A
“SOCIOLOGIA” DE UM EDIFíCIO URBANO:
O CONIC NO PLANO PILOTO DE BRASÍLIA
Brasilmar Ferreira Nunes
(Professor-UnB/ Pesquisador – Cnpq)
Naraina de Melo Martins Kuyumjian
(Bolsista – IC)
APRESENTAÇÃO
Na redação do presente texto tivemos a
oportunidade de estabelecer inúmeros contatos, sobretudo com
comerciantes do lugar. Desses encontros, das conversas informais ocorridas,
fomos formando, pouco a pouco, uma imagem sobre o Setor de Diversões
Sul. Cabe destacar particularmente nossas discussões com o senhor
Heitor Andrade, jornalista com escritório no edifício
que, conhecedor dos meandros e da dinâmica, foi crucial para a
escrita deste documento. O texto que segue pode ser considerado como
um esboço de uma etnografia deste espaço, onde privilegiamos
na perspectiva sociológica a representação do edifício
dentro da cidade de Brasília.
ETNOGRAFIA DO CONIC
Fizemos inúmeras visitas ao edifício. Em
uma delas, um sábado, chegamos ao SDS mais cedo para dar uma
explorada com mais acuidade no prédio, caminhando pelas suas
galerias comerciais procurando observar ritmo de pessoas da área.
Sábado de fato é um dia de menor movimento.
As lojas, bares, livrarias estavam todas abertas, mas se sentia que
o ritmo era um pouco mais lento. Talvez porque os compromissos de trabalhos
e outros onde os dispêndios de tempo são mais urgentes
estivessem restritas aos dias da semana de segunda às sextas-feiras.
Além do mais, em se tratando de um horário matinal a clientela
era absolutamente corriqueira num centro comercial onde existe uma variedade
enorme de atividades comerciais. Transeuntes sem pressa, em vestimentas
domingueiras, crianças junto aos pais caminhando num ritmo de
fim de semana. O lugar, apesar de não apresentar lixos ou detritos
espalhados pelas vias, não transmite aquele ar acético
típico dos shoppings centers do Plano Piloto. Ao contrário,
a impressão que causa é idêntica à que se
sente quando se caminha pelas ruas de uma cidade. Visitas feitas e guiadas
pelo nosso entrevistado, demonstram que há uma estratégia
de transformar as pistas de pedestres mais parecidas àquelas
dos shoppings, com a colocação de pisos em cerâmica
ou granitos mais parecidos com os daqueles centros comerciais, talvez
procurando atrair uma clientela de gosto mais dentro dos clichês
típicos da classe média brasileira.
Uma primeira sensação que vem quando se
caminha por suas ruelas é a diversidade de comércio com
a presença marcante de algumas atividades em particular. Assim,
entrando pela ala norte do CONIC no nível da rua, chama a atenção
a variedade de óticas. São inúmeros os comércios
de óculos, tanto para venda como para reparação.
Entre uma e outra, esporadicamente se encontra um bar ou um boteco sem
muita sofisticação com suas mesas e cadeiras de fórmica
ou plástico, sem uma harmonia aparente. Observa-se também
um número importante de salões de cabeleireiros, manicures,
ou de estética em geral. Estes eram os mais procurados naquela
hora da manhã, entre nove e onze horas, com clientelas em todos
eles.
A par estas duas atividades comerciais e de prestação
de serviços, o térreo do CONIC apresenta ao longo de suas
ruelas e caminhos ares de um verdadeiro centro comercial com atividades
as mais variadas, tais como, lojas de discos, roupas, sapatos, instrumentos
musicais, fotos, fotocópias, etc. Chama a atenção
a simplicidade das lojas sem nenhuma preocupação em parecerem
sofisticadas numa clara indicação de que a clientela que
para lá se dirige esta procurando mercadorias cuja necessidade
vem antes de um status ou prestígio oferecido por comércios
que trabalham com marcas ou grifes.
Chama a atenção ainda a existência
de livrarias especializadas em ciências sociais, medicina e direito
na ala sul do imóvel, além de um cinema com shows de strip
tease e filmes pornográficos (cuja atividade acontecem a partir
do meio dia indo até altas horas da noite), centros religiosos
de cultos evangélicos. As livrarias são de excelente qualidade,
com obras representativas de cada área acadêmica que trabalham.
Visitei com mais cuidado a que oferece obras de ciências sociais
e pude comprovar a excelente qualidade do acervo disponível,
além do elevado domínio dos últimos lançamentos
pelo seu proprietário. Destaca-se inclusive a erudição
do mesmo que não só esta ciente dos últimos títulos
no mercado como emite opiniões de obras e autores com bastante
conhecimento de causa. Uma raridade em Brasília onde a disponibilidade
de livrarias é precária e as que existem são absolutamente
impessoais, funcionando mais como um supermercado de livros do que propriamente
uma livraria cuja visita deveria ser, por si só, uma atividade
prazerosa, tal e qual pensam os consumidores de obras impressas. A existência
de inúmeros restaurantes com ares populares também chama
a atenção, embora todos estivessem ainda se preparando
para servir o almoço que só aconteceria mais tarde, estando,
portanto vazios. Pelo aspecto simples e em se tratando de self-services
devem atender a clientes com baixo poder aquisitivo ou com menor nível
de exigência e sofisticação.
A distribuição do comércio pela
área do imóvel obedece à lógica de localização
de atividades comerciais em sítios urbanos tradicionais. Assim,
há uma concentração de atividades em áreas
próximas segundo a natureza do serviço ou do produto ofertado:
lojas de materiais óticos situam-se na entrada norte do imóvel,
as livrarias, na entrada sul, no centro espalham-se as roupas, discos,
calçados, etc. num diversificado ambiente comercial. Os restaurantes
se concentram mais aos fundos do prédio, onde também podem
ser encontrados alguns estabelecimentos especializados, tais como instrumentos
musicais, livrarias religiosas, sedes de partidos políticos,
e fotocopiadoras. A frente para a praça externa aparece como
uma espécie de vitrine daquilo que esta espalhado pelo interior
do imóvel, ou seja, materiais fotográficos, óticas,
roupas, livros e os bares um pouco mais sofisticados, faz claramente
o papel de uma rua tradicional de cidade talvez uma das poucas do Plano
Piloto.
