Fernando Madeira 

 
 
 
 

  

BRASÍLIA:

ESPAÇO E PODER

Fernando Madeira

Geometrias da fuga

O Planalto Central do Brasil é um grande território com pouco relevo. Imensa planura que se estende ao infinito, caindo em penhascos nas suas bordas. No mais, é a grande abóbada celeste. Esta sim, parece que tudo abarca: o horizonte e nossos olhos.

A excessiva luminosidade. Reflexos em nuvens e na própria concavidade do céu fazem brilhar e difundir raios de luz sobre a geométrica aglomeração de prédios e jardins que caracterizam a paisagem urbana

Desde o início do século passado estava definida, por razões geopolíticas, a localização desta cidade-capital: no centro e no divisor de águas do Brasil. O traçado urbano segue uma idéia específica que acompanha sua função: a própria cidade deveria ser um símbolo de identidade para a nação brasileira. Centro de decisões, resultado e alavanca de um projeto de modernização em uma década de desenvolvimentismo. Marchar do litoral para o interior, criar riquezas, alinhar-se rapidamente à modernidade.

O desenho segue a rigidez de um plano clássico, racional onde há pouco lugar para o espontâneo, para a invenção. Tudo está previsto. Apesar disso, essa característica leva à questão: seria Brasília uma cidade ou seria ela uma não-cidade, aproximando-se mais de um parque temático onde em vez de entretenimento e vida pública e cidadã, as pessoas teriam que saber lidar com os signos de poder e da comunicação,todos tivessem que ser peritos em decifrá-los?

O espaço é um vazio em expansão. Vazio natural e vazio previsto, desenhado. São imensos gramados, pontilhados de árvores e edifícios bem afastados das largas vias de rolamento. Tudo é tão grandioso que o ser humano se sente diminuto. Amplidão, magnitude, imensidão são características que freqüentemente aparecem para qualificar estes espaços.

Completam o vazio urbano, os gigantescos estacionamentos e os dois grandes eixos – o Rodoviário, no sentido norte sul e o Monumental, no sentido leste oeste. No final do eixo Monumental, encontra-se a praça que sedia os poderes da república e onde se alcança com os olhos a totalidade do horizonte do planalto.

A cidade é estruturada em torno de um conceito fundamental, o conceito de escala e se refere analogicamente aos princípios contidos na “Carta de Atenas”, documento final do 4º Congresso Internacional de Arquitetura Moderna – CIAM, ocorrido em Atenas em 1933. A escala residencial que responde pelas quadras de habitação coletiva e seus serviços; a bucólica, compreendida pelos espaços verdes que alcançam a elevada cifra de 100m2 de área por habitante; a gregária, que se situa no cruzamento dos dois grandes eixos, onde está construída a Rodoviária e demais espaços adjacentes que propiciam a interação social; e, por último, a monumental, referência da cidade-capital e local onde se situam os edifícios ministeriais, congresso, palácios, Catedral, teatro, etc. A área verde engole a cidade e faz a ligação desta com a vegetação natural do cerrado.

Nos dias úteis, por quatro vezes e em horários determinados, a cada dia, há muito movimento... São milhares de veículos, motoristas apressados na busca de uma vaga o mais próxima possível de seu local de trabalho, para estacionar. Nos finais de semana, solidão e silêncio.

Na Praça principal, a grandeza impressiona. Corta o horizonte o mastro preto, robusto e alto da Bandeira Nacional, ao se olhar em direção ao sol nascente. O Palácio do Planalto e o Palácio da Justiça, cada um de um lado, procuram fechar o retângulo. As nossas costas, do lado oeste, dois arranha-céus gêmeos ladeados de cúpulas, uma para cima e a outra invertida, com o lado côncavo para baixo, Câmara e Senado, completam o cenário conhecido no Brasil e no mundo: a Praça dos Três Poderes.

Além da Praça, do lado do sol, o Cerrado que se prolonga quase que infinitamente até o lago. Na direção contrária, distante da Praça 2,5 km, a Rodoviária, que significa o cruzamento dos eixos Monumental e Rodoviário, como os braços de uma cruz, segundo palavras do próprio autor do projeto, o arquiteto Lúcio Costa.

A Esplanada dos Ministérios, assim dita por sediar os diversos ministérios, desenvolve-se entre esses dois pólos. Mais próximos à Rodoviária, serão construídos, de um lado e de outro, os setores culturais: o futuro Ministério da Cultura e o Arquivo, Museu e Biblioteca. Neste setor somente o Teatro Nacional já está construído.

