Brasilmar Nunes & Naraina Kuyumjian  

 

 

 

A “SOCIOLOGIA” DE UM EDIFíCIO URBANO:
O CONIC NO PLANO PILOTO DE BRASÍLIA

Brasilmar Ferreira Nunes
(Professor-UnB/ Pesquisador – Cnpq)

Naraina de Melo Martins Kuyumjian
(Bolsista – IC)

 

APRESENTAÇÃO

Na redação do presente texto tivemos a oportunidade de estabelecer inúmeros contatos, sobretudo com comerciantes do lugar. Desses encontros, das conversas informais ocorridas, fomos formando, pouco a pouco, uma imagem sobre o Setor de Diversões Sul. Cabe destacar particularmente nossas discussões com o senhor Heitor Andrade, jornalista com escritório no edifício que, conhecedor dos meandros e da dinâmica, foi crucial para a escrita deste documento. O texto que segue pode ser considerado como um esboço de uma etnografia deste espaço, onde privilegiamos na perspectiva sociológica a representação do edifício dentro da cidade de Brasília.

ETNOGRAFIA DO CONIC

Fizemos inúmeras visitas ao edifício. Em uma delas, um sábado, chegamos ao SDS mais cedo para dar uma explorada com mais acuidade no prédio, caminhando pelas suas galerias comerciais procurando observar ritmo de pessoas da área.

Sábado de fato é um dia de menor movimento. As lojas, bares, livrarias estavam todas abertas, mas se sentia que o ritmo era um pouco mais lento. Talvez porque os compromissos de trabalhos e outros onde os dispêndios de tempo são mais urgentes estivessem restritas aos dias da semana de segunda às sextas-feiras. Além do mais, em se tratando de um horário matinal a clientela era absolutamente corriqueira num centro comercial onde existe uma variedade enorme de atividades comerciais. Transeuntes sem pressa, em vestimentas domingueiras, crianças junto aos pais caminhando num ritmo de fim de semana. O lugar, apesar de não apresentar lixos ou detritos espalhados pelas vias, não transmite aquele ar acético típico dos shoppings centers do Plano Piloto. Ao contrário, a impressão que causa é idêntica à que se sente quando se caminha pelas ruas de uma cidade. Visitas feitas e guiadas pelo nosso entrevistado, demonstram que há uma estratégia de transformar as pistas de pedestres mais parecidas àquelas dos shoppings, com a colocação de pisos em cerâmica ou granitos mais parecidos com os daqueles centros comerciais, talvez procurando atrair uma clientela de gosto mais dentro dos clichês típicos da classe média brasileira.

Uma primeira sensação que vem quando se caminha por suas ruelas é a diversidade de comércio com a presença marcante de algumas atividades em particular. Assim, entrando pela ala norte do CONIC no nível da rua, chama a atenção a variedade de óticas. São inúmeros os comércios de óculos, tanto para venda como para reparação. Entre uma e outra, esporadicamente se encontra um bar ou um boteco sem muita sofisticação com suas mesas e cadeiras de fórmica ou plástico, sem uma harmonia aparente. Observa-se também um número importante de salões de cabeleireiros, manicures, ou de estética em geral. Estes eram os mais procurados naquela hora da manhã, entre nove e onze horas, com clientelas em todos eles.

A par estas duas atividades comerciais e de prestação de serviços, o térreo do CONIC apresenta ao longo de suas ruelas e caminhos ares de um verdadeiro centro comercial com atividades as mais variadas, tais como, lojas de discos, roupas, sapatos, instrumentos musicais, fotos, fotocópias, etc. Chama a atenção a simplicidade das lojas sem nenhuma preocupação em parecerem sofisticadas numa clara indicação de que a clientela que para lá se dirige esta procurando mercadorias cuja necessidade vem antes de um status ou prestígio oferecido por comércios que trabalham com marcas ou grifes.

Chama a atenção ainda a existência de livrarias especializadas em ciências sociais, medicina e direito na ala sul do imóvel, além de um cinema com shows de strip tease e filmes pornográficos (cuja atividade acontecem a partir do meio dia indo até altas horas da noite), centros religiosos de cultos evangélicos. As livrarias são de excelente qualidade, com obras representativas de cada área acadêmica que trabalham. Visitei com mais cuidado a que oferece obras de ciências sociais e pude comprovar a excelente qualidade do acervo disponível, além do elevado domínio dos últimos lançamentos pelo seu proprietário. Destaca-se inclusive a erudição do mesmo que não só esta ciente dos últimos títulos no mercado como emite opiniões de obras e autores com bastante conhecimento de causa. Uma raridade em Brasília onde a disponibilidade de livrarias é precária e as que existem são absolutamente impessoais, funcionando mais como um supermercado de livros do que propriamente uma livraria cuja visita deveria ser, por si só, uma atividade prazerosa, tal e qual pensam os consumidores de obras impressas. A existência de inúmeros restaurantes com ares populares também chama a atenção, embora todos estivessem ainda se preparando para servir o almoço que só aconteceria mais tarde, estando, portanto vazios. Pelo aspecto simples e em se tratando de self-services devem atender a clientes com baixo poder aquisitivo ou com menor nível de exigência e sofisticação.

A distribuição do comércio pela área do imóvel obedece à lógica de localização de atividades comerciais em sítios urbanos tradicionais. Assim, há uma concentração de atividades em áreas próximas segundo a natureza do serviço ou do produto ofertado: lojas de materiais óticos situam-se na entrada norte do imóvel, as livrarias, na entrada sul, no centro espalham-se as roupas, discos, calçados, etc. num diversificado ambiente comercial. Os restaurantes se concentram mais aos fundos do prédio, onde também podem ser encontrados alguns estabelecimentos especializados, tais como instrumentos musicais, livrarias religiosas, sedes de partidos políticos, e fotocopiadoras. A frente para a praça externa aparece como uma espécie de vitrine daquilo que esta espalhado pelo interior do imóvel, ou seja, materiais fotográficos, óticas, roupas, livros e os bares um pouco mais sofisticados, faz claramente o papel de uma rua tradicional de cidade talvez uma das poucas do Plano Piloto.

