetivo primordial é investigar esta comunidade, enfatizando suas formas de sociabilidade que se manifestam na construção do território, na construção da produção, na construção de articulações políticas com demais categorias identitárias regionais, agentes governamentais e não governamentais, agentes econômicos, num contexto marcado pela descontinuidade territorial e recursos naturais e simbólicos em fenecimento. Analiso as formas de sociabilidade ligadas à constituição do social, não excluindo, por outro lado, os riscos de dissolução. Demonstro como, subtraídas grande parte das condições de reprodução social do grupo, tanto as condições de ordem ambiental quanto sócio-econômica, esta comunidade resiste, explicitando recursos e estratégias acionados para assegurar a permanência e atualização de suas formas sociais. Trabalho, pois, este paradoxo central que é a reprodução social num contexto de dissolução, associado à emergência de uma comunidade negra rural como "remanescente de quilombo".

Número: 83
Título: Identidades Fluídas: ser e perceber-se como Baré (Aruak) na Manaus Contemporânea
Autor: Juliana Gonçalves Melo
Ano: 2009
Orientador: Paul Elliott Little
Tese83

RESUMO:
A tese apresenta um panorama sobre a recente retomada da identidade Baré (Aruak), Índios originários do rio Negro, Amazonas. Busco responder às seguintes questões: Afinal quem são os Baré? Ainda existe como um coletivo indígena? Estas questões ineressam aos próprios Baré, grupo bastante invisibilizado na Etnologia brasileira e considerado extinto em 1979 e, para respondê-las, apoio-me na literatura sobre o grupo, ando ênfase às suas próprias narrativas. Como metodologia, opto pela análise de histórias de vida de um pequeno grupo Baré, hoje inserido na cidade de Manaus. O que têm a dizer sobre o debate? O que pensam sobre sua identidade? Sobre sua condição de “índios da cidade”? Ao escutá-los, revela-se uma noção de identidade essencialmente fluida e dada a transformações constantes já que construída na interação com o “outro” e transformação do “outro” em identidade, fato que, inclusive, os transformou nos “índios brancos”. A intenção da pesquisa, justamente, é descrever o processo.


Número: 84
Título: Os Gerais a fora a dentro: identidade e territorialidade de sua gente
Autor: Mônica Celeida Rabelo Nogueira
Ano: 2009
Orientador: Paul Elliott Little
Tese84

RESUMO:
Geraizeiros são chamados os camponeses da porção de Cerrado no Norte de Minas Gerais – paisagem que teve grande parte de sua extensão convertida em maciços de eucalipto, a partir da década de 1970. O plantio empresarial de eucalipto implicou em expropriação de terras comunais e grande impacto ambiental, com a redução da oferta de água, frutos nativos, ervas medicinais e madeira - recursos estratégicos para reprodução física e social dos Geraizeiros. Em aliança com sindicatos de trabalhadores rurais, entidades ligadas à Igreja Católica, organizações não governamentais (ONGs) e redes socioambientais, como a Rede Cerrado, os Geraizeiros, hoje, reagem à violência sofrida, denunciam o caráter predatório do monocultivo de eucalipto e reivindicam o reconhecimento de seus direitos territoriais enquanto população tradicional. O presente estudo representa um esforço de interpretação desse processo. Advogo que a identidade e a territorialidade geraizeiras têm se transformado a partir dos confrontos com a monocultura de eucalipto, mas também com base nas novas interações sociais mobilizadas pelo grupo em diferentes escalas – regional, nacional e internacional. A pesquisa pretendeu, assim, deslindar o processo de seleção de traços culturais que vêm sendo enfatizados e transformados em critérios de consignação ou de auto-identificação dos Geraizeiros como um grupo culturalmente particular e vinculado ao Cerrado de maneira especial e politicamente relevante. Pareceu-me ainda pertinente considerar a construção da própria categoria “populações tradicionais” como uma nova categoria englobante e genérica (e, desse modo, semelhante às categorias “índio” e “quilombola”), com potencial para propiciar processos de re-organização social da diferença cultural e de afirmação de direitos. Nesse sentido, interessou-me, sobretudo, compreender a agência dos Geraizeiros (como sujeitos de vontade e ação), que no processo de re-elaboração de sua identidade - agora, como uma população tradicional do Cerrado - lançam mão (ou apropriam-se) de novos elementos à disposição, para re-significar sua própria história e relações com a paisagem, atualizando fronteiras identitárias e territoriais.