A partir da Rodoviária, há um crescendo em direção à Praça. Um pólo é o contraponto do outro. O Terminal Rodoviário é lugar de grande concentração São dezenas de milhares de pessoas que se deslocam diariamente de suas cidades em direção ao Plano Piloto. Ao chegarem, circulam por um comércio típico destes terminais, desde fotógrafos “lambe-lambe” a quiosques de vendas de pastéis e caldo de cana, passando por correio, livraria, farmácia, agência de turismo, agência de emprego, banco, etc.

Saindo da Rodoviária, o passageiro que se dirige a Praça, tem que mudar de atitude, entrar em outro clima. Há uma transformação radical: em lugar da agitação, da concentração de pessoas, o vazio, a rarefação. Da diversidade ou justaposição de funções, a função única; do jogo simbólico resulta a imagem de um poder central, ou melhor, dos três poderes, Executivo, Legislativo, Judiciário, legitimados pela bandeira, hasteada no alto de um mastro também monumental. A sensação que muitos experimentam ao empreender esta viagem é quase sempre a mesma, quer se trate de funcionários públicos, residentes ou simples turistas. É a sensação de reverência, de redução, de impotência frente aos totens nacionais. Trata-se de um espaço rigorosamente formal, institucional, estatal.

Não é um espaço para ser vivenciado, para ser fruído em sua plenitude pela sociedade. Ou se trabalha no governo ou para o governo, ou simplesmente se admira esta limpa e racional maquete, em tamanho natural, toda ela sobrecarregada de forte simbologia, embora aparentemente neutra.

O contraste entre a escala monumental da Esplanada e da Praça dos Três Poderes e a escala gregária da Rodoviária, é claro e patente. Não há como ligar ou costurar estes dois setores. Uma das características da cidade-capital é ser pontual, no sentido espacial, de punctum: os espaços se sucedem, separados ou pelo vazio das vias expressas ou pela verdura dos arvoredos e gramados. Embora relativamente próximas, a Rodoviária, a Esplanada e a Praça, estão, no entanto infinitamente afastadas, estratificadas. Não há como ligá-las ou promover sua costura. Aliás, essa parece ter sido a intenção do arquiteto-urbanista, autor do projeto.

Talvez seja essa a principal dicotomia de Brasília. No espaço público da Rodoviária, acontecem eventos banais, quotidianos, ou não. São interações espontâneas, encontros, panfletagem, reunião de motoristas e cobradores, usuários percorrendo o comércio local, vendedores ambulantes, pedintes, músicos, pequenas representações de teatro popular, comícios políticos, etc. É um espaço mais permissivo, propício a trocas sociais informais, com códigos mais flexíveis. É o burburinho da cidade, ainda mais que à saída teremos a última estação do futuro metrô, além de dois shoppings: o Conjunto Nacional, ao norte, e o Conic, ao sul. Lugar de grande concentração humana, o core da cidade, como diz Lúcio Costa no relatório do Plano Piloto de Brasília.

A diferença de conceito de um para outro espaço é muito grande, a começar pelos vazios e sobretudo pela mudança de escala, agora monumental. O pedestre quando se aventura a percorrer distâncias, empreende uma viagem tal qual formigas saindo de formigueiro, traçando seus circuitos. As raras manifestações públicas junto ao Congresso Nacional, embora chegue a vinte, trinta ou mesmo cinqüenta mil participantes, dão sempre a impressão de haver muito menos, como um grande estádio com menos de um terço de sua lotação.

Na Esplanada e na Praça, o código é um só: respeito aos símbolos nacionais. Aparentam ser muitas as interdições e que por mais que o cidadão esteja dentro da lei, duvida de si mesmo, se estaria fazendo algo não permitido. São difíceis as travessias. Para se ir de um lado a outro, as caminhadas são áridas. O espaço foi projetado para veículos motorizados. Chega-se de carro ou de ônibus aos locais de trabalho, e pouco gente pára a contemplar a beleza longínqua dos edifícios e da paisagem.

Nesta área, muitos dos estacionamentos públicos não o são. Boa parte deles está fechada com correntes ou outros obstáculos. Apesar dos tempos democráticos que vivemos, a presença de policiais armados guarnecendo os principais edifícios é constante. Tem-se a impressão que se está sendo constantemente vigiados. Há, parece-me, nas pessoas, nos transeuntes, um certo mal estar, um sentimento de repressão e culpa, introjetadas de maneira muito forte.

Algumas intervenções de pequeno porte surgiram aleatoriamente, procurando atender a demandas do tipo comércio de frutas, lanches, pequenas refeições, bancas de jornais, etc, surgiram, junto aos Ministérios, alguns containers e mesmo rudimentares apoios móveis. Devido à escala, são pouco notados embora num exame mais cuidado salte aos olhos a péssima qualidade daquelas intervenções e de seu mobiliário.

