Fundamentos da Arte Computacional nas Artes e nas
Ciências
Tania Fraga
1.
Introdução
A
arte tradicional foi elaborada a partir de um paradigma relacionado à
aparência das coisas e seus modos de representação
e contemplação. A arte moderna baseou-se num paradigma
centrado na auto¾expressão
do artista. Por sua vez a arte contemporânea baseia-se em
constructos teóricos centrados em processos ¾
processos de criação, de transformação,
de interação, de conexão, de ação
¾
e conceitos ¾
de justaposição, de multiplicidade, de aleatório,
de equilíbrio dinâmico, de auto organização,
entre outros; ela visa a participação e o despertar de
um novo tipo de consciência criativa e coletiva.
Autores
como Kristine Stiles, Arthur Danto e Rosalind Krauss 1,
entre outros, caracterizam a Arte Contemporânea como
auto¾referenciada.
Ela parte de referências ao conjunto das obras de arte de um
passado recente, juntamente com conceitos dialéticos situados
na fronteira entre o ser e não ser, entre o concreto e o
abstrato, entre o real e o virtual, entre o material e o imaterial.
É
quase impossível determinar o momento preciso a partir do qual
os artistas deste século começaram a desmaterializar a
obra de arte. Podemos constatar que esse fato está intimamente
relacionado às pesquisas realizadas com os suportes das obras
e que se desenvolveram, principalmente, a partir da década de
50.
Com o intuito de analisar, neste ensaio, o campo da
arte e tecnologia no contexto da arte e ciências
contemporâneas, delineamos um conjunto de referências,
visando compreender o campo artístico como um laboratório
experimental no qual ocorre a geração e o aprimoramento
de novos códigos e linguagens. Nesse laboratório
podemos identificar a constelação de conjuntos de
estratégias os quais são testados em um constante
processo de amplificação de repertórios. Dessa
busca-se, continuamente, aclarar certas relações e
procura-se identificar as restrições e as conexões
existentes entre os diferentes sistemas sígnicos que emergem
do campo.
A
hipótese aqui formulada é que esta base teórica
assenta-se na perfeita integração entre o conhecimento
técnico e o conhecimento científico de uma sociedade os
quais são expressos nos signos artísticos produzidos no
seu interior, tornando necessário o entendimento, sintético,
dos novos paradigmas que nela se instauram.
2.
O Contexto Histórico
Hoje, no Ocidente,
no campo das ciências e das artes, ocorre um processo
acelerado de transformação nos paradigmas que, nos
últimos três séculos, constituíram os
baluartes da nossa civilização. Assim, novos
horizontes conceituais fazem-se necessários pois os paradigmas
vigentes não mais permitem a coerência do sistema e
começam a ser refutados. O processo de transformação
não se faz sem resistências e muitas vezes as convulsões
sociais atrasam as mudanças.
Um
grande equívoco que se estabelece, muitas vezes, sobre a
natureza dos paradigmas, baseia-se no fato de não ser o
paradigma, nem certo nem errado, pois ele apenas reflete uma
perspectiva do grupo que o adota. Ao tirarmos uma foto podemos
escolher seu enquadramento, o tipo de lente, ou até mesmo
optamos por escolher certos filtros. A melhor solução
dependerá das circunstâncias, do contexto, do objetivo
pretendido, entre outros fatores.
É
preciso, também, ter consciência sobre o fato de o
desenvolvimento de uma nova tecnologia ser fator decisivo, embora
insuficiente, para o estabelecimento de uma nova forma de fazer
sensível e expressivo. Quando olhamos para trás, ao
longo da história humana, constatamos que, geralmente, as
tecnologias de produção caracterizaram as civilizações
e determinaram, ao longo do tempo, os valores estéticos, o
referencial ideológico e o repertório formal e
simbólico próprios a cada período.
Nossa capacidade de inventar formas restringe-se ao
conhecimento que nos advém daquele obtido através do
uso das tecnologias já conhecidas. Para desenvolver
repertórios adequados às tecnologias emergentes é
preciso estabelecer hipóteses de pesquisa que propiciem o
desenvolvimento de novas linguagens. Portanto, no momento atual, é
preciso utilizar as tecnologias computacionais de produção,
assim como as telemáticas, para a invenção de
repertórios a elas adequados. Esses repertórios poderão
explorar possibilidades morfológicas com vistas a atingir
outros patamares de descoberta os quais poderão possibilitar o
exercício continuado da sensibilidade.