O subsolo do edifício tem ar de espaço semi-abandonado: muitas lojas fechadas, vazias, alguns situados em becos com pouca luminosidade, aliás uma das particularidades de inúmeros edifícios da primeira fase da cidade. Num dos corredores foi aberta uma saída dando na lateral do prédio no nível da rodoviária, junto ao eixo monumental. As lojas que levam a esta saída já têm um comércio mais estruturado, vendendo os mais diferentes produtos, sem uma especialização particular. No geral, o subsolo transmite uma sensação de difícil acessibilidade. Para quem entra pela plataforma superior – a entrada oficial do edifício – não há indicações precisas para acessa-lo, sendo talvez esta a razão pela qual ,em outros momentos, foi o lugar preferido pelos marginais. O mesmo pode ser deduzido quando se olha a lateral sul do prédio ou a parte detrás do imóvel. Nesta há um estacionamento, e serve também para cargas e descargas de mercadorias. Esta parte detrás é, curiosamente a de maior visibilidade para quem olha o CONIC a partir do Setor Comercial Sul ou do Hotel Nacional, ou mesmo descendo o eixo monumental em direção à Esplanada dos Ministérios. Uma visibilidade esteticamente comprometedora, pois o bric-a-brac dos anúncios comerciais transmite a impressão de um imóvel sujo, sem regras ou administração. Claro que esta impressão é reforçada pela arquitetura clean do Setor Hoteleiro ou mesmo pela perspectiva da plataforma da rodoviária, vista por quem desce o eixo em automóveis ou ônibus. De fato, o que se vê ali é uma síntese daquilo que encontramos dentro do próprio edifício, especialmente na sua parte comercial.

O comércio que se encontra no CONIC atende a uma clientela absolutamente heterogênea. Nota-se perfeitamente a convivência de indivíduos de diferentes estratos sociais, fato de rara constatação no Plano Piloto, onde vive uma classe média padronizada no estilo de ser, vestir e se comportar em áreas coletivas. O que se percebe é que no CONIC os moradores das satélites se sentem familiarizados com a disposição e padrão das lojas, e a possibilidade de se apropriarem do espaço sem a sensação de estarem invadindo um território privado. Esta sensação, visível nos shopping centers mais sofisticados da cidade (Pátio Brasil, Brasília Shopping, Liberty Mall e em menor escala no próprio Conjunto Nacional) fica completamente diluído no CONIC que transmite uma imagem de área multisocial onde um indivíduo morador do Plano Piloto convive no mesmo nível com aquele das satélites, freqüentando ambientes comuns.

A freqüência de certos estabelecimentos é, no entanto claramente, determinada pelo status social. Por exemplo, nos cabeleireiros o que se percebe e uma clientela mais popular, o mesmo pode também ser observado em alguns bares, restaurantes ou Igrejas ali existentes. Porém, nas lojas de tênis, materiais de esportes radicais (skates, rollers, discos, etc) a clientela é mais heterogênea com indivíduos de aspectos típicos dos freqüentadores dos shoppings mais sofisticados. Nestes, as rodas de jovens na porta ou alguns transeuntes que param nas vitrines indicam um território particular de “tribos” urbanas que se auto identificam por um padrão similar de consumo, de vestimenta, de gosto, enfim, de estética no seu sentido mais amplo. É um território aparentemente democrático onde o que une os que ali estão é o interesse comum por certos produtos e marcas vendidas nas lojas. Estas lojas de esportes radicais e seus artefatos chegam a marcar certos espaços do CONIC, pelas características de seus freqüentadores.

Chama a atenção a exclusiva clientela das livrarias especializadas em assuntos científicos e a loja de partituras musicais – “uma das mais completas do país” segundo o seu proprietário – onde a clientela é claramente de elevado grau de sofisticação social, cultural e econômica. A meia hora que passamos na livraria de ciências sociais folheando as estantes a freqüência de clientes foi pequena com um ambiente calmo, tranqüilo como deve ser um lugar de leitura. A loja de instrumentos e partituras musicais já apresenta uma clientela maior, mas o clima de respeito, com pessoas conversando em voz baixa, vestidos de maneira tradicional sem ostentação, com gestos contidos traduzem uma clientela com um certo grau de sofisticação, habituada talvez a freqüentar ambientes similares em outros centros.

Circulando pelo CONIC pudemos observar a presença de pessoas notáveis da sociedade urbana de Brasília, entre profissionais liberais, professores universitários, e indivíduos com seleto gosto musical procurando material original nas livrarias e nas lojas de disco e de instrumentos e partituras musicais. Nas lojas de material esportivo o público é tipicamente de classe media alta do Plano Piloto e dos Lagos ao lado de típicos moradores de áreas externas ao Plano, numa clara manifestação de um espaço urbano como se costuma imaginar. Este é sem dúvida um aspecto particular de um edifício urbano que foge aos padrões tradicionais dos edifícios da administração federal na Esplanada dos Ministérios caracterizada por ser uma área com funções administrativas do Estado.

Os boêmios, pessoas ligadas direta ou indiretamente à atividade artística, se instalam no CONIC em primeiro lugar pela sua localização geográfica. Há facilidades de estacionamento, o que está cada vez mais raro no Plano Piloto; está próximo da Esplanada dos Ministérios e do Congresso Nacional; a Rodoviária e o metrô, é logo embaixo; o Hotel Nacional e o Setor Comercial Sul estão ao lado, enfim, tudo isso faz dele um dos lugares mais privilegiados para se estabelecer profissionalmente em Brasília. Se agregarmos ainda a possibilidade de convivência com diferentes perfis de pessoas atraídas ainda por algumas de suas lojas e livrarias o CONIC não deixa de ter o seu charme garantido. Isso sobretudo porque os freqüentadores do CONIC faz dali um lugar para estar e não apenas para passar como é usual em shoppings.