Outras intervenções muito tímidas foram também realizadas pelos pedestres tentando diminuir as enormes distâncias, cruzam os gramados em diversas diagonais. Alguns destes caminhos foram logo apropriados, transformados em aléias pavimentadas.

No Mall gramado, não há bancos. As pouquíssimas árvores plantadas são raquíticas e de pouca sombra. O descanso pela caminhada é sentar-se sobre o gramado. Mais isso é permitido? Tem-se a impressão que não. Mas o cansaço obriga esta parada. Descansar sobre a grama faz sentir que há algo de errado.

Em Brasília, a fragmentação, ou melhor, a divisão do espaço em funções unívocas faz desaparecer da cidade a ambigüidade inerente àquilo que se convencionou chamar de espaço público. Há mesmo um contraste entre a proposta e o que é realmente vivenciado. De um lado, o arquiteto que fala do gramado e da Praça como espaços propícios a manifestações e atividades cívicas como paradas, desfiles ou mesmo para caminhadas de pedestres; de outro lado, a vivência mostra um lugar de respeito, circunspecto, de difícil acesso e, por isso mesmo, uma barreira física e simbólica que dificulta extremamente a apropriação daquele espaço pelo brasiliense ou por qualquer brasileiro que aqui chegue ou passe.

Como despertar o cidadão que habita em cada um de nós? Como dirimir o seu medo, o seu espanto? Nos vastos espaços o ser humano sente-se desamparado, se esgueira e, em vão, procura abrigo, sem jamais encontrá-lo.

Destas reflexões preliminares surgiu este projeto de intervenções que busca criar conflito e jogos irreverentes, desconcertar e desautomatizar os usos do espaço com a finalidade de sensibilizar o usuário, mobilizando-o para desenvolver sua capacidade de análise, discussão e reflexão para que possa compreender a cidade em que vive e atua. Estas intervenções, todas elas pensadas dentro da legalidade (serão utilizados os serviços de um consultor jurídico) e, por conseguinte, pacíficas, deverão ser documentadas e divulgadas através da mídia e permitirão relevar os pontos polêmicos, conflitivos e passíveis de serem pensados e discutidos de forma mais participativa e democrática.

O espaço do poder, por definição, submetido a essas interferências, terá suas funções momentaneamente deslocadas. Sobre o espaço harmonioso e ordenado, as intervenções conflituosas da experiência estética. Arte pública, para criar espaço público, capaz de promover entendimento e serem vivenciados de forma criativa e não convencional.

Criar experiências efêmeras de envolvimento para que o cidadão possa se desvencilhar do medo – de andar a pé, de sentar-se na relva, de ficar sem precisar sair às pressas, criar alguma possibilidade de uma espécie de “flânerie” esdrúxula, entre a cidade e o campo. Todos querem se sentir em liberdade.

Seria possível, sobre um desenho urbano tão rígido, tomar de surpresa a Praça, a esplanada, o mall, sem receios e tomar banhos de sol em maio? Seria possível propor atividades lúdicas inquietantes, no limiar da lei e da lógica?

Será preciso experimentar essas idéias em plenos dias úteis e também nos dias silenciosamente feriados. Ler os espaços com calma, circular, dialogar, torná-lo afável e amigável. Visitá-lo como se visita um amigo.

Este projeto terá seqüência com a criação de textos e slogans que definam, conceituem e identifiquem as intervenções possíveis nos espaços e deverá ter continuidade a partir da criação coletiva de um grupo de artistas e intelectuais.

Intervenções no Eixo Monumental: os sentidos da Arte pública

Muito se tem falado, nos últimos tempos sobre intervenções em espaços públicos. Em São Paulo já foram promovidas duas experiências, sendo que a última tinha como alvo o tradicional bairro do Brás e o centro de Berlim, o Brás-Mitte.

A noção de espaço público vem de longe. Os gregos a desenvolveram e realizaram quase à exaustão em suas ágoras, praças destinadas às diversas trocas sociais, locais de decisões políticas entre os homens livres. Pelos séculos a fora e nas diferentes civilizações, a noção de espaço público vem ganhando um sentido particular, mas guardando sempre a noção de espaço aberto a todos, a praça, o largo, a rua, espaços propiciadores de interações sociais e das manifestações dos cidadãos que só se constituem como tais ao exercerem sua cidadania.

O espaço público, na tradição ocidental, se demarca através de monumentos, obras de arte, principalmente a estatuária, como a estátua eqüestre de Donatello, em Pádua, ou o David de Michelangelo, em Florença, os diversos obeliscos e colunas de Vitória, romanas, napoleônicas, até os murais mexicanos e painéis de azulejos de Portinari, assim como os relevos de fachadas de Athos Bulcão ou as esculturas que o artista Rubem Valentim previa para os vastos espaços da cidade-capital.

