Papia
1,2 (1991), p. 119-121
* * *
NOMI
DE KASA
Jorge
Ampa
Guiné-Bissau
Já
que a cultura é um domínio vasto, não admira tratarmos deste tema assinalado em
epígrafe. Contudo, a sua dissertação, embora feita a correr perante outros
tantos problemas culturais a resolver, não seria hoje possível sem a feliz
estada do prof. Dr. Hildo Honório do Couto, lingüista, por Bissau em outubro/90
no quadro da sua já tradicional deslocação à Guiné-Bissau e comunicações no
mesmo país desde há uns anos.
Na
Guiné-Bissau, nome di cassa (ou nome de cassa, nome de kassa, nomi di
kasa, tendo um conta a ortografia ainda existente), é uma apelidação dada à
criança enquanto pequena. Mas à medida que cresce, a situação evolui depois
para várias direções.
a)
Ou perde o nome logo após a fase de bebé: "bébé";
"bébézinho" ou "nené" (nenezinho, etc.). Portanto, o nomi
di cassa (n.c.) fica na infância da pessoa.
b)
Ou acompanha o miúdo nas suas andanças de menino "bulidur", "manso",
etc., podendo ou não ultrapassar esta fase. Por conseguinte, em alguns casos
permanece crescendo com o indivíduo, pelo que pode ultrapassar ou conhecer,
sucessivamente, as seguintes faixas etárias de:
- infâcia
-
adolescência
-
juventude
-
adulto
Enfim,
sobre este capítulo, por razões de tempo, não nos é possível agora discernir
minuciosamente a presente temática em termos de mais pormenores. Mas podemos
avançar o seguinte:
O
n.c. é usado tanto no contexto familiar como no comunitário. Porém, pode atingir
um espaço cultural enorme, isto é, maior do que o anterior como espaço da
criança em referência. Consoante a evolução, o n.c. pode distar muito dessa
origem, atingindo a escala nacional e internacional.
O
n.c. tanto pode ser derivado de um dos
nomes próprios do baptismo (católico, islâmico) da pessoa, como ter certas
origens, a saber:
-
Temporal (por exemplo: "Média", que significa Meio-Dia), e
-
Circunstancial (ou de cariz histórico, social, político e sociocultural,
mágico-religioso, comportando carga de ditos populares, indicadores ou marcos
culturais) de uma dada comunidade num dado momento histórico dessa mesma
comunidade ou sociedade.
Por
tudo o que foi dito até aqui, limitamo-nos apenas a trazer à memória alguns nomes
de cassa bastante conhecidos e usados na Guiné-Bissau:
-
Média, Murido, Negado, N'dingui, Bai-Fas (ou Faxi:Vai-Depressa). Abó-que-bim
(tu é que vieste ou voltaste de novo, reencarnação: quando a mãe perde
filhos...), Hóspri (hóspede - idem de N'dingui, Abó-que-Bim), Djédje, Djédjé ou
Djódje (de Jorge, por exemplo), Du, Dudu, Didi, Pipi (de Pedro), Zé, Zézé,
Zézinho, Quim, Quim-Quim, Quinzinho, Liisinho (de Luís), Tó, Toy, Tony (de
Antônio), Fico (de Francisco), Chico (de Francisco), Meno (de Filomeno), Filó
(de Filomena), Tuya (origem caboverdiana), Nelo (de Agnelo), Né ou Neya (de
Inês), Ova (de Osvaldo), Nino, Nónó, N'cudji (eu achei: encarnação),
Bim-Par-Bai (vir e pronto para partir - encarnação), Bedja (Velha), Bedjo, Nobo
(Novo), Mica(s), Neco, Necas, Lalau (Ladislau), Mando (Armando), Nando
(Fernando), Nanda, Nandinha (Fernanda), Manecas, Filas, Gundas, Duco, Fico,
Djon, Djon-Djon, Jó, Juca-Pires, Tchom-Tchom, Feia, etc.
Mas
a situação complica-se em dado momento para o indivíduo, já que é um ser
eminentemente social ou "zoon politikon". É dizer, falar de nomi
di cassa, em termos de reflexão, na Guiné-Bissau, tem que se falar
obrigatoriamente, aliás, obviamente, de alcunhas, ou seja, nomi di toroça,
(troça). Acerca deste assunto de "alcunhas" e "apelidos",
ver o trabalho do Dr. Hildo Honório do Couto, "Os apelidos do
Cláudio" (in: Humanidades n. 11, 1987/8, p. 65-70).