Recentemente o edifício ocupou as manchetes dos meios de comunicação da cidade em razão da polêmica ocupação de um de seus espaços para a instalação de um teatro pela Fundação Conchita que tem uma escola no imóvel, aliás já tradicional na cidade. Esta área faz parte daqueles arranjos de compadrios entre políticos no poder e correligionários que se repete em Brasília como em qualquer cidade brasileira. A TERRACAP é proprietária de 40% do CONIC o que torna o GDF o maior acionista do condomínio. O espaço almejado pelo Conchita foi, portanto doado pelo Governador da época – que, aliás, não podia fazê-lo pois é propriedade do Estado. Naquele espaço de 800 metros quadrados foi construída a referida sala para funcionar como um teatro laboratório. Na atual proposta de remodelação do CONIC foi proposto que se transferisse o teatro do lugar doado pois é considerada uma área de risco pelo contato com a rede elétrica do imóvel. A resistência da Fundação Conchita em mudar e o apoio que receberam da mídia impediram a transferência, mesmo apoiada pelo IAB (Instituto de Arquitetura do Brasil), pelo CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura), pelo Corpo de Bombeiros e da CEB (Companhia Elétrica de Brasília). Vive-se na esperança de nunca vir a ocorrer um curto circuito no local, pois a tragédia seria enorme. Enquanto isso, uma ação corre na justiça para definir o caso...

Um outro acontecimento curioso foi a chegada dos evangélicos na área. Inicialmente houve uma proposta do Bispo Macedo para comprar o Cine Atlântida uma das melhores salas de cinema da cidade. De fato o cinema é tombado pelo Patrimônio, mas o espaço estava ficando ocioso justamente pela fuga dos espectadores do CONIC. O então governador Cristóvam encaminhou à Câmara Legislativa uma consulta sobre as possibilidades da Igreja Universal comprar o Cine Atlântida numa área do Plano projetada pelo Lúcio Costa. O parecer da Câmara Legislativa foi positivo sob o argumento de que igreja é teatro, uma diversão do povo, não ferindo as recomendações do projeto original do Plano Piloto e do edifício. De fato, as cerimônias religiosas no local se assemelham a um teatro bíblico onde as pessoas entram em catarse, numa peça única repetida indefinidamente e que atrai multidões diariamente. Mesmo se não concordássemos com a designação de arte às cerimônias religiosas, do ponto de vista formal é diversão, é encontro, é interação. Não há, portanto incompatibilidade com o projeto de Lúcio Costa[1]. Por outro lado, a presença dos fiéis no CONIC praticamente não interfere em nada na rotina do edifício: chegam, oram e partem sem olhar para o lado. É um público que não consome, não se diverte, não se envolvendo com a vida do imóvel. Mas acaba sendo a única razão para o CONIC estar nas residências de milhões de brasileiros diariamente, pois as cerimônias que ali acontecem são televisionadas em cadeia nacional.

A invisibilidade do concreto

Compreender esta diversidade de tipos sociais que aí circulam pode ser um exercício interessante para analisar os efeitos do projeto de Lucio Costa para o Plano Piloto de Brasília. Isto será feito na seqüência, mas aqui pode ser significativo apontar alguns aspectos que seriam importantes considerar numa análise desta natureza. Saindo do CONIC na pequena praça que se situa à sua frente, nos damos conta de que, enquanto morador do Plano Piloto, que passa em automóveis algumas vezes por semana vindo da Asa Norte em direção à Asa Sul, o prédio parece invisível. Curioso que, enquanto o Conjunto Nacional chama a atenção pelo movimento diurno ou pelos néons noturnos o CONIC não tem registro nenhum na nossa memória. Sinto-me incapaz de descrevê-lo enquanto transeunte rotineiro do lugar. Tudo se passa como se olhássemos sem vê-lo. É um edifício que situado na área mais privilegiada do desenho da Esplanada – com exceção é claro dos monumentos do Estado - consegue ser completamente invisível ao olhar dos transeuntes, motorizados ou pedestres. Só muito recentemente foram instalados anúncios em néon, dos quais uma propaganda da Coca-Cola, ao lado de outra da Igreja Universal se destacam, sobretudo para quem vem do Congresso Nacional, pela Esplanada dos Ministérios em direção ao cruzamento dos eixos.

À frente do CONIC, do outro lado da praça, existe um outro imóvel que provoca o mesmo efeito. Situado ao lado do Setor Bancário Sul, num dos pontos mais privilegiados para quem observa a Esplanada dos Ministérios a partir da estrutura superior da rodoviária, onde cruzam todos os veículos e os poucos pedestres que passam pelo eixo pela plataforma superior, seja na direção norte/sul, seja no sul/norte, portanto um imóvel com inúmeras possibilidades de uso. Certamente a última destas possibilidades que poderia ser pensada é exatamente aquela à qual se presta: sede do Touring Club, uma função completamente desconectada do lugar, mesmo se não levássemos em conta o projeto original para o setor. O mais cru senso comum percebe que ali tem alguma coisa fora do lugar. Curiosamente, é também um espaço completamente esquecido por habitantes, autoridades, planejadores urbanos, etc. E, no entanto, junto com o CONIC formam uma espécie de sombra naquela imagem do Plano Piloto de Brasília que percorre o mundo todo. A sensação que transmite é que se trata também de uma área estigmatizada e a sua inserção na lógica do desenho e das funções do Plano Piloto teria de ser conjunta, simultânea para um e outro, ao risco de uma possível intervenção parecesse sempre parcial.

Mas retornemos ao CONIC nosso objeto de reflexão mais imediato. No imaginário das pessoas dois aspectos podem estar na base de compreensão da razão daquela sensação de invisibilidade que o edifício transmite. Por um lado, um senso estético hegemônico no Plano que não consegue incorporar nos seus parâmetros alguns princípios de uso do espaço, sobretudo quando vem expresso por indivíduos ou grupos considerados “marginais” ao que se toma por bom-gosto. O fato do espaço ocupado pelo edifício ter passado a ser o lugar onde a concretização de fantasmas que a sociedade procura ocultar mas que estão nas suas entranhas termina por estigmatizá-lo. Certamente o submundo que o CONIC representou passou a ser a ferida exposta da cultura asséptica que prevalece no Plano Piloto, que, fora este edifício, talvez só possa ser encontrada em alguns bares da cidade, como o “Beirute” em algumas fases de sua existência. Mesmo ali, onde uma vanguarda da cidade faz ponto, o CONIC sempre foi visto como “muito mais maldito”, muito mais transgressor. E isso, mesmo hoje, quando com a chegada das Igrejas evangélicas o lugar passou de profano a sagrado, com requintes de bom comportamento por parte dos fiéis freqüentadores dos templos aí localizados.