É, no entanto, de nossa época, a noção de intervenção em espaços públicos. Em geral são interferências promovidas por artistas com a finalidade de chamar a atenção para um ponto preciso, de interesse coletivo. Veja-se, por exemplo, as intervenções do artista alemão Joseph Beuyes, com suas performances políticas e ecológicas ou as propostas do búlgaro Christo, ao embrulhar monumentos, prédios e pontes de diversas cidades européias, ou do artista catalão Antoni Muntadas ao inserir chamadas contra-ideológicas em seu projeto de limusines ou mesmo interagindo com os meios de comunicação de massas, interferindo nos espaços públicos.

Assim também, nesse projeto que tem como área específica a Esplanada dos Ministérios, estão sendo propostas várias intervenções. Estas deverão provocar um impacto efetivo no sentido de chamar a atenção e promover a reflexão sobre como melhor vivenciar o espaço. O projeto se desenvolverá em várias etapas. A partir da dimensão simbólica contida na escala monumental, terá sua linha teórica melhor desenvolvida com a realização de três oficinas entre artistas e outros profissionais participantes do projeto. Destas oficinas deverão se aprofundar as idéias para as intervenções, além de um texto que servirá como suporte conceitual do trabalho.

Como se trata de intervir no espaço do poder, a ênfase recairá sobre o político. Assim, será necessária a contribuição de um jurista que seja o consultor para que as ações se dêem dentro da legalidade. O conhecimento da Constituição e dos direitos do cidadão, assim como de outros códigos que possam ser postos em questão, deverão ser esclarecidos. As ações deverão ocorrer nas brechas da própria legislação, embora sem ultrapassar os limites do legal. Alguns temas despontam como sugestões: o híbrido e o puro, o cívico e o ritual, a dramatização, a arquitetura e a crítica social, o balanço e o conflito entre os três poderes, etc.

Além dos artistas, alguns outros profissionais deverão ser chamados para compor a equipe: antropólogo, arquiteto, filósofo, advogado, crítico, jornalista. A finalidade do projeto é preparar e viabilizar as intervenções que deverão acontecer sempre no Eixo Monumental, na Rodoviária e na Praça dos Três Poderes. Elas serão documentadas e divulgadas através de meios de comunicação contemporâneos como vídeos, flyers e portais na internet.

Propostas de Intervenções nos diferentes meses do ano

         Intervenção 1

Durante a seca, escrever no gramado palavras que despertem interesse e comoção na população, como LIBERDADE ou JUSTIÇA, em letras gigantes. O gramado seco deverá emoldurar as letras verdes da palavra escolhida, devidamente regadas durante todo o período em que durar a intervenção, isto é, 30 dias.

         Intervenção 2

Durante dois dias, serão espalhados simultaneamente papéis no piso da rodoviária e nas dependências do Congresso. Após esse período os papéis serão recuperados e montados em instalação com as impressões dos calçados dos dois espaços em questão. Serão feitas fotografias dos pés e sapatos que pisam e a instalação deverá ser mostrada nos dois espaços pesquisados.

         Intervenção 3

Em hora de rush, posicionar seis automóveis em cada uma das faixas de rolamento e iniciar o movimento lento, em velocidade mínima permitida por lei, de modo a retardar a chegada dos funcionários aos seus respectivos locais de trabalho. O engarrafamento provocará protestos e a ocasião será utilizada para distribuir panfletos explicando o projeto e seus objetivos.

         Intervenção 4

Durante a troca da bandeira na Praça dos Três Poderes, posicionar defronte ao mastro, no limite oeste da Praça, 100 pessoas vestidas de fraque e cartola, que permanecerão imóveis durante toda a solenidade. Serão também distribuídos panfletos explicativos.

         Intervenção 5

Escrever nas faixas de pedestres ou paralelamente a elas, slogans provocativos como “Já imaginou o perigo de atravessar essa avenida?” ou “Você gostaria de deitar nesse gramado quase sem roupa?”, “Você acredita nos representantes do povo?”

         Intervenção 6

Num dia útil de sol, 100 jovens, em trajes de banho de mar (sunga e biquíni), munidos de guarda’sol e cremes bronzeadores se apossam do gramado, se espalham e tomam sol despreocupadamente como se estivessem em uma praia da Bahia. Aqui também serão distribuídos panfletos aos curiosos que se aproximarem.

Estas intervenções podem acontecer em dias seguidos ou isoladamente, dependendo das conveniências e recursos disponíveis. Cada uma conta por si mesma, são trabalhos independentes, embora todas tenham o mesmo objetivo e utilizem a mesma linguagem.

Imagens

Área na Esplanada dos Ministérios onde deverão acontecer as intervenções. Acompanham também algumas fotos representativas da Esplanada.