Existem,
pois, na Guiné-Bissau, nomi di cassa, nomi de toroça, nomi de manjuandadi
ou colegação (certos grupos restritos auto-organizados com base na faixa
etária, sem discriminação de sexo). Um fenômeno curioso: embora aconteçam em
menor escala, há casos de herança de nomi di toroça. Aqui é que a
situação se torna complicada e embaraçosa para a pessoa alvejada: o n.t. passa
automaticamente (não por via biológica, matrimonial ou baptismal, em termos
oficiais ou tradicionalmente e oficialmente reconhecidos) de pai para filho ou
de irmão mais velho para irmão mais novo. Esta investidura é, de facto,
"violenta" psicologicamente, porquanto tenta às vezes (se não na
maioria dos casos) atingir a pessoa, pois é uma investidura decidida, por um
lado, da parte dos colegas de "detentor(es)" do nomi de toroça,
e, por outro lado, da parte dos colegas "empossados". Na
Guiné-Bissau, esses nomes ainda hoje ferem bastante a susceptibilidade dessas
pessoas:
TÊM
QUE SER USADOS SÓ POR COLEGAS OU AMIGOS ÍNTIMOS E EM LOCAL RESTRITO
("privadamente privado").
Esses
nomes quase que assumiram conotação ou ligação histórica e eterna (carne e
osso) e com essas pessoas ainda vivas no país, e em Bissau.
Mas,
para ter uma idéia, eis alguns nomes de toroça de carácter genérico,
bastanto abstracto e muito longe dos nomes de toroça já encarnados:
Secu-Secu (Magricela), Cumprido (Alto, Comprido), Pó-Ferro (Pau-Ferro),
Badjungo-Fero, Rapá-Garandi (Rapaz Grande). Há ainda os nomes indirectos e
impessoais: Manga-Fulano, Estin, Dona-Cassa, Noiba-Nobu, etc.
A
nossa situação e instinto de observação impelem-nos a avançar estes dados
provisórios até a confirmação da estatística real, na Guiné-Bissau:
-
Percentagem aproximada de nome di cassa (já agora, dando boléia ou
"carona" aos nomes di toroça, mandjuandadi, etc.), a nosso
ver, é de:
-
Falantes de português-crioulo ................... 70%
-
Falantes de crioulo .................................... 75% a 80%
-
Falantes de línguas étnicas:
a)
islamizadas e animistas: manjacos, mancanhas, papéis, fulas, mandingas,
beafadas, etc: 50%; b) balantas
............................................. 100%
(Entre
estes últimos cada nome é um nomi di cassa e é um dito ou adágio).
Resumindo
e começando a conclusão (em vez de "concluindo"), pode-se afirmar
que, na Guiné-Bissau, cada pessoa enquadrada neste esforço de reflexão, e
talvez mesmo aquelas que ficaram fora das porcentagens, têm em média 2 ou 3
nomes. O nome oficial é quase inexpressivo, isto é, não de utilidade
diária. Apenas em atos oficiais, solenes ou de "prisão perpétua" do
dedo que recebe o anel ..... COITADINHO(S).
Pois
é, há casos de indivíduos contendo até mais de ma dúzia de nomes.
Outro
fenômeno curioso: os n.t. podem, quando manipulada a mentalidade do meio pela
pessoa visada, ser transformados em nome di ronco (nome de exibição, de
glória, de identidade, de afirmação social, máscula, etc., etc.). Há locais e
circunstâncias que também dão nomes. Podemos encurtar ou "adquirir" (querendo ou não)
nomes:
- Na escola
-
Nas atividades lúdicas (desporto, natação, etc.)
-
Nas atividades de lazar (comemorações, festas, etc.)
Na
Guiné-Bissau existem personalidades famosas que têm n.c. Aliás, conservaram o
n.c. Ou, ainda melhor, o espaço cultural, a comunidade, o(s) bairro(s) e a
sociedade inteira (a nível da afirmação velada no subconsciente coletivo
nacional) passou, portanto, a exigir. É taxativo!!! Senão a pessoa
"perde-se". A gente não sabe.
Enfim,
finalizemos o nome di cassa com algumas personalidades importantes do
meu país (Guiné-Bissau) e também de outros;
Nino
Vieira (João Bernardo Vieira -
Presidente da República)
Thico
Té (Francisco Mendes)
Ova
(Osvaldo Vieira)
Abel
Djassi (nome de guerra de Amílcar Cabral).
Ah!
Não esqueçamos que alguns nomes têm que ser pronunciados em bloco: Victor Saúde
Maria ou Victor Freire Monteiro.
O
autor é jornalista, escritor e investigador do INDE (Instituto Nacional para o
Desenvolvimento da Educação).