Por outro lado, é a própria localização do edifício, uma extensão do Setor Comercial Sul, que como tudo no Plano Piloto parece tão longe, mesmo quando está “logo ali...”. O que se constata é que o CONIC só se torna uma exceção quando olhado, ou da Esplanada, ou do Teatro Nacional, ou até mesmo do Conjunto Nacional. Do contrário, ele é apenas uma prolongação do Setor Comercial Sul em direção à rodoviária, beneficiando-se de uma quantidade enorme de pedestres, consumidores em potenciais, que fazem o trajeto cotidiano de ida e volta ao SCS – Setor Comercial Sul nas suas rotinas de trabalho. O fato é que se trata de categorias sócio-profissionais para quem o Plano Piloto apesar de não ter sido pensado para eles, são absolutamente imprescindíveis para a consolidação de Brasília como cidade. Indivíduos de diferentes raças, a maioria habitante das cidades satélites, comerciantes, profissionais liberais, bancários, camelôs, jornaleiros, flanelinhas, auxiliares de escritórios, office boys, enfim, uma multiplicidade de atividades que terminam por serem os verdadeiros responsáveis para que o Plano Piloto seja um verdadeiro espaço urbano. Do contrário, nada o diferenciaria de uma grande repartição pública, fechada num condomínio de luxo que custa muito caro aos cofres públicos para se manter. Representado numa figura o Setor Comercial Sul, incluindo o CONIC seria uma mancha escura na assepsia do Plano Piloto, que respira e inspira multidões que utilizam a rodoviária para acessarem a área, tal como águas pluviais, ou esgotos que escorrem para os bueiros da cidade. Chega a ser curiosa a admiração do arquiteto Lúcio Costa quando revisitando o Plano Piloto constata o povo circulando pela Rodoviária. Como se no Brasil, fossem outros grupos que fizessem uso de transporte coletivo. Afinal, foi uma cidade ou foi um bairro o que se planejou?

O imaginado e o acontecido com o CONIC

O CONIC é parte do projeto original do Plano Piloto e pensado como tal pelo próprio Lúcio Costa como um setor de diversões urbanas. É interessante ressaltar que, com todas as restrições que porventura se possa fazer ao edifício ele é patrimônio da humanidade tanto quanto os demais imóveis de porte que aparecem no projeto original da cidade. Neste aspecto talvez seja esta a única razão pela qual não tenha ainda sido demolido, como de tempos em tempos se cogita.

Na proposta original de Lúcio Costa este “Setor de Diversões Sul” estaria selecionado para abrigar livrarias, cafés, boates, e outras atividades que pudessem vir a preencher as necessidades de lazer da futura população do Plano. É interessante este aspecto pois, embora se tenha tido a intenção de diversificar os grupos sociais que viriam habitar a cidade planejada, os equipamentos de lazer propostos se dirigiam, em tese, para padrões sofisticados de consumo, numa clara ambivalência daquilo que a proposta continha. De fato, este Setor de Diversões é imaginado como algo sofisticado, para atender padrões também sofisticados de consumo.

A expectativa de que as pessoas nos fins de tarde viessem para o Setor para uma bebida ou uma conversa descontraída com amigos ou companheiros de trabalho estaria ligado ao clima ameno da cidade, sobretudo no seu longo período de estiagem anual (de fins de março a fins de outubro são raras as chuvas no Planalto Central). A tentativa de se reproduzir um padrão de uso do espaço próximo de um ‘Quartier Latin” onde diferentes grupos de funcionários, estudantes, comerciantes, profissionais liberais se encontram denota uma intenção de reproduzir algo sofisticado que, fora a democracia dos espaços das praias urbanas do Rio de Janeiro, não corresponde à cultura de lazer da classe média urbana do país. De qualquer forma, a existência de um teatro, de uma escola de arte dramática, de livrarias de diferentes especialidades – cientificas, religiosas, etc – de cinemas (hoje cedendo lugar a templos evangélicos) dentre outras modalidades de comércio, que poderia ser privilégio de consumidores mais exigentes, não foi suficiente para evitar que, devagar, o uso do imóvel fosse cada vez mais popular. À este discurso inicial que planeja uma área com um certo uso para um grupo com um certo padrão de exigência e de estética se impregnou a imagem estigmatizada que o CONIC apresenta hoje frente aos moradores do Plano Piloto.

Esta imagem estigmatizada se apresenta em duas dimensões: por um lado, pelo estado de conservação do imóvel, abaixo dos padrões médios dos shoppings da cidade; por outro pelo perfil médio dos freqüentadores do lugar, no geral, pessoas com padrões estéticos e de consumo menos seletivos que os que freqüentam aqueles shoppings. Curioso que o Setor Comercial Sul (SCS) ao lado, não provoca tanto mal-estar, mesmo porque, se compondo de diferentes edifícios, o uso e o porte são muito superiores ao do CONIC e a sua apropriação é absolutamente absorvida pelos moradores do Distrito Federal. Certamente essa absorção se dá também pelo próprio desenho das ruas e dos imóveis que compõem o SCS. Trata-se de uma área onde a circulação interna só é feita quando se tem algo absolutamente necessário para resolver no lugar; caso contrário, integra também aqueles espaços “invisíveis” do Plano Piloto, em torno do qual passamos quotidianamente ser vê-lo. Ao contrário, portanto, do CONIC este sim, situado num lugar de passagem obrigatória para quem circula no Plano Piloto, detentor de uma visibilidade potencial evidente.

Um breve histórico do edifício

A inauguração do CONIC se deu por volta de 1967, ou seja, sete anos após a inauguração da nova capital, sendo o primeiro edifício voltado para a Esplanada dos Ministérios. Foi batizado informalmente por CONIC a partir do nome da construtora pernambucana que o edificou, com seu nome numa enorme placa durante a obra, terminando por se fixar na memória dos passantes como uma das referências da área. Na época Brasília contava com aproximadamente 90.000 habitantes, a maioria moradora do Plano Piloto (ainda em fase de implantação) e algumas poucas cidades satélites (Taquatinga, Ceilandia, Sobradinho, Núcleo Bandeirantes). De fato, a burocracia do Estado que vinha se instalando em Brasília ainda era em pequeno número: os órgãos públicos e as embaixadas, foram chegando devagar, alguns deles resistindo à mudança, enquanto outros permanecem até hoje na antiga capital.