O subsolo do edifício tem ar de espaço
semi-abandonado: muitas lojas fechadas, vazias, alguns situados em becos
com pouca luminosidade, aliás uma das particularidades de inúmeros
edifícios da primeira fase da cidade. Num dos corredores foi
aberta uma saída dando na lateral do prédio no nível
da rodoviária, junto ao eixo monumental. As lojas que levam a
esta saída já têm um comércio mais estruturado,
vendendo os mais diferentes produtos, sem uma especialização
particular. No geral, o subsolo transmite uma sensação
de difícil acessibilidade. Para quem entra pela plataforma superior
– a entrada oficial do edifício – não há
indicações precisas para acessa-lo, sendo talvez esta
a razão pela qual ,em outros momentos, foi o lugar preferido
pelos marginais. O mesmo pode ser deduzido quando se olha a lateral
sul do prédio ou a parte detrás do imóvel. Nesta
há um estacionamento, e serve também para cargas e descargas
de mercadorias. Esta parte detrás é, curiosamente a de
maior visibilidade para quem olha o CONIC a partir do Setor Comercial
Sul ou do Hotel Nacional, ou mesmo descendo o eixo monumental em direção
à Esplanada dos Ministérios. Uma visibilidade esteticamente
comprometedora, pois o bric-a-brac dos anúncios comerciais transmite
a impressão de um imóvel sujo, sem regras ou administração.
Claro que esta impressão é reforçada pela arquitetura
clean do Setor Hoteleiro ou mesmo pela perspectiva da plataforma da
rodoviária, vista por quem desce o eixo em automóveis
ou ônibus. De fato, o que se vê ali é uma síntese
daquilo que encontramos dentro do próprio edifício, especialmente
na sua parte comercial.
O comércio que se encontra no CONIC atende a uma
clientela absolutamente heterogênea. Nota-se perfeitamente a convivência
de indivíduos de diferentes estratos sociais, fato de rara constatação
no Plano Piloto, onde vive uma classe média padronizada no estilo
de ser, vestir e se comportar em áreas coletivas. O que se percebe
é que no CONIC os moradores das satélites se sentem familiarizados
com a disposição e padrão das lojas, e a possibilidade
de se apropriarem do espaço sem a sensação de estarem
invadindo um território privado. Esta sensação,
visível nos shopping centers mais sofisticados da cidade (Pátio
Brasil, Brasília Shopping, Liberty Mall e em menor escala no
próprio Conjunto Nacional) fica completamente diluído
no CONIC que transmite uma imagem de área multisocial onde um
indivíduo morador do Plano Piloto convive no mesmo nível
com aquele das satélites, freqüentando ambientes comuns.
A freqüência de certos estabelecimentos é,
no entanto claramente, determinada pelo status social. Por exemplo,
nos cabeleireiros o que se percebe e uma clientela mais popular, o mesmo
pode também ser observado em alguns bares, restaurantes ou Igrejas
ali existentes. Porém, nas lojas de tênis, materiais de
esportes radicais (skates, rollers, discos, etc) a clientela é
mais heterogênea com indivíduos de aspectos típicos
dos freqüentadores dos shoppings mais sofisticados. Nestes, as
rodas de jovens na porta ou alguns transeuntes que param nas vitrines
indicam um território particular de “tribos” urbanas
que se auto identificam por um padrão similar de consumo, de
vestimenta, de gosto, enfim, de estética no seu sentido mais
amplo. É um território aparentemente democrático
onde o que une os que ali estão é o interesse comum por
certos produtos e marcas vendidas nas lojas. Estas lojas de esportes
radicais e seus artefatos chegam a marcar certos espaços do CONIC,
pelas características de seus freqüentadores.
Chama a atenção a exclusiva clientela das
livrarias especializadas em assuntos científicos e a loja de
partituras musicais – “uma das mais completas do país”
segundo o seu proprietário – onde a clientela é
claramente de elevado grau de sofisticação social, cultural
e econômica. A meia hora que passamos na livraria de ciências
sociais folheando as estantes a freqüência de clientes foi
pequena com um ambiente calmo, tranqüilo como deve ser um lugar
de leitura. A loja de instrumentos e partituras musicais já apresenta
uma clientela maior, mas o clima de respeito, com pessoas conversando
em voz baixa, vestidos de maneira tradicional sem ostentação,
com gestos contidos traduzem uma clientela com um certo grau de sofisticação,
habituada talvez a freqüentar ambientes similares em outros centros.
Circulando pelo CONIC pudemos observar a presença
de pessoas notáveis da sociedade urbana de Brasília, entre
profissionais liberais, professores universitários, e indivíduos
com seleto gosto musical procurando material original nas livrarias
e nas lojas de disco e de instrumentos e partituras musicais. Nas lojas
de material esportivo o público é tipicamente de classe
media alta do Plano Piloto e dos Lagos ao lado de típicos moradores
de áreas externas ao Plano, numa clara manifestação
de um espaço urbano como se costuma imaginar. Este é sem
dúvida um aspecto particular de um edifício urbano que
foge aos padrões tradicionais dos edifícios da administração
federal na Esplanada dos Ministérios caracterizada por ser uma
área com funções administrativas do Estado.
Os boêmios, pessoas ligadas direta ou indiretamente
à atividade artística, se instalam no CONIC em primeiro
lugar pela sua localização geográfica. Há
facilidades de estacionamento, o que está cada vez mais raro
no Plano Piloto; está próximo da Esplanada dos Ministérios
e do Congresso Nacional; a Rodoviária e o metrô, é
logo embaixo; o Hotel Nacional e o Setor Comercial Sul estão
ao lado, enfim, tudo isso faz dele um dos lugares mais privilegiados
para se estabelecer profissionalmente em Brasília. Se agregarmos
ainda a possibilidade de convivência com diferentes perfis de
pessoas atraídas ainda por algumas de suas lojas e livrarias
o CONIC não deixa de ter o seu charme garantido. Isso sobretudo
porque os freqüentadores do CONIC faz dali um lugar para estar
e não apenas para passar como é usual em shoppings.
Recentemente o edifício ocupou as manchetes dos
meios de comunicação da cidade em razão da polêmica
ocupação de um de seus espaços para a instalação
de um teatro pela Fundação Conchita que tem uma escola
no imóvel, aliás já tradicional na cidade. Esta
área faz parte daqueles arranjos de compadrios entre políticos
no poder e correligionários que se repete em Brasília
como em qualquer cidade brasileira. A TERRACAP é proprietária
de 40% do CONIC o que torna o GDF o maior acionista do condomínio.