Os
grupos que trabalham com arte e tecnologia têm se mostrado
sensíveis a essa necessidade e têm dado prosseguimento
às pesquisas de linguagem, continuando o processo iniciado nas
décadas de 50 e 60, o qual conduziu ao fato inevitável,
para o artista, de precisar compreender os novos paradigmas que
emergiram com o desenvolvimento da ciência contemporânea
e que culminaram no desafio colocado pela necessidade de utilizar e
humanizar as tecnologias computacionais e telemáticas.
A
partir da hipótese acima descrita torna-se necessário
compreender resumidamente como as ciências exatas e naturais
incorporaram certos conceitos, ao longo de seu desenvolvimento, e
assim compreender sua subsequente transformação. Desse
modo verificamos que os antigos sistemas foram sendo incorporados aos
novos, dos quais passaram a ser casos específicos.
Paralelamente procuraremos, também, estabelecer suas relações
gerais com as transformações que ocorreram no campo das
artes.
Para
iniciar é preciso lembrar que a representação
visual no período renascentista trouxe o conceito de espaço
para o nível consciente. A partir desse período esse
conceito passou a ser tomado como fonte de experiências
sensoriais humanas perdendo, aos poucos, sua característica
alegórica. Paulatinamente o espaço passou a ser
organizado segundo as regras mensuráveis da percepção
visual, regras estas que o descreviam matematicamente e tornavam
próximas, sua representação e as sensações
que o relacionavam com a realidade física. Esse tipo de
representação baseada na mímese entre o mundo
real e o representado, atingiu uma aparência de grande
vericidade e os métodos de representação do
mundo físico adquiriram um enorme grau de sofisticação
2.
Tais
métodos, baseados na construção de perspectivas,
evoluiram de modo a não mais precisar de montagem em função
de um ponto central de convergência das "fugas"
paralelas à direção do olhar do observador, mas
passaram a ser construídos com diferentes "pontos de
fuga", quais sejam: um para cada direção do espaço
em relação aos três eixos ortogonais entre si,
tomados como referência. O sistema ganhou autonomia, e a cena
passou a ser representada de diferentes "pontos de vista".
Nesse período a arte, a técnica e a ciência foram
sintetizados no magnífico conjunto de obras criados e que
conhecemos sob a designação de Renascença,
Barroco, Rococó e Néo¾clássico.
Hoje
outro panorama se apresenta. A produção industrial
seriada construiu um mundo onde a indeterminação, o
dinamismo, a multiplicidade das alternativas estabelecem uma
realidade percebida como fragmentária, caracterizando uma
visão de mundo e um modo de vida 3.
As forças
naturais e físicas não mais são representadas de
modo antropomórfico, mas são apresentadas como
fenômenos. O artista, nesse contexto, busca transcender os
limites de sua individualidade libertando-se da representação
de si próprio e do mundo imediato que o cerca, procura não
mais representar mas apresentar, no sentido de desvelar, as forças
naturais e cósmicas, as quais, para muitos, passam a ser
objeto de conhecimento e reflexão.
O
espaço e o tempo antes caracterizados como instâncias
independentes e distintas perderam tal caráter. A sua fusão
no conceito de espaço¾tempo,
hoje considerado como aspectos interdependentes da realidade física,
constitui um novo modelo simbólico a ampliar o conhecimento e
a compreensão do mundo 4.
Embora
não seja possível construir um modelo sensório
daquilo que se denomina espaço-tempo é possível,
entretanto, compreendê-lo através de analogias e
metáforas, e é também preciso entender seu
significado físico¾matemático,
mesmo sem aprofundar na sua formulação analítica.
Esse conceito baseia-se em geometrias que são geralmente
denominadas de não euclidianas, e que começaram a ser
construídas no século XIX. Nesse período, um dos
cincos postulados básicos de Euclides ¾
aquele que considerava a reta como sendo a menor distância
entre dois pontos ¾
foi ultrapassado, sendo que esse trajeto mínimo, desde então,
passou a ser determinado pela estrutura do espaço 5.