As superquadras mais antigas, da Asa Sul (108, 308, 208, 408 e as vizinhas), além de algumas outras esporádicas não conseguiam tirar o sentimento de um grande canteiro de obras que ainda hoje surpreende o mais desprevenido visitante da cidade. Assim, o CONIC era de fato longe e de difícil acesso para os moradores na época, não exercendo um papel de centro de diversões cotidianas e rotineiras tal qual havia imaginado o seu idealizador. Como iremos observar mais à frente, o edifício vai assumindo funções que se alternam com a consolidação do projeto da nova capital, em cada momento funcionando de forma integrada à vida da cidade.

Mesmo assim, apesar de nunca ter se transformado naquilo que foi planejado, logo após sua inauguração o CONIC atraiu embaixadas ainda em fase de implantação na cidade com suas sedes em construção. Esta presença atraía restaurantes e lojas mais sofisticadas quase que concretizando a imagem primeira o edifício. A história mostra que, uma vez terminado a construção de suas sedes e toda a atividade de rotina sendo transferida, o CONIC sofre muito rapidamente um processo de esvaziamento de suas funções e muda devagar o uso de suas instalações. Começam a aparecer clubes noturnos, bares pouco sofisticados dando início à degradação da área, na medida em que espanta a classe média do Plano e é esquecido pelas autoridades locais.

O processo de degradação do edifício e arredores

Num primeiro momento, o fato de se ter um edifício estigmatizado no centro do Plano Piloto de Brasília, em si, não é uma questão original. Todas as grandes cidades do mundo apresentam áreas desvalorizadas, justamente em locais que, pela sua antigüidade já contam com toda a infra-estrutura urbana praticamente completa. É aliás essa a razão pela qual a onda de renovação urbana tem sido observada em praticamente todas as grandes cidades do mundo ocidental nestas últimas décadas. Paris, Nova York, Barcelona, São Paulo, Salvador, Recife dentre outras, passam por processos de gentrificação de seus espaços degradados, atraindo uma classe média endinheirada e intelectualizada que valoriza justamente a estética e o conforto dos velhos imóveis de outros tempos. Apesar de tímida, a tentativa de renovação do CONIC vai na mesma direção,

Entretanto, fica sempre uma questão inquietante: porque edifícios ainda recentes, situado em áreas privilegiadas da cidade, gozando de facilidade de acesso e de uma infra-estrutura completa e adequada se deteriora com tanta rapidez? É verdade que o Plano Piloto tem alguns espaços com características de degradação precoce mas todos eles nunca antes ocupados efetivamente. São muitos deles projetos inacabados, que se transformam em ruínas antes mesmo de terem sido inaugurados. Assim é com um grande terreno ao lado do Venâncio 2000 que contém há décadas as fundações de um edifício abandonado; um outro, o esqueleto de um edifício no setor hoteleiro norte, ao lado do Brasília Shopping, projetado para ser um hotel, cuja obra foi embargada-; áreas vazias e ocupadas por edifícios provisórios como a que se situa na frente do Liberty Mall, o próprio setor bancário norte com enormes espaços vazios entre edifícios administrativos (correios, INSS, administrações e autarquias do GDF) formando verdadeiros terrenos baldios em pleno Plano Piloto onde nem pedestres nem veículos têm acesso, etc.

Mas o CONIC é diferente. Aqui é, de fato, um imóvel em pleno uso, com uma inserção específica na vida da cidade e que pode ser considerado como um dos mais ecléticos imóveis do Plano Piloto, pela diversidade de usos e de freqüência. Se rompermos com a imagem de shopping center como aquele lugar super protegido, fechado, sem visibilidade externa, o CONIC pode ser considerado um shopping center tal e qual os demais. Talvez até mesmo uma proposta de centro comercial e de diversões que foge aos padrões similares oriundos dos modelos norte-americanos, e justamente por isso, bastante original enquanto concepção arquitetônica, dada as características climáticas do Planalto.

Poderíamos também formular uma outra questão: porque o CONIC se deteriora, enquanto o Conjunto Nacional, de seu lado e com várias semelhanças de usos guarda sua imagem? Mesmo se levarmos em conta que o público que freqüenta o Conjunto Nacional seja também diversificado por origem e renda, (característica aliás inevitável pois a localização no cruzamento dos eixos e sobre a rodoviária urbana induz automaticamente a isso) o edifício tem muito dos princípios arquitetônicos padronizados para shopping centers. A exceção são lojas com abertura para as calçadas externas, mas que por arranjos de fácil execução se voltaram para o interior do prédio. Fora isso, é um shopping com diversidade de usos e de freqüência dos mais movimentado da cidade com condições semelhantes ao CONIC. Não deixa de ser, portanto, uma questão que se coloca quando se pensa nos caminhos que seguiram um e outro edifício.

Uma das causas desta diferença pode ser atribuída ao modelo de gestão adotado em ambos. Enquanto o Conjunto Nacional foi adquirido por um grande grupo que o transforma naquilo que ele é hoje, submetendo-o a uma única administração, o CONIC é formado por 13 edifícios, logo 13 condomínios, com 1.700 proprietários, cada qual com sua parcela de poder na definição dos rumos do imóvel. Há cerca de dez anos atrás foi criada uma Prefeitura do conjunto para centralizar a administração do prédio, com a função prioritária de acabar com o estigma de área perigosa e para normatizar as áreas degradadas. A primeira função foi praticamente cumprida: cria-se uma delegacia de polícia dentro do edifício e restringe-se o tráfico de drogas e prostituição, completamente varridos da área. Podemos, mesmo sem parecer enfáticos, considerar que hoje o CONIC é uma das áreas mais seguras dentro do Plano Piloto[2]. Entretanto, o estigma permanece. As razões disso só poderiam ser encontradas na lógica de fixação de pré-conceitos no imaginário dos habitantes da cidade que se enraízam e, portanto, de difícil remoção. O espaço urbano é a concretização do imaginário social que se constrói no histórico cotidiano e o CONIC permanece ainda como lugar pouco nobre. De qualquer forma, com a retirada dos agentes da marginalidade que ali tinham suas bases, devagar o CONIC vem se transformando através de remodelação de aspectos do projeto original[3], numa procura de resgate de sua proposta original. Isso significa que enquanto o CONIC não for transformado estetica e racionalmente no sentido segundo padrões usuais dos shoppings vizinhos ele permanecerá um “corpo estranho”, separado, mas funcionalmente necessário, limitado que está àquela racionalidade do Plano Piloto.