O espaço almejado pelo Conchita foi, portanto doado pelo Governador
da época – que, aliás, não podia fazê-lo
pois é propriedade do Estado. Naquele espaço de 800 metros
quadrados foi construída a referida sala para funcionar como
um teatro laboratório. Na atual proposta de remodelação
do CONIC foi proposto que se transferisse o teatro do lugar doado pois
é considerada uma área de risco pelo contato com a rede
elétrica do imóvel. A resistência da Fundação
Conchita em mudar e o apoio que receberam da mídia impediram
a transferência, mesmo apoiada pelo IAB (Instituto de Arquitetura
do Brasil), pelo CREA (Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura),
pelo Corpo de Bombeiros e da CEB (Companhia Elétrica de Brasília).
Vive-se na esperança de nunca vir a ocorrer um curto circuito
no local, pois a tragédia seria enorme. Enquanto isso, uma ação
corre na justiça para definir o caso...
Um outro acontecimento curioso foi a chegada dos evangélicos
na área. Inicialmente houve uma proposta do Bispo Macedo para
comprar o Cine Atlântida uma das melhores salas de cinema da cidade.
De fato o cinema é tombado pelo Patrimônio, mas o espaço
estava ficando ocioso justamente pela fuga dos espectadores do CONIC.
O então governador Cristóvam encaminhou à Câmara
Legislativa uma consulta sobre as possibilidades da Igreja Universal
comprar o Cine Atlântida numa área do Plano projetada pelo
Lúcio Costa. O parecer da Câmara Legislativa foi positivo
sob o argumento de que igreja é teatro, uma diversão do
povo, não ferindo as recomendações do projeto original
do Plano Piloto e do edifício. De fato, as cerimônias religiosas
no local se assemelham a um teatro bíblico onde as pessoas entram
em catarse, numa peça única repetida indefinidamente e
que atrai multidões diariamente. Mesmo se não concordássemos
com a designação de arte às cerimônias religiosas,
do ponto de vista formal é diversão, é encontro,
é interação. Não há, portanto incompatibilidade
com o projeto de Lúcio Costa[1]. Por outro lado, a presença
dos fiéis no CONIC praticamente não interfere em nada
na rotina do edifício: chegam, oram e partem sem olhar para o
lado. É um público que não consome, não
se diverte, não se envolvendo com a vida do imóvel. Mas
acaba sendo a única razão para o CONIC estar nas residências
de milhões de brasileiros diariamente, pois as cerimônias
que ali acontecem são televisionadas em cadeia nacional.
A invisibilidade do concreto
Compreender esta diversidade de tipos sociais que aí
circulam pode ser um exercício interessante para analisar os
efeitos do projeto de Lucio Costa para o Plano Piloto de Brasília.
Isto será feito na seqüência, mas aqui pode ser significativo
apontar alguns aspectos que seriam importantes considerar numa análise
desta natureza. Saindo do CONIC na pequena praça que se situa
à sua frente, nos damos conta de que, enquanto morador do Plano
Piloto, que passa em automóveis algumas vezes por semana vindo
da Asa Norte em direção à Asa Sul, o prédio
parece invisível. Curioso que, enquanto o Conjunto Nacional chama
a atenção pelo movimento diurno ou pelos néons
noturnos o CONIC não tem registro nenhum na nossa memória.
Sinto-me incapaz de descrevê-lo enquanto transeunte rotineiro
do lugar. Tudo se passa como se olhássemos sem vê-lo. É
um edifício que situado na área mais privilegiada do desenho
da Esplanada – com exceção é claro dos monumentos
do Estado - consegue ser completamente invisível ao olhar dos
transeuntes, motorizados ou pedestres. Só muito recentemente
foram instalados anúncios em néon, dos quais uma propaganda
da Coca-Cola, ao lado de outra da Igreja Universal se destacam, sobretudo
para quem vem do Congresso Nacional, pela Esplanada dos Ministérios
em direção ao cruzamento dos eixos.
À frente do CONIC, do outro lado da praça,
existe um outro imóvel que provoca o mesmo efeito. Situado ao
lado do Setor Bancário Sul, num dos pontos mais privilegiados
para quem observa a Esplanada dos Ministérios a partir da estrutura
superior da rodoviária, onde cruzam todos os veículos
e os poucos pedestres que passam pelo eixo pela plataforma superior,
seja na direção norte/sul, seja no sul/norte, portanto
um imóvel com inúmeras possibilidades de uso. Certamente
a última destas possibilidades que poderia ser pensada é
exatamente aquela à qual se presta: sede do Touring Club, uma
função completamente desconectada do lugar, mesmo se não
levássemos em conta o projeto original para o setor. O mais cru
senso comum percebe que ali tem alguma coisa fora do lugar. Curiosamente,
é também um espaço completamente esquecido por
habitantes, autoridades, planejadores urbanos, etc. E, no entanto, junto
com o CONIC formam uma espécie de sombra naquela imagem do Plano
Piloto de Brasília que percorre o mundo todo. A sensação
que transmite é que se trata também de uma área
estigmatizada e a sua inserção na lógica do desenho
e das funções do Plano Piloto teria de ser conjunta, simultânea
para um e outro, ao risco de uma possível intervenção
parecesse sempre parcial.
Mas retornemos ao CONIC nosso objeto de reflexão
mais imediato. No imaginário das pessoas dois aspectos podem
estar na base de compreensão da razão daquela sensação
de invisibilidade que o edifício transmite. Por um lado, um senso
estético hegemônico no Plano que não consegue incorporar
nos seus parâmetros alguns princípios de uso do espaço,
sobretudo quando vem expresso por indivíduos ou grupos considerados
“marginais” ao que se toma por bom-gosto. O fato do espaço
ocupado pelo edifício ter passado a ser o lugar onde a concretização
de fantasmas que a sociedade procura ocultar mas que estão nas
suas entranhas termina por estigmatizá-lo. Certamente o submundo
que o CONIC representou passou a ser a ferida exposta da cultura asséptica
que prevalece no Plano Piloto, que, fora este edifício, talvez
só possa ser encontrada em alguns bares da cidade, como o “Beirute”
em algumas fases de sua existência. Mesmo ali, onde uma vanguarda
da cidade faz ponto, o CONIC sempre foi visto como “muito mais
maldito”, muito mais transgressor. E isso, mesmo hoje, quando
com a chegada das Igrejas evangélicas o lugar passou de profano
a sagrado, com requintes de bom comportamento por parte dos fiéis
freqüentadores dos templos aí localizados.