A
teoria geral da relatividade de Einstein apoiou-se nessas novas
geometrias para estudar os movimentos das estrelas e dos planetas
através das mudanças na estrutura espaço-temporal.
A presença de matéria passou a ser o fator determinante
da estrutura do espaço-tempo e não algum tipo de
atração entre os corpos como postulava a mecânica
newtoniana. Assim, a matéria curva o espaço e este
movimenta a matéria, movimento este que caracteriza o tempo:
espaço, tempo, matéria e movimento só podem ser
abordados considerando sua interdependência. O modelo
relativista, como tem sido chamado, possibilita conceber situações
paradoxais como inerentes ao mundo físico6.
Matéria,
espaço e tempo podem tanto se expandir ilimitadamente, como
reduzir-se até deixar de existir, caracterizando-se como um
ponto matemático denominado singularidade. Esta palavra trás
subjacente ao seu significado o limite conceitual que o pensamento
consciente pode abarcar. Para Susanne Langer 7
qualquer que seja a penetração que a mente humana possa
alcançar ela pode apenas trabalhar com os órgãos
que tem. Isto dificulta a compreensão dessas novas teorias
pois elas muitas vezes não podem ser visualizadas e
precisamos recorrer a metáforas para poder entende-las.
Dando
prosseguimento é preciso lembrar que o físico Max
Planck concebeu como sendo propriedades fundamentais da natureza,
tanto a descontinuidade quanto a dualidade, e assim estabeleceu as
bases da mecânica quântica, que constituiu-se numa
ruptura conceitual sem precedentes e configurou-se numa nova maneira
de conceber o mundo físico.
Em
1926 Heisemberg percebeu, quando estudava a posição e
velocidades de partículas em micro física, que havia um
conflito conceitual nesse campo. Formulou então experimentos
mentais, verificando ser impossível obter informações
simultâneas sobre a posição e a velocidade das
partículas elementares num instante conhecido. Essa
verificação consistiu no princípioi por ele
denominado de "princípio de incerteza". Ao escrever
que "por uma questão de princípio, não
podemos conhecer o presente em todos os seus detalhes",
Heisemberg rompeu com todo e qualquer determinismo clássico.
Para lidar com os fenômenos com que trabalhava ele criou o
conceito de "ondas de probabilidades", concebendo campos
onde eventos probabilísticos se propagavam no espaço e
no tempo ¾
essas ondas são ondas conceituais a mostrar o aspecto espaço
temporal do movimento dos elétrons8.
Em
1927 Bohr formulou o "princípio da complementaridade"
o qual possibilitou conceber a matéria como dual ¾
onda e partícula ¾
desde que só utilizemos um dos conceitos de cada vez. Desse
modo, ambos os modelos complementares passaram a representar a
realidade física, mas não podem ser simultaneamente
compreendidos.
A
teoria de Bohr possibilitou ao físico teórico, Wolfgang
Pauli verificar que "em um sistema físico dois elétrons
não podem estar no mesmo estado". Essa afirmação
se constituiu no princípio denominado de "princípio
de exclusão de Pauli". A partir desse momento estava
formada toda a estrutura conceitual de uma nova teoria, o que
possibilitou ao matemático Dirac inventar um modelo ainda mais
complexo de universo, invisível e imperceptível, no
qual o espaço vazio está preenchido com partículas
de energia negativa de uma nova espécie de matéria
denominada antimatéria.
Em
1930 o lógico Gödel formulou e provou um novo teorema
denominado teorema da Incompletude o qual postulava que,
se um sistema é consistente então ele é
incompleto 9.
Desde então partículas virtuais inobserváveis
são fundamentais para a explicação de fatos
observáveis. Incerteza, probabilidade, complementaridade,
previsões estatísticas e interferência no sistema
observado pelo ato de observação constituem conceitos
fundamentais responsáveis pelo desenvolvimento das tecnologias
dos super-condutores, dos chips, do raio lazer e dos
micro computadores, além de terem permitido o descobrimento da
molécula helicoidal do DNA e do subseqüente
desenvolvimento da engenharia genética, da geometria fractal,
dos sistemas dissipativos e auto¾organizados,
da ciência do caos, do equilíbrio dinâmico, entre
muitos outros. Com o desenvolvimento da teoria quântica cada
vez torna-se maior a distância entre os modelos criados para
compreender o sistema sensorial humano e os modelos matemáticos
mais adequados para explicar a natureza.