De qualquer maneira é esta diferenciação no uso face aos demais imóveis da área que parece constituir o ponto de apoio mais importante do argumento segundo o qual não se pode considerar a área da Esplanada dos Ministérios esteticamente unificada. Entretanto vale ressaltar ainda o potencial de área alternativa que o CONIC contém. Se por um lado, conforme destacado acima, a multiplicidade de proprietários dificulta a gestão do imóvel nos moldes que ocorre em outros shoppings centers, por outro, esta condição pode ser um trunfo que o diferencia das experiências similares no Plano. Sim porque o CONIC vem, devagar, se tornando uma área alternativa dentro do Plano Piloto, numa clara diferenciação entre o organizado e o racional cartesiano que é o Projeto de Lúcio Costa; de fato, por se tratar de uma área anárquica, caótica, enfim urbana, e graças a esta indefinição, uma área com maior liberdade de uso, o edifício começa a seduzir uma gama de artistas, arquitetos, poetas, cineastas, etc, atraídos justamente por esta “irracionalidade” e este ar de pretensa “marginalidade”, numa extensão do espaço cultural representado pela Universidade de Brasília, mas sem a submissão aos parâmetros institucionais que a caracteriza. Este fenômeno termina por dar ao CONIC uma dinâmica cultural diferente daquela que caracteriza, por exemplo, a Universidade, mas tão potencialmente rica como aquela[4]. Na verdade uma área que aparece quase que como um gueto dentro do Plano Piloto.

Um “gueto” ao inverso no Plano Piloto

A idéia de “gheto” urbano vem da obra de Wirth quando trata das características socioculturais do bairro judeu de Chicago na primeira metade do século XX. Conforme o próprio Wirth destaca, parece que o gueto foi, na origem, um lugar de Veneza, um de seus bairros, onde se estabeleceu a primeira comunidade judaica. Se transformou, ao longo do tempo, numa instituição reconhecida pelo costume e definida pela lei[5]. Os dicionários da língua portuguesa definem gueto como “bairro em qualquer cidade, onde são confinadas certas minorias por imposições econômicas e/ou raciais”.

Tanto a definição de Wirth como aquela do dicionário não poderia se adequar à caracterização do CONIC como um gueto. Um olhar mais apressado diria mesmo que é o oposto, dada a diversidade de tipos urbanos que o freqüenta e que terminam por dar-lhe sua identidade. Entretanto, visto no contexto do Plano Piloto, especialmente na Esplanada dos Ministérios, no qual ele se insere, ele aparece justamente como uma exceção ao padrão estético e funcional da área. Neste sentido, e apenas neste, ele aparece como um espaço singular que abrange não apenas os tipos sociais mas também a sua própria arquitetura interna que vai sendo criada e recriada sem a rigidez legal da Esplanada. Aí sim ele é singular; uma singularidade que se acentua dada a “distância” do Setor Comercial Sul. Aí ele pode ser visto como um gueto onde a maioria da população do Distrito Federal se sente minoria no espaço físico da sede do governo nacional, um corpo estranho a uma classe média, padrão homogêneo dos habitantes do Plano. Isso significa que enquanto o CONIC não for transformado estética e racionalmente no sentido segundo padrões usuais dos shoppings vizinhos ele permanecerá um “corpo estranho”, separado, mas funcionalmente necessário, limitado que está àquela racionalidade do Plano Piloto. De qualquer maneira é esta diferenciação no uso face aos demais imóveis da área que parece constituir o ponto de apoio mais importante do argumento segundo o qual não se pode considerar a área esteticamente unificada.

Permanece sempre a pergunta do porque numa área tão privilegiada o “povo brasileiro” tomou conta daquele espaço. Uma das possíveis explicações pode estar no grupo que está por detrás da construção dos prédios do CONIC. Brasília foi um eldorado para as construtoras quando da edificação da cidade nos anos 50. Além das grandes empresas nacionais que se responsabilizaram pelas obras dos edifícios públicos, pelo sistema viário e mesmo pelos blocos dos apartamentos funcionais, outras empresas regionais também fizeram fortuna naquele momento. O CONIC tem entre seus construtores três dos grandes pioneiros construtores de Brasília: o Venâncio, que já foi a maior fortuna da cidade, o Baracá e o Karim Narrote (?). Talvez por razões de economia, ou por valores culturais e estéticos ou mesmo porque a cidade que se construía naquele momento não tinha ainda como exigência a ostentação de luxo e sofisticação como atualmente ocorre, o fato é que o visual do prédio é simples, sem ostentação. Fica evidente quando o olhamos que nenhum dos três construtores tiveram a estética como diretriz. Aliás, se olharmos os prédios por eles construídos no Plano Piloto certamente eles estariam classificados entre os mais feios do Plano: uma arquitetura sem estilo, numa caricatura de um modernismo caboclo. O CONIC, junto com o Venâncio 2000, o próprio Venâncio 3000 e o prédio de galerias comerciais localizado no início da W3 Norte, além de outros no Setor Comercial Sul, enfim, construções que envelheceram e perderam o charme muito rapidamente. Curiosamente todos eles são prédios invisíveis, no sentido que passamos sem vê-los como uma sombra, opacos sob o sol do Planalto, pontilhado por edifícios com arquitetura monumental. Dentro dos prédios que constituem o complexo do CONIC a única unanimidade parece ser o Edifício Eldorado, com linhas mais sofisticadas próximas daquilo que foi imaginado por Lúcio Costa, mas que se perde entre os demais com desenhos sem maiores destaques.

Mesmo com esta característica o CONIC vem se destacando dos outros centros comerciais similares dentro do Plano Piloto. De forma discreta, quase imperceptível se constata que bons fotógrafos de Brasília com excelentes laboratórios de revelação de filmes, vários cineastas, as livrarias, as lojas especializadas em produtos de consumo da juventude mais vanguarda da cidade (skates, surfs, patins, tênis, etc) que têm todo um padrão de consumo difundido pela juventude norte-americana, inglesa que se adequa mais a um espaço como o CONIC do que um shopping padrão. Uma outra característica é a enorme concentração de Partidos Políticos em sua área; em se tratando da capital política do país, pode-se perceber o significado disso. Desta forma, o lugar vira um ponto obrigatório de passagem para jovens de diferentes classes sociais, políticos, jornalistas, profissionais liberais, o que o distingue das demais galerias comerciais da cidade.