Por outro lado, é a própria localização
do edifício, uma extensão do Setor Comercial Sul, que
como tudo no Plano Piloto parece tão longe, mesmo quando está
“logo ali...”. O que se constata é que o CONIC só
se torna uma exceção quando olhado, ou da Esplanada, ou
do Teatro Nacional, ou até mesmo do Conjunto Nacional. Do contrário,
ele é apenas uma prolongação do Setor Comercial
Sul em direção à rodoviária, beneficiando-se
de uma quantidade enorme de pedestres, consumidores em potenciais, que
fazem o trajeto cotidiano de ida e volta ao SCS – Setor Comercial
Sul nas suas rotinas de trabalho. O fato é que se trata de categorias
sócio-profissionais para quem o Plano Piloto apesar de não
ter sido pensado para eles, são absolutamente imprescindíveis
para a consolidação de Brasília como cidade. Indivíduos
de diferentes raças, a maioria habitante das cidades satélites,
comerciantes, profissionais liberais, bancários, camelôs,
jornaleiros, flanelinhas, auxiliares de escritórios, office boys,
enfim, uma multiplicidade de atividades que terminam por serem os verdadeiros
responsáveis para que o Plano Piloto seja um verdadeiro espaço
urbano. Do contrário, nada o diferenciaria de uma grande repartição
pública, fechada num condomínio de luxo que custa muito
caro aos cofres públicos para se manter. Representado numa figura
o Setor Comercial Sul, incluindo o CONIC seria uma mancha escura na
assepsia do Plano Piloto, que respira e inspira multidões que
utilizam a rodoviária para acessarem a área, tal como
águas pluviais, ou esgotos que escorrem para os bueiros da cidade.
Chega a ser curiosa a admiração do arquiteto Lúcio
Costa quando revisitando o Plano Piloto constata o povo circulando pela
Rodoviária. Como se no Brasil, fossem outros grupos que fizessem
uso de transporte coletivo. Afinal, foi uma cidade ou foi um bairro
o que se planejou?
O imaginado e o acontecido com o CONIC
O CONIC é parte do projeto original do Plano Piloto
e pensado como tal pelo próprio Lúcio Costa como um setor
de diversões urbanas. É interessante ressaltar que, com
todas as restrições que porventura se possa fazer ao edifício
ele é patrimônio da humanidade tanto quanto os demais imóveis
de porte que aparecem no projeto original da cidade. Neste aspecto talvez
seja esta a única razão pela qual não tenha ainda
sido demolido, como de tempos em tempos se cogita.
Na proposta original de Lúcio Costa este “Setor
de Diversões Sul” estaria selecionado para abrigar livrarias,
cafés, boates, e outras atividades que pudessem vir a preencher
as necessidades de lazer da futura população do Plano.
É interessante este aspecto pois, embora se tenha tido a intenção
de diversificar os grupos sociais que viriam habitar a cidade planejada,
os equipamentos de lazer propostos se dirigiam, em tese, para padrões
sofisticados de consumo, numa clara ambivalência daquilo que a
proposta continha. De fato, este Setor de Diversões é
imaginado como algo sofisticado, para atender padrões também
sofisticados de consumo.
A expectativa de que as pessoas nos fins de tarde viessem
para o Setor para uma bebida ou uma conversa descontraída com
amigos ou companheiros de trabalho estaria ligado ao clima ameno da
cidade, sobretudo no seu longo período de estiagem anual (de
fins de março a fins de outubro são raras as chuvas no
Planalto Central). A tentativa de se reproduzir um padrão de
uso do espaço próximo de um ‘Quartier Latin”
onde diferentes grupos de funcionários, estudantes, comerciantes,
profissionais liberais se encontram denota uma intenção
de reproduzir algo sofisticado que, fora a democracia dos espaços
das praias urbanas do Rio de Janeiro, não corresponde à
cultura de lazer da classe média urbana do país. De qualquer
forma, a existência de um teatro, de uma escola de arte dramática,
de livrarias de diferentes especialidades – cientificas, religiosas,
etc – de cinemas (hoje cedendo lugar a templos evangélicos)
dentre outras modalidades de comércio, que poderia ser privilégio
de consumidores mais exigentes, não foi suficiente para evitar
que, devagar, o uso do imóvel fosse cada vez mais popular. À
este discurso inicial que planeja uma área com um certo uso para
um grupo com um certo padrão de exigência e de estética
se impregnou a imagem estigmatizada que o CONIC apresenta hoje frente
aos moradores do Plano Piloto.
Esta imagem estigmatizada se apresenta em duas dimensões:
por um lado, pelo estado de conservação do imóvel,
abaixo dos padrões médios dos shoppings da cidade; por
outro pelo perfil médio dos freqüentadores do lugar, no
geral, pessoas com padrões estéticos e de consumo menos
seletivos que os que freqüentam aqueles shoppings. Curioso que
o Setor Comercial Sul (SCS) ao lado, não provoca tanto mal-estar,
mesmo porque, se compondo de diferentes edifícios, o uso e o
porte são muito superiores ao do CONIC e a sua apropriação
é absolutamente absorvida pelos moradores do Distrito Federal.
Certamente essa absorção se dá também pelo
próprio desenho das ruas e dos imóveis que compõem
o SCS. Trata-se de uma área onde a circulação interna
só é feita quando se tem algo absolutamente necessário
para resolver no lugar; caso contrário, integra também
aqueles espaços “invisíveis” do Plano Piloto,
em torno do qual passamos quotidianamente ser vê-lo. Ao contrário,
portanto, do CONIC este sim, situado num lugar de passagem obrigatória
para quem circula no Plano Piloto, detentor de uma visibilidade potencial
evidente.
Um breve histórico do edifício
A inauguração do CONIC se deu por volta
de 1967, ou seja, sete anos após a inauguração
da nova capital, sendo o primeiro edifício voltado para a Esplanada
dos Ministérios. Foi batizado informalmente por CONIC a partir
do nome da construtora pernambucana que o edificou, com seu nome numa
enorme placa durante a obra, terminando por se fixar na memória
dos passantes como uma das referências da área. Na época
Brasília contava com aproximadamente 90.000 habitantes, a maioria
moradora do Plano Piloto (ainda em fase de implantação)
e algumas poucas cidades satélites (Taquatinga, Ceilandia, Sobradinho,
Núcleo Bandeirantes). De fato, a burocracia do Estado que vinha
se instalando em Brasília ainda era em pequeno número:
os órgãos públicos e as embaixadas, foram chegando
devagar, alguns deles resistindo à mudança, enquanto outros
permanecem até hoje na antiga capital.