Número: 85
Título: Véhn Jykré e Ke han Há He: permanência e mudança do sistema jurídico dos Kaingang noTibagi
Autor: Luciana Maria de Moura Ramos
Ano: 2009
Orientador: Paul Elliott Little
Tese85

RESUMO:
A tese consiste em uma reflexão etnográfica e histórica sobre a “juridicidade” Kaingang, entendida como percepção, prática e senso de justiça culturalmente construído, e sobre o “sistema jurídico” dos Kaingang situados nas cinco terras indígenas existentes na bacia do rio Tibagi. Seu sistema jurídico é tratado, aqui, enquanto estrutura simbólica e organizacional que, em meio às constantes mudanças desencadeadas pelo processo cultural próprio da etnia, assim como pelo processo histórico desencadeado pelas relações interétnicas com a sociedade nacional abrangente, com poder de se impor face às práticas Kaingang, permanece como organizador da estrutura sócio-simbólica e como fornecedor do acervo básico de sentidos para os Kaingang no presente

Número: 86
Título: Travessia de Banzeiros. Historicidade e organização sociopolítica Apiaká
Autor: Giovana Acácia Tempesta
Ano: 2009
Orientador: Alcida Rita Ramos

Tese86

RESUMO:
O presente estudo trata das concepções apiakás sobre a mudança histórica e articula as categorias sociais nativas à atual organização sociopolítica e à formulação da identidade étnica. Os apiakás sofreram os efeitos devastadores da frente da borracha na região dos rios formadores do Tapajós, mas conseguiram se restabelecer como povo diferenciado. A categoria “misturados”, central para a auto-imagem apiaká, articula-se à formação comunitária contemporânea e constitui o princípio organizativo que impulsiona a luta do povo por fazer conhecer sua história e por fazer respeitar seus direitos. A relação com o território estrutura a memória coletiva e fornece uma perspectiva de futuro. A apreensão dos contornos da historicidade apiaká e a análise da organização sociopolítica atual revelam a intensidade da resiliência que eles partilham com a maioria dos povos indígenas da América Latina.

Número: 87
Título: A Poética do Improviso: prática e habilidade no repente nordestino
Autor: João Miguel Manzolillo Sautchuk
Ano: 2009
Orientador: Wilson Trajano Filho
Tese87


RESUMO:
O presente estudo aborda o repente ou cantoria, modalidade de poesia cantada e improvisada praticada na região Nordeste do Brasil, especialmente nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Seus praticantes são chamados de repentistas, cantadores ou violeiros e cantam sempre em dupla, alternando-se na composição de estrofes de acordo com parâmetros rígidos de métrica, rima e coerência temática. Há um conjunto de regras formuladas nesse sentido, mas os repentistas improvisam seus versos a partir de fundamentos práticos como o ritmo poético incorporado. O improviso coloca o repentista em relação com modelos estéticos como o ritmo da poesia, os padrões melódicos e as regras da cantoria, ao mesmo tempo em que o põe em diálogo com o outro cantador e com as demandas e reações da platéia. O improviso, portanto, não é apenas a criação poética, mas também o desenrolar de um jogo de interação dos poetas com os outros sujeitos na situação da cantoria. O elemento central da cantoria é a disputa entre dois cantadores, que se pauta em valores relativos à construção da masculinidade, e pela qual os poetas constroem sua imagem pessoal e seu prestígio. O caminho escolhido para a análise dessa arte é a antropologia da prática, buscando compreender a relação entre ação e estrutura, e a reprodução das formas da vida social por meio das práticas. Um ponto metodológico relevante na realização desta pesquisa foi o aprendizado da cantoria como estratégia etnográfica. Dessa maneira, são abordados o campo social da cantoria, a diferenciação e a reciprocidade entre cantadores, a formação do cantador, as habilidades do improviso poético e o ritual da disputa entre cantadores.

Número: 88
Título: "Rios de História": Guerra, Tempo e Espaço entre os Mura do Baixo Madeira (AM)
Autor: Marcia Leila de Castro Pereira
Ano: 2009
Orientador: Roque de Barros Laraia
Tese88

RESUMO:
O presente estudo aborda a construção da memória da guerra entre os Mura, que significa também, em grande medida, discorrer sobre os deslocamentos e os movimentos que são constitutivos tanto de suas narrativas quanto de um determinado ser Mura. A propósito da investigação da construção indígena Mura do espaço, vamos começar por considerar a variedade de significados atribuídos à lugares como forma de apreensão da própria história de deslocamentos deste grupo, num espaço outrora caracterizado como de lutas e enfrentamentos. Com este objetivo partimos do pressuposto da existência de uma cartografia indígena da guerra e com o objeto assim formulado, foi possível apreender como este grupo tem articulado, definido e transformado suas próprias idéias sobre o lugar que ocupam

 

 
 
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