A dinâmica social do edifício

Há um consenso entre os freqüentadores usuais do CONIC, mais particularmente entre os comerciantes que têm lojas no edifício de que se trata de um dos lugares mais seguros do Plano Piloto, incluindo o Setor Comercial Sul e o próprio complexo Gilberto Salomão no Lago Sul área nobre da cidade. Este argumento pode encontrar princípio de realidade, sobretudo se levarmos em conta a presença de um batalhão da polícia militar com uma delegacia dentro do próprio prédio: fala-se num efetivo de 500 homens que se revezam dia e noite na vigília do prédio e arredores o que inviabiliza qualquer convívio com criminosos de qualquer estirpe. Claro que não estamos aqui considerando o trabalho das prostitutas que ali fazem ponto, mas que se restringem à rua inferior, de uso quase exclusivo de veículos, e ao período noturno, não causando nenhum transtorno maior aos freqüentadores do lugar, inclusive os evangélicos e suas famílias. Portanto o CONIC hoje tem uma imagem estigmatizada principalmente junto à classe média tradicional do Plano Piloto, resquício de um período onde a situação beirava ao descontrole. Podemos considerar três fases na vida do edifício a partir de sua inauguração.

Numa primeira fase, o edifício atraía as embaixadas estrangeiras que tinham ali seus escritórios de representação, os profissionais liberais, partidos políticos, etc. A localização privilegiada facilitava a preferência que se manteve enquanto as sedes oficiais das representações diplomáticas foram sendo construídas. Naquele momento, o local era freqüentado pela alta burocracia do Estado, tinha lojas e restaurantes condizentes com os freqüentadores, um retrato que se aproximava muito daquele imaginado por Lúcio Costa. Este público com poder de compra estável e de elevado padrão certamente atrai diferentes atividades para a área, particularmente aquela que se instala na Segunda fase do edifício.

Nesta fase segunda, o local é invadido pela prostituição, crime, tráfego de drogas, num período de alta decadência, responsável pela imagem que o edifício carrega até os dias atuais. Esta imagem se alastra com uma certa facilidade, talvez pela situação do imóvel dentro do Plano Piloto e a sensação de invisibilidade que ele transmite aos passantes pelas suas calçadas e ruas que o circundam. É esta ambivalente situação espacial – visibilidade e invisibilidade - aliado a um desenho interno que, tentando reproduzir ruas e becos de sítios urbanos tradicionais, termina por ser funcional às transgressões que ali se desenrolavam. Se considerarmos que a sociedade não deixa de ser um mecanismo de introjeção de valores e comportamentos, muitos deles incompatíveis com a própria natureza humana, podemos também assumir que espaços de transgressão sempre existiram nas cidades na história. A funcionalidade da prostituição – “a mais antiga profissão do mundo” – amenizando instintos sexuais das pessoas, as drogas, que funcionam como mecanismos de escape, ou de vícios, enfim uma série de práticas que são reprimidas socialmente mas que a sociedade arruma sempre uma forma de permitir a sua existência. Claro que os espaços urbanos para práticas transgressoras nunca são obtidos de forma legal ou tranqüila. Até o aparecimento da pílula anticoncepcional quando então a sexualidade humana se liberta de valores seculares, era comum nas cidades brasileiras reservar uma de suas áreas onde se concentravam as prostitutas (a zona); hoje estas zonas estão completamente desaparecidas. É de se supor que nos anos sessenta e setenta a cidade tinha um mercado razoável para o sexo, na medida em que as pessoas chegavam, desenraizadas, descoladas de vínculos mais estreitos e, sobretudo, com salários fixos que permitiam alguns “excessos”. Uma parcela da burocracia vai encontrar na oferta das prostitutas do CONIC uma facilidade enorme para se satisfazer e, em sendo um negócio, pode-se argumentar que há uma racionalidade econômica na opção por aquele território. Argumentos semelhantes pode ser aplicado para o tráfego de drogas, que se beneficia do mercado do Plano Piloto.

Atualmente, podemos considerar como sendo a terceira fase do CONIC. Cria-se uma prefeitura atendendo demanda dos comerciantes e profissionais que trabalham no Edifício, instala-se uma delegacia, há uma debandada do crime e do tráfego. Esta terceira fase pode ser considerada a “onda política” com a presença da sede de diferentes partidos e, portanto, freqüentado rotineiramente pelos dirigentes e militantes. Alguns estabelecimentos comerciais (livrarias, teatro, lojas especializadas, alguns bares) atraem professores universitários, aposentados (o Plano Piloto é cada vez mais uma área de aposentados), profissionais liberais que, ao lado dos candangos das satélites fazem do lugar um ponto de referência, de encontro. De forma que hoje, entre o estigma de lugar decadente e a procura de um charme de vida urbana que raramente se encontra no Plano Piloto o CONIC enfrenta sua nova fase.

Poderia estar aí um dos trunfos da reabilitação ou da inserção do CONIC no Plano Piloto nos moldes que foi pensado por Lúcio Costa. Para os moradores da cidade uma das maiores carências é as áreas de convívio coletivo que escape aos jardins e áreas verdes. Aquilo que falta nas grandes cidades brasileiras, Brasília tem em quantidade enorme. Mas ao mesmo tempo, não dispõe de “botecos” um velho hábito urbano do país, que foi completamente esquecido, talvez pela trivialidade do fato. A Esplanada dos Ministérios onde circulam milhares de pessoas por dia não têm um bar, um restaurante que não seja os funcionais dentro dos Ministérios. Isso é verdade também para o Setor de Autarquias, a própria Universidade de Brasília, enfim todas as áreas monofuncionais da cidade onde é dificílimo tomar um cafezinho, utilizar um banheiro, sentar numa mesa para um aperitivo, uma conversa. Lazer em Brasília são bares e restaurantes a maioria deles formais o suficiente para exigir um certo ritual de freqüência. Dificilmente são lugares aonde se vai espontaneamente. Pois o CONIC é justamente isso. Com uma localização privilegiada, pensada justamente para ter estas características de uso, sem a assepsia de shoppings com seus insistentes apelos de consumo. A parcela criativa do urbanista foi pensada, o que faltou foi a criatividade das pessoas que para cá vieram, obviamente com as exceções de praxe.