As superquadras mais antigas, da Asa Sul (108, 308, 208,
408 e as vizinhas), além de algumas outras esporádicas
não conseguiam tirar o sentimento de um grande canteiro de obras
que ainda hoje surpreende o mais desprevenido visitante da cidade. Assim,
o CONIC era de fato longe e de difícil acesso para os moradores
na época, não exercendo um papel de centro de diversões
cotidianas e rotineiras tal qual havia imaginado o seu idealizador.
Como iremos observar mais à frente, o edifício vai assumindo
funções que se alternam com a consolidação
do projeto da nova capital, em cada momento funcionando de forma integrada
à vida da cidade.
Mesmo assim, apesar de nunca ter se transformado naquilo
que foi planejado, logo após sua inauguração o
CONIC atraiu embaixadas ainda em fase de implantação na
cidade com suas sedes em construção. Esta presença
atraía restaurantes e lojas mais sofisticadas quase que concretizando
a imagem primeira o edifício. A história mostra que, uma
vez terminado a construção de suas sedes e toda a atividade
de rotina sendo transferida, o CONIC sofre muito rapidamente um processo
de esvaziamento de suas funções e muda devagar o uso de
suas instalações. Começam a aparecer clubes noturnos,
bares pouco sofisticados dando início à degradação
da área, na medida em que espanta a classe média do Plano
e é esquecido pelas autoridades locais.
O processo de degradação do edifício
e arredores
Num primeiro momento, o fato de se ter um edifício
estigmatizado no centro do Plano Piloto de Brasília, em si, não
é uma questão original. Todas as grandes cidades do mundo
apresentam áreas desvalorizadas, justamente em locais que, pela
sua antigüidade já contam com toda a infra-estrutura urbana
praticamente completa. É aliás essa a razão pela
qual a onda de renovação urbana tem sido observada em
praticamente todas as grandes cidades do mundo ocidental nestas últimas
décadas. Paris, Nova York, Barcelona, São Paulo, Salvador,
Recife dentre outras, passam por processos de gentrificação
de seus espaços degradados, atraindo uma classe média
endinheirada e intelectualizada que valoriza justamente a estética
e o conforto dos velhos imóveis de outros tempos. Apesar de tímida,
a tentativa de renovação do CONIC vai na mesma direção,
Entretanto, fica sempre uma questão inquietante:
porque edifícios ainda recentes, situado em áreas privilegiadas
da cidade, gozando de facilidade de acesso e de uma infra-estrutura
completa e adequada se deteriora com tanta rapidez? É verdade
que o Plano Piloto tem alguns espaços com características
de degradação precoce mas todos eles nunca antes ocupados
efetivamente. São muitos deles projetos inacabados, que se transformam
em ruínas antes mesmo de terem sido inaugurados. Assim é
com um grande terreno ao lado do Venâncio 2000 que contém
há décadas as fundações de um edifício
abandonado; um outro, o esqueleto de um edifício no setor hoteleiro
norte, ao lado do Brasília Shopping, projetado para ser um hotel,
cuja obra foi embargada-; áreas vazias e ocupadas por edifícios
provisórios como a que se situa na frente do Liberty Mall, o
próprio setor bancário norte com enormes espaços
vazios entre edifícios administrativos (correios, INSS, administrações
e autarquias do GDF) formando verdadeiros terrenos baldios em pleno
Plano Piloto onde nem pedestres nem veículos têm acesso,
etc.
Mas o CONIC é diferente. Aqui é, de fato,
um imóvel em pleno uso, com uma inserção específica
na vida da cidade e que pode ser considerado como um dos mais ecléticos
imóveis do Plano Piloto, pela diversidade de usos e de freqüência.
Se rompermos com a imagem de shopping center como aquele lugar super
protegido, fechado, sem visibilidade externa, o CONIC pode ser considerado
um shopping center tal e qual os demais. Talvez até mesmo uma
proposta de centro comercial e de diversões que foge aos padrões
similares oriundos dos modelos norte-americanos, e justamente por isso,
bastante original enquanto concepção arquitetônica,
dada as características climáticas do Planalto.
Poderíamos também formular uma outra questão:
porque o CONIC se deteriora, enquanto o Conjunto Nacional, de seu lado
e com várias semelhanças de usos guarda sua imagem? Mesmo
se levarmos em conta que o público que freqüenta o Conjunto
Nacional seja também diversificado por origem e renda, (característica
aliás inevitável pois a localização no cruzamento
dos eixos e sobre a rodoviária urbana induz automaticamente a
isso) o edifício tem muito dos princípios arquitetônicos
padronizados para shopping centers. A exceção são
lojas com abertura para as calçadas externas, mas que por arranjos
de fácil execução se voltaram para o interior do
prédio. Fora isso, é um shopping com diversidade de usos
e de freqüência dos mais movimentado da cidade com condições
semelhantes ao CONIC. Não deixa de ser, portanto, uma questão
que se coloca quando se pensa nos caminhos que seguiram um e outro edifício.
Uma das causas desta diferença pode ser atribuída
ao modelo de gestão adotado em ambos. Enquanto o Conjunto Nacional
foi adquirido por um grande grupo que o transforma naquilo que ele é
hoje, submetendo-o a uma única administração, o
CONIC é formado por 13 edifícios, logo 13 condomínios,
com 1.700 proprietários, cada qual com sua parcela de poder na
definição dos rumos do imóvel. Há cerca
de dez anos atrás foi criada uma Prefeitura do conjunto para
centralizar a administração do prédio, com a função
prioritária de acabar com o estigma de área perigosa e
para normatizar as áreas degradadas. A primeira função
foi praticamente cumprida: cria-se uma delegacia de polícia dentro
do edifício e restringe-se o tráfico de drogas e prostituição,
completamente varridos da área. Podemos, mesmo sem parecer enfáticos,
considerar que hoje o CONIC é uma das áreas mais seguras
dentro do Plano Piloto[2]. Entretanto, o estigma permanece. As razões
disso só poderiam ser encontradas na lógica de fixação
de pré-conceitos no imaginário dos habitantes da cidade
que se enraízam e, portanto, de difícil remoção.
O espaço urbano é a concretização do imaginário
social que se constrói no histórico cotidiano e o CONIC
permanece ainda como lugar pouco nobre. De qualquer forma, com a retirada
dos agentes da marginalidade que ali tinham suas bases, devagar o CONIC
vem se transformando através de remodelação de
aspectos do projeto original[3], numa procura de resgate de sua proposta
original. Isso significa que enquanto o CONIC não for transformado
estetica e racionalmente no sentido segundo padrões usuais dos
shoppings vizinhos ele permanecerá um “corpo estranho”,
separado, mas funcionalmente necessário, limitado que está
àquela racionalidade do Plano Piloto.