A
falta de conhecimento das relações que possam existir
entre as matrizes cognitivas com que percebemos o mundo e aquelas que
o mundo externo nos impõe caracterizam os enigmas com que nos
deparamos ao observar o universo. É nesse contexto que as
manifestações artísticas e as formulações
matemáticas se encontram. Parafraseando Duchamp podemos dizer
que a finalidade da produção artística
contemporânea é criar processos e situações
desconhecidos através de elementos conceituais possíveis,
presentes, mas não evidentes, resultados da exploração
criativa de matrizes mentais. Conceber que a mente humana funcione
como um sistema integrado e imaginar essa mesma mente a formular os
conceitos anteriormente descritos e a olhar para o mundo através
de uma perspectiva visual anacrônica, não faz muito
sentido. Esse é um fenômeno artístico e aos
artistas e teóricos da arte concerne a sua exploração.
Compreender, mesmo
que sucintamente, o conjunto de conceitos elaborados neste século
pelas ciências físicas e matemáticas,
principalmente, torna também possível compreender as
pesquisas que eclodem no campo das artes visuais e da música
contemporâneas e que, de modo complementar, vão criar as
metáforas capazes de expressar os modelos anteriormente
descritos.
3.
Conclusão
Os
artistas, ao serem assim desafiados, são levados a conceber
outras realidades e são instigados a criar novas metáforas.
O artista explora, descobre e concretiza possibilidades das quais não
tem certeza alguma. Visa apenas exercitar sensibilidades, despertar
curiosidades e impulsionar ações para si e para os
outros. Nesse percurso ele resgata universos de possibilidades,
provocando, no outro, uma qualidade de apreensão de algo,
levando a consciência para um estado de disponibilidade
esvaziada de tudo, exceto da pura sensação resultante
do efeito que este algo produziu. Desse modo dilui as fronteiras
entre a qualidade que se apresenta e a reação que ela
produz na mente dos indivíduos que a percebem 10.
Assim,
os artistas constróem metáforas com bases nos
paradigmas que se instauram nas diversas áreas do conhecimento
humano. Ao experimentar com os conceitos de virtualidade, de
equilíbrios instáveis, de dimensionalidade, de campos
mórficos11,
de sistemas dinâmicos, de irreversibilidades, de topologias
multidimensionais, de espaço-tempo, de auto-organização,
entre outros, eles desvelam possibilidades criativas ainda não
exploradas.
O
momento de transformação pelo qual passamos vê
delinearem-se novas vertentes para futuras explorações
sensíveis, num espaço-tempo onde matéria e
energia transformam-se, uma na outra, incessantemente. Assim,
artistas aventureiros criam espaço-tempo no qual o
público pode imergir. Esses trabalhos apresentam-se ao CORPO
que os experimenta como signos prontos para receber novas
significações. Dessa maneira os artistas tentam
compreender seu tempo e com ele dialogar, transcodificando
conceitos e buscando resgatar, nesse percurso, a idéia
transformadora de obra¾processo¾incompleta
e em permanente devir.
4.
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1
ver
Arthur Danto ¾
(DANT97), pg. 22-24; Rosalind Krauss ¾
(KRAU96), pg. 261-274 e pg. 277-290; Kristine Stiles ¾
op. (STIL96), pg. 384-396.
2
ver
Edmund Couchot ¾
(COUC88) e (COUC92).
4
ver
Paul Davies, John Gribbin e Ruppert Sheldrake ¾
(DAVI92), pg.7 e (SHEL92), pg. 100.
5
ver
Adles, Adler e Alberti ¾
(ADLE58), (ADLE67) e (ALBE92).
6
ver
Heisemberg e Hilbert ¾
(HEIS87) e (HILB52).
7
ver
Suzanne Langer ¾
(LANG53) e (LANG72).
8
ver
Heisemberg ¾
op. Cit.
9
ver
Roger Penrose (PENR93).
10
ver
Lúcia Santaella em (SANT94), pg. 139.
11
ver
Rupert Shekdrake ¾
(SHEL94), pg. 127, 128, 156.