Espaço de exceção que atrai milhares de pessoas

Toda a discussão sobre o estigma que caracteriza o CONIC é no fundo um olhar de fora sobre o edifício. Há na cidade indivíduos que freqüentam rotineiramente o lugar, fazem dali um ponto de encontro para encontrar amigos, conversar, comprar coisas, enfim, fazem dele um lugar urbano de multiusos. Entre restaurantes self-seervice, botecos, bares tivemos a oportunidade de sentarmos num verdadeiro café urbano, com pessoas nas mesas, no balcão, nas calçadas apressados, numa imagem de uma rua de cidade[6]. Para a rotina de Brasília, onde o ato de andar à pé só se faz nos fins de semana quando se caminha pelas superquadras ou pelos parques, ficou uma sensação curiosa e familiar ao mesmo tempo. De fato, a cidade tem gente, tem um movimento. No fundo, é ali que a Esplanada é mais cidade.

Trabalham nos edifícios do CONIC uma população aproximada de 10.000 pessoas e circulam pela sua área cerca de 150.000 pessoas por dia. De fato, o CONIC disputa com o Conjunto Nacional (aproximadamente 500.000 pessoas/dia)o maior número de pessoas diárias nas suas dependências. Evidentemente este afluxo de pessoas neste espaço está diretamente ligado à presença da rodoviária urbana com ônibus e outros tipos de transportes coletivos que unem a Esplanada a todo o Distrito Federal. Mesmo se a classe média do Plano e dos Lagos não tem o hábito de circular pelo CONIC, não se deve menosprezar o seu potencial de atração de pessoas. Além do comércio, nos seus edifícios se localizam salas de médicos reputados, advogados, escritórios contábeis, de representações, laboratórios fotográficos, de exames clínicos, diferentes associações, corretores, agências de turismo, editoras, etc. Ora, a presença destas atividades no edifício é exclusivamente pela sua localização privilegiada, que é o grande trunfo do CONIC.

A diversidade de tipos humanos e de atividades econômicas poderia dar margens a tensões no convívio diário. Mas tudo está indicando que há códigos informais de convívio e as pessoas terminam por não interferir no espaço uma das outras. A permanente presença de policiais, aliado ao fato de que cada condomínio tem a sua segurança particular, também vai no sentido de garantir a paz entre os que por ali circulam. Certamente a imagem de uma área caótica que se sente quando ali estamos tem muito da programação visual do comércio ali existente, o que poderia ser resolvido sem maiores dificuldades.

Na verdade, podemos nos perguntar se seria o caso de intervir para alterar ou ordenar o espaço coletivo do edifício? Claro que se olharmos pelo lado da arquitetura não oficial do Plano Piloto, especialmente da Esplanada, o CONIC é sem dúvida o maior monumento histórico da cidade. O fato de os arquitetos oficiais da nova capital não terem tido nenhuma preocupação com populações fora do núcleo do poder, do governo, faz do CONIC um exemplo típico do oficial e do não oficial na estética do Plano Piloto. Tendo sido um desenho de cidade imaginado numa prancheta e implantado tal e qual, não se pode negar um certo autoritarismo na construção da cidade. Sem entrar no mérito sobre o significado de se ter uma cidade oficial com sua planta e seus edifícios sob a responsabilidade quase que exclusiva de dois profissionais do urbanismo e da arquitetura, por mais brilhante que sejam, passa uma sensação de uma harmonia imposta. O CONIC nesta relação entre o oficial e o não oficial representa a antítese daquilo que é a regra geral para o Plano Piloto: um senso estético, um desenho, uma concepção de vida urbana que chega pronta e acabada, deixando poucas margens para a criatividade da cultura de um povo.

Pelo seu estigma junto à população do Plano Piloto e, em conseqüência, junto à burocracia do planejamento da cidade, tanto federal como distrital, não se questiona possíveis intervenções no imóvel. Qualquer uma seria preferível a deixa-lo tal e qual ele se encontra. Talvez seja o único edifício de uma área tombada pela UNESCO que, de tempos em tempos, alguém propõe demolir. Causa pouca reação propostas desta natureza, mas serve para reunir um grupo de intelectuais, arquitetos, artistas, comerciantes e freqüentadores do CONIC num grupo de reflexão para traçar o futuro do edifício e protege-lo das ameaças de destruição. São grupos voluntários, que defendendo o edifício contribuem para consolidar a sua identidade. Tudo está indicando que intervenções seriam simplesmente para consolidar o papel atual do CONIC construído em décadas de existência que se confunde com a própria história da cidade. Será neste confronto entre o “ódio” que o CONIC provoca em uns e o “amor” que desperta em outros que o futuro do edifício está sendo tratado. O perigo é que em Brasília Tânatos costuma adquirir um espaço enorme de ação, o que obriga Eros estar sempre atento e forte.

[1] - Nas palavras do entrevistado: “É polêmico mas se respeitamos a liberdade de culto e de crença a Igreja Universal é hoje o teatro do absurdo mais importante do mundo”.

[2] - Após o periodo de auge quando de sua inauguração o CONIC sofre um processo de decadência que transforma o lugar num ponto de trafico de drogas, prostituição e mendicância. A Prefeitura trouxe então o Batalhão da Policia Militar, afuguentando os indesejáveis. Hoje não se fala mais em quadrilhas de traficantes agindo no CONIC e a área é uma das mais seguras do Plano Piloto.

[3] - Liderados principalmente pela arquiteta Flavia Portella que redesenha o projeto do CONIC e propõe várias intervenções no seu desenho físico.

[4] - O proprietário da Musimed, loja de instrumentos musicais e partituras, uma das principais no país no gênero, é de origem tcheca e professor do Instituto de Artes da UnB; o proprietário da Casa do Livro é talvez um dos livreiros mais cultos do país, além de médicos, arquitetos, advogados que têm salas nos edifícios do CONIC e aí exercem suas atividades.

[5] - Louis Wirth – Le ghetto – Presse Universitaire de Grenoble, 1980

[6] - Estamos nos referindo ao Café Belas Artes onde foi realizada a entrevista.