De qualquer maneira é esta diferenciação
no uso face aos demais imóveis da área que parece constituir
o ponto de apoio mais importante do argumento segundo o qual não
se pode considerar a área da Esplanada dos Ministérios
esteticamente unificada. Entretanto vale ressaltar ainda o potencial
de área alternativa que o CONIC contém. Se por um lado,
conforme destacado acima, a multiplicidade de proprietários dificulta
a gestão do imóvel nos moldes que ocorre em outros shoppings
centers, por outro, esta condição pode ser um trunfo que
o diferencia das experiências similares no Plano. Sim porque o
CONIC vem, devagar, se tornando uma área alternativa dentro do
Plano Piloto, numa clara diferenciação entre o organizado
e o racional cartesiano que é o Projeto de Lúcio Costa;
de fato, por se tratar de uma área anárquica, caótica,
enfim urbana, e graças a esta indefinição, uma
área com maior liberdade de uso, o edifício começa
a seduzir uma gama de artistas, arquitetos, poetas, cineastas, etc,
atraídos justamente por esta “irracionalidade” e
este ar de pretensa “marginalidade”, numa extensão
do espaço cultural representado pela Universidade de Brasília,
mas sem a submissão aos parâmetros institucionais que a
caracteriza. Este fenômeno termina por dar ao CONIC uma dinâmica
cultural diferente daquela que caracteriza, por exemplo, a Universidade,
mas tão potencialmente rica como aquela[4]. Na verdade uma área
que aparece quase que como um gueto dentro do Plano Piloto.
Um “gueto” ao inverso no Plano Piloto
A idéia de “gheto” urbano vem da obra
de Wirth quando trata das características socioculturais do bairro
judeu de Chicago na primeira metade do século XX. Conforme o
próprio Wirth destaca, parece que o gueto foi, na origem, um
lugar de Veneza, um de seus bairros, onde se estabeleceu a primeira
comunidade judaica. Se transformou, ao longo do tempo, numa instituição
reconhecida pelo costume e definida pela lei[5]. Os dicionários
da língua portuguesa definem gueto como “bairro em qualquer
cidade, onde são confinadas certas minorias por imposições
econômicas e/ou raciais”.
Tanto a definição de Wirth como aquela
do dicionário não poderia se adequar à caracterização
do CONIC como um gueto. Um olhar mais apressado diria mesmo que é
o oposto, dada a diversidade de tipos urbanos que o freqüenta e
que terminam por dar-lhe sua identidade. Entretanto, visto no contexto
do Plano Piloto, especialmente na Esplanada dos Ministérios,
no qual ele se insere, ele aparece justamente como uma exceção
ao padrão estético e funcional da área. Neste sentido,
e apenas neste, ele aparece como um espaço singular que abrange
não apenas os tipos sociais mas também a sua própria
arquitetura interna que vai sendo criada e recriada sem a rigidez legal
da Esplanada. Aí sim ele é singular; uma singularidade
que se acentua dada a “distância” do Setor Comercial
Sul. Aí ele pode ser visto como um gueto onde a maioria da população
do Distrito Federal se sente minoria no espaço físico
da sede do governo nacional, um corpo estranho a uma classe média,
padrão homogêneo dos habitantes do Plano. Isso significa
que enquanto o CONIC não for transformado estética e racionalmente
no sentido segundo padrões usuais dos shoppings vizinhos ele
permanecerá um “corpo estranho”, separado, mas funcionalmente
necessário, limitado que está àquela racionalidade
do Plano Piloto. De qualquer maneira é esta diferenciação
no uso face aos demais imóveis da área que parece constituir
o ponto de apoio mais importante do argumento segundo o qual não
se pode considerar a área esteticamente unificada.
Permanece sempre a pergunta do porque numa área
tão privilegiada o “povo brasileiro” tomou conta
daquele espaço. Uma das possíveis explicações
pode estar no grupo que está por detrás da construção
dos prédios do CONIC. Brasília foi um eldorado para as
construtoras quando da edificação da cidade nos anos 50.
Além das grandes empresas nacionais que se responsabilizaram
pelas obras dos edifícios públicos, pelo sistema viário
e mesmo pelos blocos dos apartamentos funcionais, outras empresas regionais
também fizeram fortuna naquele momento. O CONIC tem entre seus
construtores três dos grandes pioneiros construtores de Brasília:
o Venâncio, que já foi a maior fortuna da cidade, o Baracá
e o Karim Narrote (?). Talvez por razões de economia, ou por
valores culturais e estéticos ou mesmo porque a cidade que se
construía naquele momento não tinha ainda como exigência
a ostentação de luxo e sofisticação como
atualmente ocorre, o fato é que o visual do prédio é
simples, sem ostentação. Fica evidente quando o olhamos
que nenhum dos três construtores tiveram a estética como
diretriz. Aliás, se olharmos os prédios por eles construídos
no Plano Piloto certamente eles estariam classificados entre os mais
feios do Plano: uma arquitetura sem estilo, numa caricatura de um modernismo
caboclo. O CONIC, junto com o Venâncio 2000, o próprio
Venâncio 3000 e o prédio de galerias comerciais localizado
no início da W3 Norte, além de outros no Setor Comercial
Sul, enfim, construções que envelheceram e perderam o
charme muito rapidamente. Curiosamente todos eles são prédios
invisíveis, no sentido que passamos sem vê-los como uma
sombra, opacos sob o sol do Planalto, pontilhado por edifícios
com arquitetura monumental. Dentro dos prédios que constituem
o complexo do CONIC a única unanimidade parece ser o Edifício
Eldorado, com linhas mais sofisticadas próximas daquilo que foi
imaginado por Lúcio Costa, mas que se perde entre os demais com
desenhos sem maiores destaques.
Mesmo com esta característica o CONIC vem se destacando
dos outros centros comerciais similares dentro do Plano Piloto. De forma
discreta, quase imperceptível se constata que bons fotógrafos
de Brasília com excelentes laboratórios de revelação
de filmes, vários cineastas, as livrarias, as lojas especializadas
em produtos de consumo da juventude mais vanguarda da cidade (skates,
surfs, patins, tênis, etc) que têm todo um padrão
de consumo difundido pela juventude norte-americana, inglesa que se
adequa mais a um espaço como o CONIC do que um shopping padrão.
Uma outra característica é a enorme concentração
de Partidos Políticos em sua área; em se tratando da capital
política do país, pode-se perceber o significado disso.
Desta forma, o lugar vira um ponto obrigatório de passagem para
jovens de diferentes classes sociais, políticos, jornalistas,
profissionais liberais, o que o distingue das demais galerias comerciais
da cidade.
A dinâmica social do edifício
Há um consenso entre os freqüentadores usuais
do CONIC, mais particularmente entre os comerciantes que têm lojas
no edifício de que se trata de um dos lugares mais seguros do
Plano Piloto, incluindo o Setor Comercial Sul e o próprio complexo
Gilberto Salomão no Lago Sul área nobre da cidade. Este
argumento pode encontrar princípio de realidade, sobretudo se
levarmos em conta a presença de um batalhão da polícia
militar com uma delegacia dentro do próprio prédio: fala-se
num efetivo de 500 homens que se revezam dia e noite na vigília
do prédio e arredores o que inviabiliza qualquer convívio
com criminosos de qualquer estirpe. Claro que não estamos aqui
considerando o trabalho das prostitutas que ali fazem ponto, mas que
se restringem à rua inferior, de uso quase exclusivo de veículos,
e ao período noturno, não causando nenhum transtorno maior
aos freqüentadores do lugar, inclusive os evangélicos e
suas famílias. Portanto o CONIC hoje tem uma imagem estigmatizada
principalmente junto à classe média tradicional do Plano
Piloto, resquício de um período onde a situação
beirava ao descontrole. Podemos considerar três fases na vida
do edifício a partir de sua inauguração.
Numa primeira fase, o edifício atraía as
embaixadas estrangeiras que tinham ali seus escritórios de representação,
os profissionais liberais, partidos políticos, etc. A localização
privilegiada facilitava a preferência que se manteve enquanto
as sedes oficiais das representações diplomáticas
foram sendo construídas. Naquele momento, o local era freqüentado
pela alta burocracia do Estado, tinha lojas e restaurantes condizentes
com os freqüentadores, um retrato que se aproximava muito daquele
imaginado por Lúcio Costa. Este público com poder de compra
estável e de elevado padrão certamente atrai diferentes
atividades para a área, particularmente aquela que se instala
na Segunda fase do edifício.
Nesta fase segunda, o local é invadido pela prostituição,
crime, tráfego de drogas, num período de alta decadência,
responsável pela imagem que o edifício carrega até
os dias atuais. Esta imagem se alastra com uma certa facilidade, talvez
pela situação do imóvel dentro do Plano Piloto
e a sensação de invisibilidade que ele transmite aos passantes
pelas suas calçadas e ruas que o circundam. É esta ambivalente
situação espacial – visibilidade e invisibilidade
- aliado a um desenho interno que, tentando reproduzir ruas e becos
de sítios urbanos tradicionais, termina por ser funcional às
transgressões que ali se desenrolavam. Se considerarmos que a
sociedade não deixa de ser um mecanismo de introjeção
de valores e comportamentos, muitos deles incompatíveis com a
própria natureza humana, podemos também assumir que espaços
de transgressão sempre existiram nas cidades na história.
A funcionalidade da prostituição – “a mais
antiga profissão do mundo” – amenizando instintos
sexuais das pessoas, as drogas, que funcionam como mecanismos de escape,
ou de vícios, enfim uma série de práticas que são
reprimidas socialmente mas que a sociedade arruma sempre uma forma de
permitir a sua existência. Claro que os espaços urbanos
para práticas transgressoras nunca são obtidos de forma
legal ou tranqüila. Até o aparecimento da pílula
anticoncepcional quando então a sexualidade humana se liberta
de valores seculares, era comum nas cidades brasileiras reservar uma
de suas áreas onde se concentravam as prostitutas (a zona); hoje
estas zonas estão completamente desaparecidas. É de se
supor que nos anos sessenta e setenta a cidade tinha um mercado razoável
para o sexo, na medida em que as pessoas chegavam, desenraizadas, descoladas
de vínculos mais estreitos e, sobretudo, com salários
fixos que permitiam alguns “excessos”. Uma parcela da burocracia
vai encontrar na oferta das prostitutas do CONIC uma facilidade enorme
para se satisfazer e, em sendo um negócio, pode-se argumentar
que há uma racionalidade econômica na opção
por aquele território. Argumentos semelhantes pode ser aplicado
para o tráfego de drogas, que se beneficia do mercado do Plano
Piloto.
Atualmente, podemos considerar como sendo a terceira
fase do CONIC. Cria-se uma prefeitura atendendo demanda dos comerciantes
e profissionais que trabalham no Edifício, instala-se uma delegacia,
há uma debandada do crime e do tráfego. Esta terceira
fase pode ser considerada a “onda política” com a
presença da sede de diferentes partidos e, portanto, freqüentado
rotineiramente pelos dirigentes e militantes. Alguns estabelecimentos
comerciais (livrarias, teatro, lojas especializadas, alguns bares) atraem
professores universitários, aposentados (o Plano Piloto é
cada vez mais uma área de aposentados), profissionais liberais
que, ao lado dos candangos das satélites fazem do lugar um ponto
de referência, de encontro. De forma que hoje, entre o estigma
de lugar decadente e a procura de um charme de vida urbana que raramente
se encontra no Plano Piloto o CONIC enfrenta sua nova fase.
Poderia estar aí um dos trunfos da reabilitação
ou da inserção do CONIC no Plano Piloto nos moldes que
foi pensado por Lúcio Costa. Para os moradores da cidade uma
das maiores carências é as áreas de convívio
coletivo que escape aos jardins e áreas verdes. Aquilo que falta
nas grandes cidades brasileiras, Brasília tem em quantidade enorme.
Mas ao mesmo tempo, não dispõe de “botecos”
um velho hábito urbano do país, que foi completamente
esquecido, talvez pela trivialidade do fato. A Esplanada dos Ministérios
onde circulam milhares de pessoas por dia não têm um bar,
um restaurante que não seja os funcionais dentro dos Ministérios.
Isso é verdade também para o Setor de Autarquias, a própria
Universidade de Brasília, enfim todas as áreas monofuncionais
da cidade onde é dificílimo tomar um cafezinho, utilizar
um banheiro, sentar numa mesa para um aperitivo, uma conversa. Lazer
em Brasília são bares e restaurantes a maioria deles formais
o suficiente para exigir um certo ritual de freqüência. Dificilmente
são lugares aonde se vai espontaneamente. Pois o CONIC é
justamente isso. Com uma localização privilegiada, pensada
justamente para ter estas características de uso, sem a assepsia
de shoppings com seus insistentes apelos de consumo. A parcela criativa
do urbanista foi pensada, o que faltou foi a criatividade das pessoas
que para cá vieram, obviamente com as exceções
de praxe.
Espaço de exceção que atrai
milhares de pessoas
Toda a discussão sobre o estigma que caracteriza
o CONIC é no fundo um olhar de fora sobre o edifício.
Há na cidade indivíduos que freqüentam rotineiramente
o lugar, fazem dali um ponto de encontro para encontrar amigos, conversar,
comprar coisas, enfim, fazem dele um lugar urbano de multiusos. Entre
restaurantes self-seervice, botecos, bares tivemos a oportunidade de
sentarmos num verdadeiro café urbano, com pessoas nas mesas,
no balcão, nas calçadas apressados, numa imagem de uma
rua de cidade[6]. Para a rotina de Brasília, onde o ato de andar
à pé só se faz nos fins de semana quando se caminha
pelas superquadras ou pelos parques, ficou uma sensação
curiosa e familiar ao mesmo tempo. De fato, a cidade tem gente, tem
um movimento. No fundo, é ali que a Esplanada é mais cidade.
Trabalham nos edifícios do CONIC uma população
aproximada de 10.000 pessoas e circulam pela sua área cerca de
150.000 pessoas por dia. De fato, o CONIC disputa com o Conjunto Nacional
(aproximadamente 500.000 pessoas/dia)o maior número de pessoas
diárias nas suas dependências. Evidentemente este afluxo
de pessoas neste espaço está diretamente ligado à
presença da rodoviária urbana com ônibus e outros
tipos de transportes coletivos que unem a Esplanada a todo o Distrito
Federal. Mesmo se a classe média do Plano e dos Lagos não
tem o hábito de circular pelo CONIC, não se deve menosprezar
o seu potencial de atração de pessoas. Além do
comércio, nos seus edifícios se localizam salas de médicos
reputados, advogados, escritórios contábeis, de representações,
laboratórios fotográficos, de exames clínicos,
diferentes associações, corretores, agências de
turismo, editoras, etc. Ora, a presença destas atividades no
edifício é exclusivamente pela sua localização
privilegiada, que é o grande trunfo do CONIC.
A diversidade de tipos humanos e de atividades econômicas
poderia dar margens a tensões no convívio diário.
Mas tudo está indicando que há códigos informais
de convívio e as pessoas terminam por não interferir no
espaço uma das outras. A permanente presença de policiais,
aliado ao fato de que cada condomínio tem a sua segurança
particular, também vai no sentido de garantir a paz entre os
que por ali circulam. Certamente a imagem de uma área caótica
que se sente quando ali estamos tem muito da programação
visual do comércio ali existente, o que poderia ser resolvido
sem maiores dificuldades.
Na verdade, podemos nos perguntar se seria o caso de
intervir para alterar ou ordenar o espaço coletivo do edifício?
Claro que se olharmos pelo lado da arquitetura não oficial do
Plano Piloto, especialmente da Esplanada, o CONIC é sem dúvida
o maior monumento histórico da cidade. O fato de os arquitetos
oficiais da nova capital não terem tido nenhuma preocupação
com populações fora do núcleo do poder, do governo,
faz do CONIC um exemplo típico do oficial e do não oficial
na estética do Plano Piloto. Tendo sido um desenho de cidade
imaginado numa prancheta e implantado tal e qual, não se pode
negar um certo autoritarismo na construção da cidade.
Sem entrar no mérito sobre o significado de se ter uma cidade
oficial com sua planta e seus edifícios sob a responsabilidade
quase que exclusiva de dois profissionais do urbanismo e da arquitetura,
por mais brilhante que sejam, passa uma sensação de uma
harmonia imposta. O CONIC nesta relação entre o oficial
e o não oficial representa a antítese daquilo que é
a regra geral para o Plano Piloto: um senso estético, um desenho,
uma concepção de vida urbana que chega pronta e acabada,
deixando poucas margens para a criatividade da cultura de um povo.
Pelo seu estigma junto à população
do Plano Piloto e, em conseqüência, junto à burocracia
do planejamento da cidade, tanto federal como distrital, não
se questiona possíveis intervenções no imóvel.
Qualquer uma seria preferível a deixa-lo tal e qual ele se encontra.
Talvez seja o único edifício de uma área tombada
pela UNESCO que, de tempos em tempos, alguém propõe demolir.
Causa pouca reação propostas desta natureza, mas serve
para reunir um grupo de intelectuais, arquitetos, artistas, comerciantes
e freqüentadores do CONIC num grupo de reflexão para traçar
o futuro do edifício e protege-lo das ameaças de destruição.
São grupos voluntários, que defendendo o edifício
contribuem para consolidar a sua identidade. Tudo está indicando
que intervenções seriam simplesmente para consolidar o
papel atual do CONIC construído em décadas de existência
que se confunde com a própria história da cidade. Será
neste confronto entre o “ódio” que o CONIC provoca
em uns e o “amor” que desperta em outros que o futuro do
edifício está sendo tratado. O perigo é que em
Brasília Tânatos costuma adquirir um espaço enorme
de ação, o que obriga Eros estar sempre atento e forte.
[1] - Nas palavras do entrevistado: “É
polêmico mas se respeitamos a liberdade de culto e de crença
a Igreja Universal é hoje o teatro do absurdo mais importante
do mundo”.
[2] - Após o periodo de auge quando de sua inauguração
o CONIC sofre um processo de decadência que transforma o lugar
num ponto de trafico de drogas, prostituição e mendicância.
A Prefeitura trouxe então o Batalhão da Policia Militar,
afuguentando os indesejáveis. Hoje não se fala mais em
quadrilhas de traficantes agindo no CONIC e a área é uma
das mais seguras do Plano Piloto.
[3] - Liderados principalmente pela arquiteta Flavia
Portella que redesenha o projeto do CONIC e propõe várias
intervenções no seu desenho físico.
[4] - O proprietário da Musimed, loja de instrumentos
musicais e partituras, uma das principais no país no gênero,
é de origem tcheca e professor do Instituto de Artes da UnB;
o proprietário da Casa do Livro é talvez um dos livreiros
mais cultos do país, além de médicos, arquitetos,
advogados que têm salas nos edifícios do CONIC e aí
exercem suas atividades.
[5] - Louis Wirth – Le ghetto – Presse Universitaire
de Grenoble, 1980
[6] - Estamos nos referindo ao Café Belas Artes
onde foi realizada a entrevista.